Ailton Villanova

6 de setembro de 2015

O Matador de Papagaio

     Boquinha da noite de uma terça-feira, maior tranquilidade na Delegacia de Plantão da Polícia Civil – à época instalada na esquina ao lado do palácio do governo -, a autoridade respectiva e auxiliares discutiam futebol, na sala da recepção. Em dado momento, a polêmica alcançando o auge, eis que surgiu no ambiente um senhorzinho baixinho, franzino, bigodinho ralo, olhar de águia, que cumprimentou:

     – Boa noite!

     Calou-se todo mundo e apenas o delegado respondeu:

     – Boa noite!

     O baixinho prosseguiu:

     – É aqui a delegacia de polícia?

     Aí, todos responderam em coro:

     – É, sim senhor!

     – O delegado tá?

     O próprio apresentou-se:

     – Sou eu, cidadão. O senhor está com algum problema?

     – Tô, doutor. Posso falar com o senhor?

     – Pode. Vamos até a minha sala.

     Foram. O delegado acomodou o cidadão numa poltrona confortável e disse:

     – Pronto, meu amigo. Sou todo ouvidos. Qual é o seu problema?

     E o velho:

     – É que eu cometi um assassinato…, doutor. Acho que dois! Esta tarde, não sabe?

     – E como foi isso? Antes, porém, me diga o seu nome e sua idade…

     – Meu nome é Oldoceu Xavier e tenho 86 anos…

     – Agora, vamos ao fato. Me conte tudo!

     – Bom, eu moro do Tabuleiro do Martins, perto da igreja católica. Sou um homem pacato, respeitador e não admito ser desfeiteado, tô certo, delegado?

     – Certíssimo. Prossiga.

     – Brigado. Como eu ia dizendo, tive de cometer esse crime porque fui desmoralizado. Eu estava me dirigindo à padaria para comprar um pãozinho pro café desta noite e, ao passar pela porta de um vizinho novato, duas casas depois da minha, notei que havia um papagaio trepado no poleirinho dele…

      – Ah, papagaio é uma ave inteligente e bonita. – interrompeu o delegado. – Esse papagaio é bonitinho?

      – Era! Era bonitinho, safado e desrespeitador!…

      – Ah, era? Continue, por favor.

      – Pois bem, quando fui passando, infeliz abriu o bico e disse: “corno!” Gelei, doutor! Gelei, e morri de vergonha. Olhei em redor, vi que não tinha ninguém espiando e fui em frente. Mas, fui indignado. Comprei o meu pãozinho pra tomar café com minha mulher Otília, e voltei. Voltei, rezando pra não encontrar novamente o papagaio. Mas encontrei! Ele estava lá no poleiro, cantando, todo feliz. Fiz que o vi e fui passando, passando, até que passei…

       – E o papagaio? – indagou o delegado.

       – Bicho matreiro, doutor. Quando terminei de passar e já estava abrindo a porta da minha casa, o infeliz gritou de lá, com aquela voz de taboca rachada: “corno!” Alguém já lhe chamou de corno alguma vez, doutor?

       – Êpa! O que é isso, seu Oldoceu? O cabra que me chamar de corno eu passo fogo nele, na hora! Mas, continue a sua história.

       – Tá, bom. Tá certo. Olhe, doutor, quando o safadinho me chamou de corno pela segunda vez, fiquei cego. O mundo empreteceu, minhas pernas bambearam e entrei na minha casa disposto a tudo. Contei pra minha mulher o acontecido e ela aconselhou: “Deixa pra lá, meu velho. Você sabe que não é corno, porque nesses anos todos sempre lhe fui fiel… Ligue não!” Fiz que não liguei, mas fiquei com aquele troço remoendo o meu juízo. Botei os pães na mesa e, quando estava me preparando para tomar o meu café, me deu uma agonia no coração. Me levantei, corri até a calçada e fiquei encarando o papagaio, que continuava tagarelando, trepado no poleiro. Cheguei mais pra perto… e ele: “corno!” Aí, comecei a ver o mundo encarnado!

     – E não era preto, seu Oldoceu? – aparteou novamente o delegado.

     – Era! O senhor disse bem. Dessa vez o mundo ficou vermelho porque o sangue me subiu à cabeça! No que subiu, corri pra casa…

     – Fez bem!

     – …entrei no quarto, dei garra da minha pistola de dois canos, fui de novo pra rua e parei na porta dele!

     – Do papagaio?

     – E de quem mais poderia ter sido, doutor? Parei na porta do pilantrinha e provoquei: “Quem é corno? Me responda, safadinho!”

     – E ele respondeu?

     – Responder o quê, doutor! O bicho era covarde. Nessa hora, escutei a voz da minha mulher chamar: “Vem pra casa, Ceuzinho! Não faz besteira, homem de Deus!” Como eu prezo muito a minha mulher, fiz meia volta e estava caminhando de volta para o meu precioso lar, quando ouvi, com estes ouvidos que a terra haverá de comer, o papagaio gritar de lá: “Já vai, corno?”

     – Ah, seu Oldoceu, essa foi demais! E o que o senhor fez?

     – Voltei correndo sobre os meus próprios passos, parei na porta do cretino, empunhei a minha pistola e puxei o gatilho. Dei dois tiros nele. Um dos tiros arrancou-lhe a cabeça!

     – Feito isso, o senhor correu até aqui!

     – Não, doutor. Corri depois.

     – E o que o senhor fez depois que assassinou o papagaio?

     – Tentei matar o dono dele!

     – Meu Deus do céu! E precisava isso, seu Oldoceu?

     – Precisava. Sabe por quê?

     – Não.

     – Porque quando o sujeito soube que eu havia matado o papagaio dele, foi até a minha porta e me ameaçou. Aí, abri o meu baú, tirei de dentro minha espingarda calibre 12 e dei um tiro no cabra!

      – E ele morreu?

      – Não sei, doutor. Quando corri pra cá, deixei ele estrebuchando na calçada!