Ailton Villanova

5 de setembro de 2015

Ele quis apenas ajudar!

     Evangélico dos mais compenetrados, Audísio Gabriel sempre foi visto pelos irmãos em Cristo, pelos amigos e pelos parentes, como a solidariedade em pessoa. Em momento algum, deixou de estar ao lado daqueles que necessitaram do seu socorro, do seu favor, independente da circunstância e do momento. Todavia, em razão da humilhação a que foi submetido, outro dia, ao tentar socorrer uma mulher, vem pensando seriamente em rever essa sua qualidade de homem prestimoso.

      Comerciário, Audísio Gabriel saía de casa, no distrito da Cambona, todas as manhãs, bem cedinho, para pegar no serviço às 8 da matina. Ia a pé, para “exercitar as canelas”, conforme justificava.

      Naquele dia, porém, resolveu se deslocar para o trabalho (ele era vendedor de uma sapataria localizada na Moreira Lima) montado num coletivo da linha de Bebedouro, porque o tempo estava ameaçador (céu escuro, prenunciando chuva). Em assim sendo, dirigiu-se ao ponto de passageiros que ficava em frente a finada fábrica de biscoitos Brandini’s e ficou lá, aguardando a chegada do coletivo. Quando o dito cujo se aproximava, eis, que, de repente, surgiu uma mulher gordona dos seus 250 quilos, mais ou menos, e lhe tomou a frente. E ainda provocou:

     – Achou ruim??

     – Não senhora. Fique à vontade… – respondeu “irmão” Audísio.

     Nesse momento, o ônibus parou, com um freio de arrumação violentíssimo, aplicado pelo motorista. Aí, o cobrador, analfabeticamente, gritou, colocando a cabeça para o lado de fora, através da janela:

     – Podem subirem!

     A gordona avançou, empurrando as pessoas, e procurou subir no veículo. Cadê que podia?

     E o cobrador:

     – Vamos, dona! A gente num pudemos ficá aqui isperando a vida toda pela boa vontade da senhora!

     E a gorda:

     – Tá avexado, é? Pois num tô nem um pouco!

     E ela insistindo em subir no ônibus. Com muito sacrifício, conseguiu colocar uma perna no primeiro degrau e… entalou! Não subia e nem descia.

      A gorducha entalada, e o cobrador enchendo o saco da infeliz (“Sobe, dona!”). Nesse momento, falou mais alto o espírito de solidariedade do Audísio. Sem pensar duas vezes, ele apoiou as duas mãos no enorme traseiro da volumosa mulher e começou a empurra-la para dentro do coletivo.

       Ao sentir as mãos do Audísio nas suas exageradas nádegas, a rechonchuda escandalizou:

       – Larga a minha bunda, tarado safado! Socorro! Tem um tarado aqui, futucando a minha bunda!

       Foi nessa ocasião que aconteceu a desgraça: ao procurar se livrar das mãos do apavorado Audísio, a gorda prendeu uma das referidas entre a sua bunda e a porta do carro.

        E o Audísio:

        – Solte a minha mão, dona!

        – Solte você a minha bunda primeiro, seu safado!

        Do seu canto, o cobrador avisou:

        – Vâmo acaba cum essa isculhambação aí? Se num acabá, eu chamo a puliça!

         Nem precisou chamar a polícia, porque naquele momento passava pelo local uma viatura da Rádio Patrulha. Ao observar a confusão, o sargento que comandava a patrulha desceu do veículo de revólver em punho:

         – Êpa! Que imoralidade é essa aqui? Todo mundo preso!

         Ao escutar a voz de comando do PM, a gordona se desgarrou do corrimão e caiu de costas sobre o evangélico, quase matando o coitado esmagado.

     Decorridos meses do lamentável ocorrido, estendido num leito hospitalar, irmão Audísio Gabriel, medita seriamente sobre sua situação porque, quando deixar o nosocômio terá  que pagar uma cadeiazinha, de leve, por “atentado ao pudor” e “tentativa de estupro”.

 

Ihhh, que vergonha do amigo!

    No barzinho de sempre, dois amigos que nunca mais haviam se encontrado deram de cara um com o outro. Aí, foi aquela festa!

     – Mas, Rolibaldo, rapaz, nunca mais lhe vi! Tava doente, ou viajando?

     – Nem uma coisa e nem outra, Paulinho… Eu ando trabalhando demais!

     – Aaaahhhh! Bem logo vi!

     – Bem logo viu, o quê?

     – Você conhece o Ezequias, não conhece?

     – O “Quia”? Claro, pô! O “Quia” é o meu melhor amigo, desde a infância. Nós somos como irmãos. Mas, o que é que tem o “Quia”?

      – Ele tá comendo a sua mulher!

      – Ah, Paulinho, isso não! Não acredito! Olha, vou lhe dizer uma coisa… o Ezequias é incapaz de fazer uma coisa dessas comigo. Pode fazer com qualquer outro, mas comigo, não!

       – Pois é. Mas que ele tá comendo a sua mulher, tá, sim! Fica de olho, meu irmão!

       Nos dias que se seguiram, cada vez que Rolibaldo e Paulinho se encontravam, o venenoso sustentava a história de que o Ezequias estava comendo a mulher do amigo.

       Mesmo não acreditando, o Rolibaldo resolveu tirar a história a limpo. Correu mais cedo pra casa e se escondeu no guarda-roupa do quarto do casal. Não demorou muito, chegou a mulher dele, acompanhada de quem?… do Ezequias.

      Parecendo estar bem familiarizado com o ambiente, Ezequias se jogou na cama, bem à vontade. Rolibaldo só de butuca, espiando pela fresta da porta do guarda-roupa. A mulher começou, então, a fazer um strip-tease para o Ezequias. Começou tirando as peças de cima, até ficar só de calçola e sutiã. Tirou a parte de cima da langerie, e os peitões flácidos despencaram para cima da barriga, até chegarem ao umbigo. Quando tirou a calçola, liberou as banhas aprisionadas e o barrigão desabou com tudo.

     Dentro do guarda-roupa, Rolibaldo escondeu a cara com as mãos e comentou, baixinho:

     – Ai, meu Deus! Que vergonha do meu amigo “Quia”!

 

Era um apontador!

     Depois de uma viagem à Europa, o Gerúndio voltou com a bagagem cheia de novidades. Orgulhoso, ele mostrava ao amigo Coriolano a boneca inflável, que comprara na França:

     – Ela é fantástica! Vem com um processador Pentium III, 600 Mhz e faz de tudo: redige cartas, faz a contabilidade, anota recados…

     – E quanto ao sexo? – indagou o amigo, curioso.

     – Incrível! Em te conto! Leva ela pro banheiro e experimenta!

     Todo afobado, o Coriolano se trancou no banheiro com a boneca. Daí a pouco, ouviu-se um pavoroso grito de dor. 

      – Uaaaaaaiiiiiurrrrrrggaaaa…

      – Putaquipariu! – exclamou o Gerúndio, batendo na testa. – Esqueci de avisar ao Coriolano que a boca da boneca é um apontador automático!