Ailton Villanova

3 de setembro de 2015

O Cantor Muito Louco!

     Dona Esmeraldina, senhora de respeito e extremamente submissa aos preceitos religiosos, só teve tempo de parir um filho. Quando ela e o marido Galisteu bolavam a ideia de terem o segundo, eis que o infeliz do consorte bateu as botas, depois de ter sofrido um infarto do miocárdio. Felizmente, o rebento já estava batizado com o nome de Bituélvio.

     O garoto nasceu sadio, entretanto contraiu um pequeno defeito no juízo e ficou piradinho, quando tinha 5 anos de idade, consequência de desastrada do alto da lavanderia. Mero acidente doméstico. Dona Esmeraldina administrava o banho matinal do garoto e aí se descuidou. No que se descuidou, ele escapou de suas mãos e caiu de cabeça no chão. Ficou desmaiadinho durante uns 30 minutos e, quando, recobrou os sentidos, não parava de cantar.

     – Ai, meu Deus! Meu filhinho malucou! – gemeu a mãe.

     Levado às pressas ao médico do antigo SAMDU, o garoto foi examinado minuciosamente. Ao final, o médico definiu:

     – Com a queda, o menino ficou com uma banda do cérebro seriamente avariada!…

     E a mãe, choramingando:

     – Isso é sério, doutor?

     – Seríissimo! De hoje em diante a senhora vai ter que observar bem o seu filho, para ele não pirar de vez!

     – Ai, meu Jesus Cristo!

     – Pois é, madame. Se a outra banda do cérebro dele sofrer algum abalo, aí vai ser caixão e vela preta!

     – O meu Bituzinho vai morrer, doutor?!

     – Nem tanto, madame. Mas lhe garanto que, contrairá uma grave mania, ou ficará doido varrido! Vamos rezar para não se juntar as duas lástimas!

     – Coitadinho do meu Bituzinho!

     E o médico concluiu:

     – Não permita, por hipótese alguma que o seu filho jogue bola com outras crianças…

     – Mas por que, doutor? Meu filhinho não tem nem o direito de se divertir?

     – Esse direito ele tem. Mas não pode se divertir com bola de futebol. A senhora já pensou se ele inventar de fazer gol de cabeça? O cérebro do menino não irá suportar tamanho choque!

     A partir dessa consulta, a vigilância sobre o Bituélvio foi triplicada. Até na escola.

     Os anos voaram e eis que Bituélvio se tornou rapaz, com cérebro torto e tudo. Não enlouqueceu a ponto de atirar pedras nos outros, mas pegou a mania de só viver cantando. Não podia ver um microfone dando sopa. Tomava o equipamento de quem o estivesse utilizando e abria o bocão a cantar.

     Belo dia de dezembro, ele se dirigia ao bairro do Ouricuri, com a intenção de visitar um amigo. Quando, ao transitar pela praça da antiga faculdade de medicina, no Prado, se deparou com uma festança aloprada. Aí, se animou todo e esqueceu o amigo.

     No centro do logradouro, havia um palco todo iluminado onde se exibiam vários candidatos ao prêmio de “Melhor Calouro de Maceió”. A promoção era da Rádio Difusora de Alagoas e o apresentador do show  ninguém menos que o famoso radialista Luiz de Barros. O público superlotava a praça, a gritaria era enorme e as palmas não cessavam.

     Ao observar aquela estrondosa manifestação artística, Bituélvio foi acometido de uma crise de loucura. Aí, não houve quem o segurasse. Ele partiu em direção ao palco na maior disparada, até esbarrar na pessoa do apresentador Luiz de Barros, que só não morreu de susto porque, até hoje, tem um coração de ferro.

     Sem dar a menor atenção as ponderações do apresentador, Bituélvio apossou-se do microfone, virou-se para o pessoal da orquestra, e determinou:

     – Atenção, vocês aí! Botem um dó maior, porque agora quem vai cantar sou eu!

     Dito isto, virou-se para a plateia e completou:

     – Senhoras e senhores, neste momento cantarei a canção de minha autoria intitulada “Você me abandonaste, meu amor/Por que você fez uma maldade dessa comigo/, hein, sua ingrata?”

     Aí, chamou na grande:

     – Você me abandonaaassste meu amorrr…

     Bituélvio só conseguiu cantar até aí, porque foi atingido, no meio da cara, por uma lata de refrigerante. A desgraça, então, se abateu sobre o infeliz, conforme vaticinara aquele médico que o examinara quando ele era criança.

      E Bituélvio continua cantando, sem parar, numa das celas do hospício…

 

O Salmo da Glória

     Padre Climério dirigia tranquilo pela Via Expressa quando, em dado momento, avistou andando pelo acostamento uma freira conhecida sua. Ele parou, ofereceu carona, a religiosa aceitou, subiu no automóvel, sentou no banco do carona, cruzou as pernas e o hábito se abriu, deixando a perna à mostra. O reverendo passou o rabo de olho e continuou dirigindo. Numa troca de marcha ele aproveitou para colocar a mão na coxa da freira. Aí, ela reagiu:

     – Padre, lembre-se do salmo 129.

     Reverendo Climério pediu desculpas e continuou dirigindo. Mais adiante, em outra troca de marcha, ele coloca novamente a mão na perna da freira, que repetiu:

     – Padre, lembre-se do salmo 129.

     O padre se desculpou dizendo:

     – Perdoe-me, mas você sabe que a carne é fraca…

     Mais adiante, a freira desceu. Logo que chegou a sua igreja, o sacerdote correu até a Bíblia para ler o tal salmo 129. Nele estava escrito:

     – “Siga buscando, e logo acima, encontrarás a glória…”

 

Helicóptero sem gás

     Já se tornou fato corriqueiro a polícia percorrer as cidades do interior montada nos carros mais modernos e sofisticados, à cata de bandidos. Ultimamente, nas blitze policiais também são utilizados helicópteros. Numa das últimas dessas fiscalizações, um helicóptero lotado de PMs parou no ar, justo na praça onde fica a Assembléia Legislativa. Aí, um deputado chamou a atenção de certo colega que é ido como um dos mais inteligentes parlamentares do interior:

     – Olha, o helicóptero ficou paradinho no ar!

    E o outro:

    – Eita povo irresponsável! Deixar o helicóptero parar logo onde!… Mas eu já estou manjando na jogada desses caras!

    – Mas o que tem isso, rapaz? Helicóptero para em qualquer lugar?

    – Claro! Principalmente quando não tem gasolina. Eles pararam justamente aqui, só pra mostrar pra gente que estão sem gasolina! Estão querendo fazer confusão!