Ailton Villanova

1 de setembro de 2015

O Consertador de TV

     Sem profissão definida, o ilustre pontagrossense intitulado Paulino Osório, de tudo sabia um pouco; o suficiente para não ter que morrer de fome. Paulino era marceneiro, pedreiro, eletricista, consertador de bicicletas, padeiro, cavador de fossas e, claro, tomador de cachaça. Paulino, que também atendia pelo apelido de “Rabo de Rato”, nunca enjeitou um serviço.

     Mas Rabo de Rato vivia alimentando um sonho, com a mais profunda das esperanças: ser consertador de televisores.

      Um dia, caminhando pela Rua do Comércio, ao passar por uma loja de eletrodomésticos, deparou-se com um depósito de lixo na calçada, onde havia uma revista que tratava exclusivamente de televisores. Pegou-a, levou-a para casa, leu-a com avidez de cabo a rabo e, ao final, se achou apto para consertar todos os tipos e modelos de aparelhos receptores televisivos.

     Mais que depressa, Paulino Osório confeccionou uma tabuleta onde desenhou letras garrafais, que diziam:

     “Conçertasse televizão de todas as marca”.

     Não demorou muito, apareceu o primeiro freguês. Aliás, uma freguesa, que se chamava Estrevaliana e que era amasiada com um motorista de caminhão conhecido como Maninho Olho de Jipe. E foi o próprio Maninho o portador do recado de Estrevaliana:

     – Será que o amigo poderia dar um pulinho na casa da minha noiva, para consertar o televisor dela?

     Rabo de Rato alegrou-se:

     – Mas é claro! Eu tenho inúmeros compromissos para hoje, mas vou abrir uma exceção pro senhor.

     – Muito obrigado. Caso seja possível, o senhor me acompanharia agora?

     – Claro, claro…

     Não demorou muito, o consertador de televisor pintou na residência da cliente. Suas canelas tremeram quando ele reparou no aparelho supostamente defeituoso: era um baita televisor de 60 polegadas.

     Rabo de Rato meteu uma pose de entendido e inquiriu a dona da casa:

     – Por obséquio, madame, me informe desde quando esta televisão está defeituosa?

     E a mulher:

     – Desde hoje de manhã! Eu estava vendo um programa feminino quando, de repente, o televisor apagou! Ficou mudo e sem imagem!

     E Paulino Rabo de Rato, cheio de moral:

     – Ah, minha senhora, hoje em dia esses aparelhos já saem da fábrica com defeito, só para o freguês gastar mais dinheiro comprando peças novas. Mas comigo essa malandragem não cola. Pode confiar que eu dou um jeito no seu televisor, num instantinho…

     A mulher emocionou-se:

     – Graças a Deus! Gente competente e honesta, como o senhor, hoje em dia se vê muito pouco.

     – Agora, se a senhora me der licença, vou começar o meu trabalho…

     E ela, mais comovida ainda:

     – Ah, pois não. Enquanto o senhor conserta o televisor, eu vou ficar aqui no quarto, com o meu namorado…

     Ao se ver sozinho com aquele utensílio enorme, Rabo de Rato assustou-se. Mas, logo se recompôs e meteu mãos à obra. Ao tentar introduzir a chave de fenda na abertura destinada à regulagem da tampa de proteção da caixa de vídeo, o suposto técnico, por desconhecimento total do serviço, errou o buraco respectivo e enfiou o bico da chave na tomada elétrica. Até aquele momento, a força expressora da carga devida estava em falta – no dizer mais comum, “estava faltando energia elétrica” na casa.

         Pois bem, ao impor a chave de fenda na tomada, coincidentemente, a energia elétrica voltou. No que voltou, fechou o circuito e o televisor que havia parado de funcionar apenas por “falta de energia”, nada mais que isso, explodiu – cabruuummm!

     O imóvel quase foi pelos ares, em consequência da explosão. A dona da casa, que tirava um sarro incrementadíssimo com o amante, no aposento contíguo, tomou um susto tão grande que caiu da cama e fraturou um braço. Maninho Olho de Jipe, o amante, caiu de cara no chão, quebrando a venta e cinco costelas.    

     Finalmente, Paulino Osório, o consertador de araque, teve de se submeter a várias cirurgias, inclusive, a transplantes de queixo, de fígado, rins e pulmões. E ainda foi processado judicialmente pelos prejuízos que causou à pessoa de dona Estrevaliana, ao seu imóvel e ao respectivo amante, o motorista Maninho Olho de Jipe.

      Está pagando, na cadeia, por esses estragos todos.

 

Enlouqueceu de tanto pensar

     No pensionato de dona Oscarina, situado no centro da cidade, só moravam estudantes ginasianos, todos oriundos do interior do estado, entre esses o tal de Rodivaldo Botelho, sacana ao extremo. O cara era terrível. Não respeitava ninguém, pincipalmente quando estava biritado. Um dia, pagou caro pelas molecagens que andou aprontando pra cima dos colegas de pensionato.

     Um desses colegas, chamado Manuel Pereira, resolveu se vingar dele na conformidade da maldade de que fora vítima. Certa noite, ao voltar à pensão para dormir, ele encontrou o Rodivaldo puxando o maior ronco, espichado na cama, bêbado que nem um gambá. O que fez, então, Manuel Pereira? Chamou outro morador da hospedaria e propôs:

     – Barbosa, que tal a gente fazer uma pilantragem com esse cara?

     – Só se for agora! – topou o outro. – Como é que a gente faz?

     – A gente faz o seguinte: pega um cocozão daqueles bem adubados e bota dentro das calças dele. Quando acordar, ele vai ficar tão envergonhado com a merda dentro das calças, que nunca mais vai querer saber de beber.

       Pois bem, os amigos tiraram as calças do Rodivaldo, e dentro delas despejaram um monte de cocô. Em seguida, vestiram as calças nele de novo.

     O tempo passou e os dois amigos daquela sacanagem voltaram a se encontrar num dos nossos shoppings. Um deles perguntou ao outro:

     – Ô Barbosa, você tem tido notícias do Rodivaldo? Será que ainda continua bebendo daquele jeito, ou parou?

     – Parou, coitado! Mas ficou maluco!

     – Ficou maluco???!!!

     – Ficou, sim.

     – Por quê?

     – Porque não conseguiu entender, até hoje, como pôde ter feito cocô nas calças sem melar a cueca!