Ailton Villanova

31 de agosto de 2015

O Filho da Mãe

     O Agatirno (Agá, para os mais chegados) era um cara orgulhoso da sua condição de boêmio. Considerava-se o maior de todos, entre os malandros de sua época, que se atreveram, sem o seu aval, passear os solados dos pés pelas quebradas tabuleirenses – do Martins, do Pinto e adjacências. O Agá não admitia concorrente nos territórios que considerava seus. Apesar de não ser dado a arruaças e exibições de valentia, Agá era temido pelo fato de sempre carregar na cinta, uma peça niquelada, entupida de balas do calibre 380.

     Agatirno comia e bebia nos bares sem pagar nada. E quem era doido cobrar dele um centavo, sequer, por qualquer despesa que houvesse feito? Nos tabuleiros do Pinto e do Martins, Agá reinava, principalmente quando estava com o juízo impregnado de vapor de álcool ou de maconha.

      O malandro só respeitava uma pessoa neste mundo: sua mãe, dona Estrevolina. Ai do infeliz que ao menos dissesse que ela era feia. Morria na hora, entupido de balas.

       Acontece que, um dia, o reinado do malandro Agatirno chegou ao fim, por intermédio de um baixinho chamado Clementino Barbosa, vulgo Quelé Oínho.

       Essa personagem, aparentemente insignificante, instalou uma quitanda nas proximidades da residência do Agá e sua mãe (dele, Agá), passou a ser uma das suas freguesas mais assíduas. Um dia, ela chegou em casa reclamando para o filho que havia sido tratada grosseiramente pelo quitandeiro. Agá não gostou e foi pedir satisfações ao baixinho:

        – Se prepare pra apanhar, cabrinha safado!

        Quelé Oínho assustou-se com a ameaça, mas rebateu:

        – Ôxi! Que história é essa? Está pra nascer o homem que vai bater neste baixinho aqui!

        – Pois fique sabendo que já nasceu e você está olhando pra ele! Antes de apanhar, me responda uma coisa… por que você tratou mal a minha mãe?

        – Se sua mãe é uma veínha zarolha da venta de papagaio, fique sabendo que eu a tratei mal, sim. E tratarei quantas vezes ela merecer e eu quiser. Ela me chamou de ladrão, por causa de um troco de 10 centavos. Então, eu disse que ladrão só podia ser o corno do pai dela!      

        – Pois vai morrer, por causa disso, cabrinha safado! Eu vim disposto a lhe dar uma surra, mas diante desse seu desaforo, decidi que vou matá-lo. Se prepare pra morrer, filho da puta!

         Ao proferir a advertência, Agá correu a mão à cinta e tentou sacar a pistola, da qual jamais se separava. Mas o baixinho foi mais rápido: de um pinote, pulou por cima do balcão esgrimindo uma faca-peixeira de 12 polegas. Mal pisou no chão, já foi empurrando a arma barriga a dentro do valentão, que não teve tempo para mais nada, a não ser para gemer:

         – Você me matou, baixinho fidapeste!

 

Mulheres e champanhe

     O coitado do Cordulino vivia apertadíssimo numa sórdida pensão situada no pedaço mais encardido do bairro da Levada. Trabalhava fazendo biscates naqueles armazéns fétidos da margem do Riacho das Águas Negras. Não tinha amigos, não tinha namorada, não tinha ninguém. Todo fim de mês ele pegava um restinho de grana que sempre deixava guardado, passava na banca de jornais da Praça das Graças, comprava uma daquelas incríveis revistas de sacanagens e de mulheres nuas, passava na farmácia do seu Ruy, comprava um Sonrisal e ia para a pensão. Chegava lá, pegava um copo d’água e a revista e ia corria para o banheiro. Lá, ele pregava as fotos das mulheres nas paredes imundas e mal iluminadas, jogava o comprimido efervescente no copo e quando este começava a fazer as bolinhas, ele botava a imaginação para funcionar e, com a mão direita ocupada, levantava a esquerda para cima e gemia de olhos meio cerrados:

     – Ah!… Isso é que é vida! Mulheres! Champanhe!

 

Desodorante com limão

     Sujeito tímido ao extremo, o Ezequias foi à farmácia do Paulo Nascimento, comprar um desodorante íntimo a pedido da noiva. Chegou lá todo encabulado e ficou meio sem jeito diante da balconista.

     – Que deseja, senhor? – perguntou a moça.

     – É… bem… sabe como é… eu queria um desodorante, não é?

     – Aaahh, já sei! – disse a balconista. – Desodorante íntimo, não é?

     – Isso.

     A balconista pegou três tubinhos e deu pro Ezequias ver. Ele olhou, cheirou, examinou, virou-se para a moça, todo vermelho e perguntou:

     – Senhorita… não tem sabor limão?