Ailton Villanova

25 de agosto de 2015

O Batizado do Barco

     O Bercelino Bezerra sempre foi metido a cocô de louro. “Um enxerido de marca maior, isso é o que ele é!”, definiu-o, certa vez, sua sogra, dona Estricázia. O cara tinha uma mania danada de censurar os semelhantes, por qualquer besteirinha. Só ele era quem sempre estava certo em tudo, os outros não. Por conta disso, estava sempre levando a pior. Mas não se emendava. Até que tomou uma lição de quem menos se esperava, o pastor Ezequias, alma boníssima, incapaz de fazer “um mal” até a Satanás, muito menos ao seu semelhante.

     A lição aplicada pelo líder religioso no Bercelino, ocorreu por ocasião do “batizado” do novo barco do engenheiro Argélio Lindoso, patrão do sobredito.

     Adquirida na Argentina, a embarcação do doutor Lindoso era uma coisa linda! Exemplar igual quem possuía era o cantor Roberto Carlos. Mas o Bercelino entendeu de depreciá-la, até por uma questão de inveja:

     – Isso não passa de uma a canoazinha mixuruca, dessas de pegar sururu na lagoa Mundaú! Não sei por quê gastar tanto dinheiro com uma porcaria dessa!…

     Mas, orgulhoso do investimento, doutor Lindoso promoveu uma festa “bacanérrima” (segundo o cronista social Di Menezes) para apresentá-lo aos seus distintos amigos.

      – Não sei pra quê esses estragos todos! – insistiu o Bercelino. – Vale nem a pena!

      Ancorado no píer que seu próprio dono construiu, o barco, que ganhou o nome de “Rei Davi”, “aguardava” o momento de ser batizado oficialmente pelo pastor Ezequias, líder da igreja evangélica da qual o anfitrião e toda a sua família eram obreiros.

      Onze horas da manhã, faltando uma hora para a cerimônia religiosa, chegou o pastor Ezequias, que se fazia acompanhar do secretário Romeu, um ex-lutador de boxe.

     Quando os dois passavam pelo Bercelino e se dirigiam ao lugar determinado para o “batizado”, eis que o referido não se furtou em tecer um comentário reprovativo:

      – Huummm, pra quê essa pressa toda, hein, pastor? O batizado num está marcado para o meio-dia?

      O religioso não respondeu à censura e foi em frente. Mas o Bercelino continuou provocando?

      – Ei, pastor! Vá devagar, meu chapa! Tá doido pra passear de barco, né? Rá, rá!

      Romeu, o ex-boxeur e secretário do religioso, não se conteve:

      – Dou um pau nesse cretino, pastor?

      – Não, um irmão. Eu mesmo farei isso no momento oportuno.

      Não demorou muito, chegou a hora fundamental daquele encontro, cujos convidados se aglomeravam no cais particular do engenheiro. O pastor, empunhando a Bíblia, deu uma temperada na goela e mandou ver:

       – Caríssimos irmãos, estamos aqui, todos reunidos, para testemunharmos um momento de felicidade… Glória a Jesus!

       E os demais:

       – Glória! Glória!

       O pastor prosseguiu:

       – Este maravilhoso barco…

       Bercelino, interferiu:

       – Não tô vendo de maravilhoso, aqui! Não exagere pastor!

       – Cala a boca, imbecil! – gritou alguém, entre os convivas.

       – Silêncio, irmãos! Não atrapalhem, por favor! Bem… como eu ia dizendo, este é um momento de rara felicidade. É a coroação de um instante de grandeza, concedido por Deus Nosso Senhor… Aleluia!

       – Aleluia! Aleluia! – repetiram os presentes.

       Aí, o pastor empolgou-se:

     – E Deus, me concedeu a graça de, neste instante, batizar com a água do Espírito Santo, esta magnífica obra do homem!…

     – Pois Deus está errado! – replicou Bercelino, mais uma vez. – E deixe de soltar mentiras, viu pastor? Tá bom de encerrar essa conversa mole!

     Naquele momento, o reverendo só dispunha de um instrumento para fazer o inconveniente calar a boca: a grossa e pesada Bíblia que tinha entre as mãos. De modo que dela se valeu para aplicar violenta porrada no Bercelino. Quando ele se esparramou no chão, Romeu, o secretário do pastor, o pegou pelo gogó e o atirou, por cima do muro da mansão, a metros de distância, no meio da rua.

       E o batizado continuou na conformidade do que manda o espírito evangelical.

 

Brincadeira de mau gosto  

     O infeliz entrou no antigo Pronto Socorro da Siqueira Campos, bairro do Prado, no maior desespero, derramando rios de sangue por entre as pernas. Antes de chegar ao ambulatório, desabonou no corredor, aos berros:

     – Alguém me socorra, pelo amor de Deus!

     Socorreram. Pegaram-no pelos sovacos e correram com ele até a sala de cirurgia, onde o médico de plantão imediatamente iniciou o exame de local. Aí, viu o estrago que tinham feito no coitado.

      – Como foi que aconteceu essa desgraça, meu amigo?  – indagou o doutor.

      E o cara, aos prantos:

      – Eu sempre respeitei a minha mulher… Sou gamadão nela, doutor, pode crer! Justamente hoje, quando estamos completando 10 anos de casados, eu tomava banho no banheiro da academia de musculação e aí apareceu um gaiato…

     – Pelo amor de Deus! Quanta maldade! Foi ele quem lhe fez isso? – atalhou o médico.

     – Não, doutor. Deixe eu terminar, por favor…

     – Tá bom, termine.

     – Bom… esse gaiato pegou a minha cueca, sem que eu visse, e desenhou uma marca de beijo com batom…

     – Putaquipariu!

     – Fui pra casa na maior inocência, sem saber de nada. Na hora em que a gente estava se arrumando para uma comemoração bem íntima, minha mulher viu a marca de batom na cueca!

     – E ela nem lhe deu tempo para uma explicação?

     – Deu o quê, doutor! A filha da puta foi muito rápida com a navalha! Quando dei fé, ela já estava com o meu pau na mão! 

 

Grande iniciativa

     Bom amigo, excelente colega, anedotista contumaz, o saudoso Jorge Vilar, velho companheiro de grandes aventuras, fazia piada de tudo.

     Certo dia, nós nos encontramos no cemitério do Jaraguá, por ocasião do sepultamento de um antigo colega nosso de Rádio e de boemia.

     O velório desse companheiro parecia mais uma zona. Maior algazarra, mil anedotas, do jeito como o finado gostava. Em dado momento, Vilar se virou para um dos amigos e disse:

     – Acabo de ter uma ideia excelente, pessoal! A gente bem que podia abrir um bar neste cemitério. Só assim a gente podia se despedir dos amigos convenientemente!

     – E como se chamaria esse bar, hein, Jorge? – perguntou o Cavalcanti Barros.

     Ele respondeu, na batata:

     – A Saideira!