Ailton Villanova

21 de agosto de 2015

O Boêmio Atrapalhado

     Morador do Vergel do Lago desde criancinha – aliás, ele nasceu no bairro –  o Batrúcio Urubá inventou de ser seresteiro depois que viu um show do saudoso Juvenal Lopes no tradicionalíssimo Buraco da Zéfa (também de imorredoura memória), local preferido da boemia maceioense, não só pela macarronada e a galinha ao molho pardo que servia, mas também pelo seu ambiente acolhedor e sempre festivo.

     O Batrúcio ficou impressionado com a performance do grande Juvenal e também pela sua simpatia. Juvenal era a finesa em pessoa. Depois do show do grande artista alagoano, Batrúcio anunciou de peito empolado:

     – Um dia eu vou ser um artista igual ao Juvenal!

     No que rebateu o colega de copo Generino Bezerra:

     – Mas ser igual ao Juvenal, tu vai ter que ralar muito, meu chapa! Onde é que vai arrumar uma voz pra comparar com a dele, me diga?

      E Batrúcio:

      – Tu já viu uma palavra chamada “ensaio”?

      – Claro, né, meu irmão? Tá pensando que eu sou analfabeto?

      – Então, me diga o que é “ensaio”?

      – “Ensaio” e “trêno”, e daí?

      – E daí, é que eu vou ensaiar até ficar cantando igual ao Juvenal. Você pensa que ele já nasceu sabendo cantar? O Roberto Carlos já nasceu sabendo cantar? O Altemar Dutra já nasceu sabendo cantar? O Nelson Gonçalves já nasceu sabendo cantar?…

       – Tá bom, tá bom! Você venceu!

       – Amanhã mesmo vou lá na Feira do Rato e compro um violão…

       – Olha, mas tu compra um violão decente, tá ouvindo? Tu tem dinheiro pra comprar o violão?

     – Tenho não, mas arrumo emprestado. Aliás, quem vai me emprestar a grana é você mesmo, tá falado?

     Depois de uma discussão de mais de duas horas, o Generino resolveu emprestar o dinheiro pro Batrúcio. E foram os dois à Feira do Rato, onde o instrumento, de terceira mão, foi adquirido bem dizer de graça, porque não era de pinho verdadeiro.

     Nessa noite, Batrúcio deu início aos ensaios, escorado num poste de iluminação pública, localizado na beira da lagoa do Dique Estrada. Foi uma noite terrível para ele e para a vizinhança. É que, o Batrúcio berrava tanto, mas berrava tanto, que tiveram de chamar a Rádio Patrulha, porque acharam que torturadores terríveis estavam matando alguém sob o mais atroz dos sofrimentos.

     E Batrúcio teve de ser levado à delegacia de polícia do 3º  DP, onde foi autuado por “perturbação da ordem pública”.

     Mas o infeliz não abandonou a ideia de ser seresteiro, talqualmente seu ídolo Juvenal Lopes. Apenas, “deu um tempo”, enquanto a “poeira baixava”. E foi nesse “tempo” que conheceu a morena Ditinha e por ela imediatamente se apaixonou. No rastro dessa paixão, eis que lhe reacendeu a chama de seresteiro que estava quase apagada, alimentando-se apenas de uma tênue esperança.

     Mais que depressa, Batrúcio desentocou o violão, esperou a noite chegar e, quando isso aconteceu, ele se mandou para a porta da jovem Ditinha. Pôs-se de pé sob a janela que imaginou ser do quarto da amada e abriu o bocão:

     – Acooorrrda, meu amooorrr/ e veemmm cair nos/ meeeuuuss braaaçosss…

     Não foi Ditinha quem caiu nos braços do Batrúcio. Caiu-lhe, sim, uma tijolada, no capricho, arremessada pelo velho Diomedes Batista, pai da moça. Ele ainda achou pouco e arrebentou o violão na cabeça do seresteiro atrapalhado.

 

Computador Moderno

     O que a Melzelita tem de boa e gostosa, tem de burrinha. Seu patrão, o Severino Jesuíno, não está nem aí, pelo motivo seguinte: é gamado por ela.

      Dia desses, envolvida num monte de papéis, ela apelou para o patrão, quando este passava por sua sala:

     – Seu Severino, olha, estou ficando sem espaço para colocar essa papelada toda…

      E ele, se babando todo, pra cima da gostosura:

      – É… acho que uma coisinha linda como você assenta melhor com um computador…

      – Também acho. Mas tem que ser um daqueles que têm um monte de gavetas, né?  

 

Ferro não é bom!

     Gente fina, o Zé Felinto bateu as botas numa sexta-feira. Dona mulher, dona Celina, era gamadona nele. Se pudesse, ela também embarcaria com ele pro beleléu. Mas, pensando direitinho, melhor ficar por aqui, curtindo uma saudadezinha, de leve.

    No velório, Celina era confortada pelos amigos quando, de última hora, eis que pintou no pedaço o Manuel Felinto, primo-irmão do falecido, que se fazia acompanhar de um amigo, visivelmente embriagado. Ambos tinham acabado de sair do almoço de aniversário de um político famoso.

     Ao cumprimentar a viúva, Manuel Felinto perguntou:

     – Mas o primo Zé morreu mesmo do quê?

     E a viúva, expelindo mil lágrimas:

     – Morreu de repente! O coração parou e… pronto! Acho isso uma injustiça de Deus! Você sabe, o Zé não fumava, não bebia, não cometia extravagância, se alimentava corretamente…

      Manuel Felinto achou de completar:      

       Realmente, o primo Zé tinha uma saúde de ferro!

      O amigo bêbado, que estava junto, interrompeu o diálogo e emitiu também a sua opinião:

      – Ora, o cara morreu enferrujado! Ferro enferruja, pô!

 

Bêbados…

     Na delegacia de plantão, a autoridade policial pergunta ao detido:

     – Quer dizer eu o senhor foi trazido para cá ontem à noite por dois guardas, não foi?

     – Sim, seu delegado!

      – Bêbado, é claro?

      – Sim, senhor. Os dois!

 

                                                                 ********

 

     O pinguço conhecido como Zé da Cana morreu de tanto beber cachaça. Dois dos seus colegas se copo, se encontraram no velório:

      – Puxa, você viu a cara do Zé? Tá com uma aparência horrível!

      – Também pudera! Já faz dois dias que ele não bebe nadinha!