Ailton Villanova

20 de agosto de 2015

Solução Plausível

     O Protógenes Soares é um grande sujeito, porém um bocado radical. Há bastante tempo, ele vinha pretendendo comprar um carro, mas havia um empecilho nessa sua ideia: não sabia dirigir. Aliás, continua não sabendo. Mas acha que sabe.

     – Só monto num automóvel quando estiver devidamente habilitado! – prometera a si próprio.

     Cerca de três meses passados, Protógenes começou a se preparar para realizar o seu grande sonho. Primeiro, requereu aposentadoria do serviço público federal. Depois, ingressou na auto-escola. Em seguida, mandou derrubar metade da casa e construiu uma garagem enorme. E, finalmente…

     Comprou o carro. Importado. Zerado.

     Da loja, ligou para dona Zilda, a cara-metade, na maior empolgação:

     – Mulher, abra as portas da garagem, que eu chego já por aí!

     – Você comprou o carro, nego?

     – Comprei! Lindão!

     A garagem que o Protógenes mandou construir só as portas mediam sete metros de largura. Mas ainda eram estreitas para o gosto do cara.

     Horas mais tarde, olha ele chegando ao lar, ao volante da belezura! Com dificuldade entrou com o carro na garagem. Mas não entrou legal. Arranhou todo o lado direito do veículo.

     Dia seguinte, logo cedo, eis que Protógenes achou de se exibir perante a vizinhança. Sentou-se diante do volante, abriu a ignição, enfiou o dedo na buzina e falou para dona Zilda:

     – Vê aí atrás que eu vou dar a marcha à ré!

     E dona Zilda:

     – Venha, amor. Pode vir!

     Ele foi. Mas foi com a traseira do carro no portal. Vabei!

     – Eu não mandei você olhar na saída, mulher da bubônica?

     – E eu não estava reparando? Você é quem não prestou atenção! Venha de novo!

     Tebei!

     Lá se foi toda a parte de trás do automóvel novinho e uma banda da parede.   

     Com três tentativas Protógenes destruiu a garagem inteirinha e o carrão quase todo.  

      Ainda hoje,  o infeliz anda à procura de uma casa nova para morar. O imóvel que ele quer tem que ter, no mínimo, 50 metros de largura. Pelo menos 30 metros serão destinados à garagem.

 

Infeliz Aniversário

     O Brederóide entrou no bar de sempre – o Duda, esclarecendo melhor -encontrou o amigo Zé Astromar sentado num canto, na maior fossa. Aí, ficou preocupado, porque Astromar sempre foi um cara divertido, animadão.

     – Tá tudo bem com você, amigão? – indagou.

     E o Astromar:

     – Tá tudo uma porcaria, bicho!

     – O que foi que houve?

     – Você não sabe aquela minha secretária, a Rosimeire?

     – Aquela gostosona? O que tem ela?

     – Despedi-a…

     – Você ficou louco, cara?!

      – …sumariamente!

      – Pirou! Despedir uma pecinha daquelas, meu irmão!

      -A filha da puta mereceu! Me fez passar por imbecil!

     – Como assim?

     – Aconteceu o seguinte… Ontem eu completei 50 anos de idade…

      – Parabéns! 

      – Já me acordei invocado com esse negócio de ficar um ano mais velho. Mas, tudo bem. Sentei pra tomar café na expectativa de que minha mulher chegaria toda alegre e diria “Feliz Aniversário, meu amor!” E que até me daria um presente. Mas ela nem aí! Aliás, nem “Bom Dia” ela me deu. Fiquei mais puto ainda.

     – E a secretária? O que ela trem a ver com isso?

     – Calma! Eu chego lá!

      – Estou esperando.

      – Bom, a mulher não deu bola pro meu aniversário, e aí fiquei esperando que as crianças se lembrassem…

      – E fizeram aquela festa, não foi?

      – Fizeram porra nenhuma! Sentaram pro café e nem olharam pra mim. Aí, abatido, desanimado, peguei o carro e fui pro escritório… Assim que entrei lá, a Rosimeire, a lindíssima, mais gostosa do que nunca, olhou pra mim e disse: “Feliz aniversário, chefinho!” 

      – Finalmente, alguém se lembrou, hein? Logo quem!

      – Trabalhei até o meio dia, quando Rosimeire entrou na minha sala e sapecou: “Sabe, chefe, hoje está fazendo um dia lindo e já que é o seu aniversário, podemos almoçar juntos…

      – Pelamordedeus! Aquela gostosura te falou isso?!

      – Falou!

      – Aaaiii! Continua! Continua!

      – Então, peguei a criatura e me mandei com ela para aquele restaurante da Ilha da Fantasia…

      – Lindo! Lindo!

      – Tomamos um uísque, almoçamos um camarão ao molho de coco, etc. Uma hora e meia depois estávamos a viagem de volta ao escritório. No meio do caminho, ela disse: “Chefe, e a gente vai perder esse dia tão maravilhoso? Que tal não voltarmos mais ao escritório?”

     – Putaquipariu, meu irmão! Matou a pau!

     – Em assim sendo, perguntei à ela: “O que você sugere?”

 

     O amigo interferiu mais uma vez:

     – E você ainda fez uma pergunta imbecil dessa, rapaz? Eu tinha logo era levado ela direto para o motel… Mas eu acho que você tinha opção melhor, não tinha?

     – Era ela quem tinha. Então, indagou com aquela boquinha linda: “Vamos para o meu apartamento e lá tomaremos outro uisquinho!…”

      – Nem no céu seria melhor, fala a verdade.

      – Chegamos ao apartamento. Comecei a beber o meu uísque e novamente, a Rosimeire: “Querido chefe, se você não se importar, acho que vou ao meu quarto colocar uma roupa mais confortável. Fique à vontade!”

       – E tu ficou logo nuzão!

       – Você quer que eu termine a história, ou não quer, porra?

       – Quero! Quero! Vá, termine!

       – Bom, Rosimeire foi pro seu quarto e, decorridos mais ou menos cinco minutos, ela saiu de lá de dentro carregando um enorme bolo de aniversário, cheio de velinhas acesas…

       – Demais, bicho! Demais! E aí?

       – Atrás dela vinham a minha mulher, meus filhos, minha sogra e o pessoal do escritório… todos cantando “parabéns pra você”… E lá estava eu, maior cara de babaca, sentado no sofá, só de meias!