Ailton Villanova

18 de agosto de 2015

Ele mesmo pediu!

     O Zé da Rita saiu da Levada para morar no Benedito Bentes, deixando para trás um monte de inimigos. Por nada não. Apenas, porque é um sujeito chato até dizer basta! Em tudo, ele põe defeito e não está satisfeito com nada, absolutamente nada. Só ele é o certo. O resto do povo está errado e… fim de papo!

     O nome de batismo desse infeliz é José Melquíades da Silva. Mas ele só se sente bem sendo chamado pelo apelido. Sua mãe, dona Maria Rita, foi a única pessoa em quem ele não botou defeito. Quando morreu, a infeliz deve ter ido para o céu.

     Numa manhã de sexta-feira, Zé da Rita viajava, de ônibus, do seu novo endereço para o trabalho, no mercado público da Levada, quando, em determinado ponto do Tabuleiro do Martins subiu um sujeito parrudão exalando um forte cheiro de sovaco.

      Mal o passageiro subiu, eis que Zé da Rita se manifestou:

      – Eita! Pronto, meu Deus do Céu! Acabam de jogar aqui dentro, uma barrica de bacalhau!

      O novo passageiro enviezou-lhe um olhar número 45, mas não disse nada. O coletivo continuou correndo na pista e o chato do Zé da Rita resmungando:

      – Mas que catinga da bubônica da peste! Essa é de matar qualquer cristão!

      Passageiros todos calados, segurando a barra numa boa. E o Zé da Rita:

      – Eu tenho pra mim que, pra viajar num ônibus decente desse, o cara tem que tomar um banho bem tomado… É ou não é, minha gente?

      O parrudão temperou a goela, disposto a dar uma resposta ao reclamante. Mas ele não deu brecha:

      – Assim que eu chegar no meu trabalho, vou comprar dez litros de álcool e tomar um banho de lascar, pra me desinfetar todo. Acho bom os amigos passageiros fazerem a mesma coisa.

       Passageiros permaneceram calados e o chato deitando falação:

       – A culpa é do motorista! Como é que pode um cabra fedorento desse viajar no meio do povo asseado? Não pode! Se o motorista consente, é porque é igual!

       Nesse ponto, o caldo engrossou: o motorista aplicou no pedal respectivo um freio de arrumação, parou o coletivo, pulou no meio do corredor, segurou o Zé da Rita pelo gogó e disse:

       – Agora você vai calar essa boca imunda, seu fidapeste!

       – Socorro! Estão me assassinando! Socorro! – ele berrava.

       Segurando o passageiro insolente pelo pescoço, o motorista aproximou o Zé da Rita do grandalhão e pediu:

       – Meu amigo, me faça a gentileza de levantar o seu sovaco…

       O cara atendeu o pedido, segurando o riso. A venta do Zé da Rita foi introduzida na axila do grandalhão, enquanto o motorista determinava:

       – Vai! Respira, infeliz! Respira fundo! Respira!

       Zé da Rita não suportou o castigo. Quando foi atirado do ônibus, por uma das janelas, estava todo vomitado. E desmaiado.   

 

A Cruz e a Espada

     Alírio Frazão, tio do Júnior Frazão, numa farra comemorativa do Dia dos País, no Bar do Duda, abria o coração para o amigo Linduarte Pinto:

     – Tô entre a cruz e a espada, meu amigo!

     – Deve ser algo grave, não é?

     – Bote grave nisso, parêia!

     – E qual é o babado?

     – É a Percilina, minha mulher… A filha da mãe é desconfiada demais! Se eu chego cedo em casa, ela pensa que eu estou querendo alguma coisa…

     E o amigo:

     – Simples, cara! Passe, então, a chegar tarde!

     – É pior. Se eu chego tarde, ela pensa que eu já fiz!…

 

A Grande Descoberta

     Fedúlcio me ligou no último domingo, na maior euforia:

     – Meu impoluto e magnânimo mestre…!

     – Qualé a sua, bicho? Que alegria é essa? – respondi, com certa má vontade.

     – É que acabei de fazer uma pesquisa econômica sobre a crise brasileira!

     – Foi, é?

     – Foi. Vou lhe dizer só a primeira parte da conclusão a que cheguei. Sabe por que o Brasil está à beira do abismo e ainda não caiu dentro dele?

     – Sei não.

     – É porque também afanaram o abismo!

 

Sem Pé Sujo

     João Rodrigues Barbosa, o Barbosão, é um motorista de caminhão que mora no bairro Benedito Bentes. Gente da melhor qualidade, á mais de seis meses vinha sofrendo de uma unha encravada no dedão do pé direito. Aí, aconselhando pelo vizinho Zé Dioclécio, procurou se livrar do incômodo, no posto de atendimento médico da localidade.

     A técnica de enfermagem  que o recepcionou, nem quis examinar o pé do Barbosão. Entronchou a cara e disse:

     – O senhor volta pra casa, toma um banho demorado, lava bem – mas muito bem meeesmo – esse pé e volte aqui mais tarde, para a gente extrair essa unha…

     Barbosão estranhou aquelas recomendações todas da técnica de enfermagem:

     – Mas, moça, meu vizinho também mandou arrancar a unha encravada dele, aqui mesmo, neste mesmo posto, e não fizeram essa exigência toda. Só fez chegar e… vapt, vupt! Num instantinho o serviço estava feito!

      – É, mas o seu vizinho costuma tomar banho e lavar os pés!