Ailton Villanova

16 de agosto de 2015

Ora, viva o donzelo!

     Filho único do professor Josaphat e de sua digna consorte dona Eustáchia, e porisso muito mimado, o Aglaíldo (Gla-gláu para os mais chegados) era uma rapaz muito tímido. Aos 20 anos de idade nunca tido uma experiência sexual, nem de um lado e nem do outro, o leitor entende.

     Uma bela tarde, Gla-gláu entrou em casa com um papo revolucionário, que deixou os seus velhos de cabelos arrepiados.

     – Vou me casar! – anunciou de chôfre.

     – Ai, meu Deus! Esse menino endoidou! – gemeu a mãe.

     Professor Josaphat ficou mudo por alguns instantes. Quando a fala retornou, ele disse, num fio de voz:

     – Será que você sabe o que está fazendo, meu filho? Quem é a moça, podemos saber?

     – É a Leninha, filha do seu Agajoel…

     Leninha era uma bela moça. Religiosíssima, seus pais estavam até inclinados em mandá-la para um convento de freiras, em Salvador. É que, antes de conhecer o Gla-gláu, a moça não largava um rosário e assistia missa todos os dias. Seu aspecto casto, puro, lembrava a imagem de uma santa.

     A notícia do casório de Aglaído com a angelical Leninha correu célere por toda a zona da mata, onde os pais de ambos possuíam vastas terras, e todos ficaram imaginando que eles, de tão tímidos e donzelos, não iriam conseguir nada na lua-de-mel. Houve até quem fizesse aposta.

     Os garotos contraíram núpcias e se mandaram par a lua-de-mel. A mãe de Gla-gláu ficou morrendo de preocupação e, como também era muito tímida, não teve coragem de explicar pro filho como era que ele devia fazer a coisa, na horizontal.

     Semana e meia mais tarde, os pombinhos estavam de volta com as mesmas carinhas de sempre. Seus respectivos pais deram uma festa para familiares e amigos mais próximos, na fazenda do professor Josaphat, localizada nos arredores de Quegrangulo. Durante o ágape, todos ficaram reparando no inocente casalzinho, tentando advinhar se o Gla-gláu tinha dado conta do recado. Lá pelas tantas, seu Godofredo, o avô da menina, estimulado pelas incontáveis biritas que havia tomado, começou a contar lorota:

      – Uma certa manhã, eu estava deitado na minha rede, bem no meio da mata, quando escutei o ronco de uma onça…

      A galera ficou atenta, inclusive os noivos.

     E o velho, continuando:

     – Abrí a barraca pra ver direitinho a cara da bicha. Aí, ela me viu. Naquilo que me viu, arreganhou aquela bocona enorme e deu outro berro!

     E todo mundo, inclusive os casadinhos:

     – Oooohhhh…

     – Naquilo que deu o berro, a filha da bubônica da onça pulou pra cima de mim. Aí, me abaixei e ela foi cair bem do lado do meu empregado Severino e, fechando a boca, com vontade, comeu de uma só vez as partes proibidas do infeliz do negro!

     Nessa altura, todos muito ligados, a noivinha percebeu o que foi que a onça tinha comido, levou a mão ao rosto, assustada, e perguntou ao avô:

     – Mas a onça comeu… com o ossinho e tudo, vô?

     Foi nesse ponto que todos se voltaram para o rapaz tímido e tido como donzelo, e o aplaudiram demoradamente… com palmas e vivas!

 

 

A última do avarento

 

     O velho Afanásio Soares era famoso em toda a região do Tabuleiro do Martins, e um pouco além dela, mais por causa da sua avareza do que por outra coisa. Latifundiário, possuía um monte de terras em Maribondo, Murici, União dos Palmares, além de imóveis residenciais em Maceió e no Recife. Um dia, ele caiu doente e, em vias de embarcar pro beleléu, ele chamou seu único filho, Redinaldo, ao lado do leito e disse:

     – Sei que dessa eu não escapo…

     – Que é isso, papai! Vira essa boca pra lá!

     – Eu sei que vou morrer. Eu lhe chamei aqui pra lhe mostrar uma coisa… Está vendo esse relógio? Foi do meu bisavô, que depois passou pro meu avô, este passou pro meu pai e agora está comigo. Não é bonito?

     – É, papai. É muito bonito!

     – Quer comprá-lo?

 

 

Mas o nome disso é piruêta?!

 

     Neidinha e o gaúcho Perigeu se conheceram durante um estágio de odontologia em São Paulo. Quando estava de volta à sua terra natal, Palmeira dos Indios, ela trouxe o namorado para conhecer os pais, que residiam numa bonita fazenda na zona rural do município agrestino.

     Logo no primeiro dia, a mãe da jovem odontóloga, dona Delzuíta, saiu com o casal num passeio a cavalo. No meio do caminho, o animal espantou-se com alguma coisa, deu uma empinada e a velhota estabacou-se no chão, com as pernas arreganhadas, pondo tudo à mostra, pois estavam sem calcinha. Com tremenda agilidade, ela deu um salto e ficou em pé. Sem graça, a mocinha perguntou ao namorado:

     – Amor, viu a piruêta da mamãe?

     E ele:

     – Piruêta, é? Que interessante! Na minha terra a gente chama de xoxota!

 

 

Faltou pouco pro flagrante!

 

     Avisaram ao vigia noturno Ofrísio Cornufácio que a mulher dele andava lhe enfeitando a testa. E deram até o nome do causador do incômodo: um tal de Liberalino, vendedor ambulante de pães.

     Ofrísio invocou-se todo:

     – Eu vou ter que resolver esse negócio na base do tiro! Ou aquele fidapeste, ou eu! Galhudo e desmoralizado eu não fico!

     – Vai com calma, Ofrísio! – ponderou o denunciante, um tal de Chico da Dinha. – Tu ve aí, hein?

     – Calma o cacete! O corno sou eu!

     O que fez, então, o infeliz? Resolveu armar um flagrante. Na noite seguinte, fingiu que ia trabalhar e ficou de butuca na esquina de casa. Não demorou muito, olha o pãozeiro pintando na parada!

     Assim que o “pé-de-pano”, entrou na sua casa, Ofrísio correu pra lá e ajustou o olho numa fresta da janela do quarto. Aí, viu a mulher tirar a roupa. Viu também o pãozeiro fazer a mesma coisa. Viu, em seguida, os dois rolarem em cima da cama. Na hora em que estavam chegando pro “finalmente”, veio o apagão. Blecaute total. Ofrísio não conseguiu ver mais nada.

      Revoltado, ele desabafou:

      – Essa não! Logo na hora que eu ia dar o flagra, a luz achou de faltar! Amanhã vou reclamar na Ceal!

 

 

Elas por elas

 

     Doutor Belo Custódio foi um psiquiatra competente que também  fez história como piadista, no Recife. Morreu de infarto, ainda moço, aos 52 anos de idade. Sua fiel secretária, dona Efigênia, ela havia herdado do pai, doutor Ercílio Custódio, igualmente médico, quando este se aposentou aos 86 anos.

     No meio de certa manhã calorenta, dona Efigênia chegou pro doutor Belo e anunciou:

     – Tem uma mulher na sala de espera dizendo que é invisível!

     O psiquiatra não deixou cair a peteca:

     – Então, fale pra ela que agora eu não posso vê-la!

 

 

Mas que desperdício, pô!

 

     Depois de tomar todas, num boteco do bairro da Pitanguinha, o tal de Drupélio Cartaxo, cuja residência ficava no distrito da Cambona, resolveu descer o morro na base do “amor febril”. Tropeça aqui, tropeça alí, e eis que, repente caiu com a cara dentro de uma lata de lixo, no meio do caminho. Do jeito que caiu, ficou com o traseiro voltado pra cima e a cara enfiada lá dentro. Na dobrada que deu na cintura, o cinto quebrou, a calça arriou e ele ficou, exposto à luz da lua, redondinho e branquinho.

      Daí a pouco vai passando outro bêbado, que fica parado e olhando para aquele negócio. Respira fundo, balança a cabça e exclama:

      – Que desperdício, meu! Uma bunda tão novinha dessa, jogada no lixo!