Ailton Villanova

15 de agosto de 2015

O Exorcista Muito Louco

     Fanático ao extremo pela religião que praticava, o Oldoceu Pacheco era um sujeito iracundo, colérico, furioso, quando se tratava de defender o seu ponto de vista relativamente aos preceitos determinados pela, digamos assim… sua fé.

     Pacheco não sabia ser tolerante, tampouco comedido nos atos e palavras ao classificar aqueles que não se alinhavam ao seu pensamento e nem ao seu espírito de doutrina radicalíssima. Enfim, era um louco, um insensato.

     A cega e excessiva paixão do Oldoceu Pacheco pela prática e ritos protestantes cresceu tanto nele, que terminou se transformando num sujeito temido, muito mais que respeitado. Até os seus irmãos em Cristo mais aproximados passaram a evita-lo. Houve até quem sugerisse uma medida de segurança contra ele. Não foi ninguém menos que o pastor Aflaudízio Moreira, o líder da igreja evangélica que Oldoceu frequentava.

      – Acho que nosso querido irmão Oldoceu está necessitando de um tratamento psiquiátrico muito sério e urgente! – ponderou o reverendo – Pela maneira agressiva, fanática extremada, nos induz à ousada adoção de uma medida que tanto nos proteja, quanto a ele próprio. Irmão Oldoceu está à beira da loucura!

      Todos concordaram, sem imaginar ser desnecessária a adoção da medida protetiva pela Igreja do Amor Divino, porque o próprio Pacheco, louca e inadivertidamente a procurou, no começo da tarde do sábado em que o pastor Aflaudízio e fiéis, discutiam a respeito da providência já referida.

       Com a Bíblia socada na cova do sovaco, Oldoceu rumava com destino ao ponto de ônibus, com a pretensão de retornar ao lar montado num desses coletivos. Ao se aproximar da esquina, escutou um batuque incrementadíssimo. Parou, direcionou os seus sentidos e identificou que a zoeira era originária do barzinho localizado a poucos passos de onde se achava. Fixou bem a visão e não gostou do que viu: uma farra de lascar. Só tinha nego (e branco, também) bêbado, uns dançando o tchan, outros sambando à maneira das melhores escolas específicas do carnaval carioca. Espumando pelos cantos da boca, Oldoceu Pacheco embarafustou no bar, sem pedir licença, nem nada, e ergueu o livro sagrado e bradou:

     – Satanazes! Infiéis! O fim do mundo está próximo, por causa de vocês, seus pecadores!

     Nesse momento, o baticum parou e a vaia tomou conta do ambiente.

     – Uuuuuuuuu…uuuuuuuu…uuuuuuu!

     E Pacheco, na ponta dos pés:

     – Calem-se! Vocês todos estão possuídos de Satanás, e eu vou retirá-lo do corpo de vocês!

     Aí, uma voz se destacou no meio do salão:

     – Cala a boca, baixinho corno! Cala a boca, se não quiser que eu faça você engolir essa Bíblia!

     A plateia aplaudiu, entre assobios e gritos. Oldoceu se sentiu desmoralizado e contra-atacou:

     – Cala a boca você, Satanás. Eu agora, me invoquei! Em nome do Senhor, ordeno que saia desse corpo, Satanás! Você está invadindo o corpo de um inocente. Afaste-se, Satanás!

     A pronunciar essas palavras, o fanático religioso se aproximou do suposto “possuído”, exibindo a Bíblia:

     – Eu o esconjuro, Satanás! Sai, Satanás! Sai, Satanás!

     Num lance muito rápido, o farrista que estava sendo exorcizado deu um pinote na frente do fanático, tomou-lhe a Bíblia e disse, provocando o riso e a anarquia dos presentes:

      – Agora, seu corno, você vai engolir esta Bíblia! Abra a boca! Vamos…!

      Naquele momento, ruíram toda a empáfia, toda a arrogância, toda a valentia do Oldoceu. E ele, tremendo de medo em cima das canelas:

      – Deixe de brincadeira, Satanás! Tá bom! Acabou a brincadeira… viu?

     – Num acabou nada! Abra a boca para engolir esta Bíblia, rapaz!

     – Não dá, Satanás! A minha boca é pequenininha, num tá vendo, não?

     Aí, o sujeito resolveu ponderar:

     – Nesse caso, vamos fazer o seguinte… você não engole a Bíblia, mas toma este litro de cachaça aqui, todinho…

     E o exorcista Oldoceu:

     – Sem tira-gosto… não é muito cruel?

     – Vai beber o litro de cachaça ou não vai?

     – Vou, vou, vou!

     – Então, comece!

     Oldoceu Pacheço mandou o pau a beber. Ligeirinho, bebeu o litro de cachaça, estalou a língua e indagou:

      – Tem mais outro desse?

      – Gostou, foi? Quer mais?

      – Adorei e quero mais, sim! Economize não, meu chapa. Chama na grande!

      A orgia só terminou no raiar do dia seguinte, sendo o Oldoceu Pacheco  o mais pândego e animado entre todos os farristas.

      Dias depois, enquanto a boemia ganhava o maior dos seus entusiastas, a Igreja Evangélica            do Amor Divino perdia o mais decidido e ortodoxo dos seus adeptos.

 

 Gatos Pingados

     Viúvo havia cinco anos, e se sentindo muito só, o Jacibaldo, caboco pacato, trabalhador, resolveu contrair núpcias pela segunda vez e escolheu a Francinalva, morena com tudo em cima, para dividir com ele o leito conjugal.

      O seu amigo mais chegado, Zé Altino, ainda tentou evitar o casório, mas não houve tempo. Apaixonado do jeito que estava, Jacibaldo pegou a Francinalva e a levou ao altar, mais depressa do que imediatamente. Só depois do casório foi que o Zé Altino teve condições de abrir os olhos do amigo:

     – “Cibaldo”, há muito tempo tenho uma coisa pra lhe contar…

     – Do que se trata, mano velho?

     – É sobre sua mulher.. Mas não sei nem como dizer…

     – A Nalvinha?! O que tem aquela santa criatura?

     – Está lhe corneando. Ela está dando pra todo mundo, aqui na Ponta Grossa. Agora mesmo, se você quiser comprovar a traição…

     Jaciro tremeu na base, a espuma desceu pelo canto da boca e ele nem deixou amigo terminar de falar. Girou no calcanhares e se mandou pra casa, no maior pique. Chegando lá, correu pro quarto onde encontrou a adorava esposa em cima da cama, completamente nua. Em redor dela, um monte de caras todos pedadões. Altíssima sacanagem.

      Jaciro, então, passou a contar quantos caras tinha… E parou nos treze.

      Aí, fez meia volta e foi ter com o amigo Zé Altino, com que desabafou:

      – Mas tu é um tremendo fofoqueiro, né, rapaz?

      – Fofoqueiro, eu?

      – Sim. Cheguei em casa e não encontrei esses exageros todos de gente com a Nalvinha.

      – Então, você queria mais?

      – Claro! Você disse não que a Nalvinha andava com todos os caras da Ponta Grossa? Á em casa só encontrei com ela treze gatos pingados…