Ailton Villanova

14 de agosto de 2015

Mútua Solidariedade

     O saudoso jornalista Ródio Nogueira foi um cara singular. Humilde, bom caráter, jamais se envolveu em qualquer fato desabonador de sua conduta.

     Mas…

     O leitor sabe como é vida de repórter policial. E ele foi um bom repórter policial e, mesmo assim, não conseguiu agradar a todos. De vez em quando uma ameaçazinha de morte. De modo que jornalista que atua nessa área, tem que andar esperto.

     Numa noite de quarta-feira, nosso velho Ródio deixava a redação do jornal para o qual trabalhava e se dirigia ao ponto do ônibus, isso boquinha da noite. Aí, ele se deparou com a presepada!

     Na esquina, um automóvel Escort azul com quatro sujeito mal-encarados dentro. Todos usando boné. O que estava ao volante, ao pressentir a aproximação do jornalista, cuspiu de lado e acionou a ignição do carro. O repórter gelou, sobreveio-lhe uma vontade danada de fazer xixi e cocô ali mesmo, nas calças, mas ele permaneceu firme e adotou uma atitude ousada. Mais que isso: suicida: encarou os suspeitos. O do volante provocou:

     – Tá olhando o quê, porra?

     As canelas de Nogueira ameaçaram falsear e ele começou a tremer. Cadê condições de correr? Nisso, surgiu uma alma salvadora. Um soldado galego, meio gordo e bigodudo que ia passando, foi abordado pelo repórter:

     – Praça, por favor… me dê uma ajudazinha aqui…

     Naquilo que o PM se aproximou do assustado jornalista, os suspeitos arrancaram com o Escort, cantando pneus, em direção ao Tabuleiro do Martins. Mais aliviado, Ródio Nogueira contou o seu drama ao militar, que reagiu na hora, de “berro” na mão:

      – Ah, magote de covardes! Bastou eu chegar… viu só como eles fugiram? Vá que um deles me conhece e sabe que eu não brinco!

      E completou, empolgado:

      – Fique tranquilo, meu amigo! De agora em diante serei o seu “anjo da guarda”. Vou conduzi-lo são e salvo para sua residência, ou não me chamo Zacarias. Vamos lá!

     – Mas eu não quero lhe tirar do seu caminho… – ponderou o jornalista.

     – Ora, mas de jeito nenhum! Sou pago pelo Estado para proteger o povo. Vamos em frente!

     Foram.

     Pegaram um ônibus e rumaram morro abaixo. O soldado Zacarias não tirava a mão do cabo do revólver, que pendia da cartucheira que carregava na cinta. Atento, o PM olhava para todos os lados.

     Os dois desceram no bairro do Prado e Ródio, agradecidíssimo ao praça, Ródio o convidou para beber uma cervejinha. Era cedo, ainda: 8 horas da noite. E lascaram o pau a beber. Quando os ponteiros do relógio se encontraram em cima da meia-noite, eles deram a farra por encerrada.

     Na porta da casa do jornalista, o militar, pra lá de bêbado, colocava um ponto final na sua missão:

     – Pronto, meu amigo. Agora, durma sossegado!

     E o Ródio, também de pileque, e com a maior cara de preocupação:

     – Mas você vai pra casa sozinho, a esta hora da madrugada?! Onde você mora?

     – No Tabuleiro do Pinto, um pouco mais pra lá do aeroporto!

     – Putaquipariu! Você mora em Rio Largo! Não posso permitir que você se desloque para aquele fim de mundo, sozinho, depois de ter me prestado favor tão grande. Agora, quem vai lhe levar em casa, sou eu!

     Depois de meia hora de discussão, pegaram um taxi e viajaram. Quando o carro parou na porta do militar, nova discussão. O soldado não queria que Ródio voltasse com o taxista, porque achou que o referido tinha a cara de “suspeito”.

     E desceu com ele, novamente.

     Os dois amanheceram o dia, pra cima e pra baixo, um levando o outro pra casa.

 

Examinador Racista

     O sonho do garotão Manuel Liberalino era “sentar praça” no Corpo de Bombeiros Militar. Ao completar 18 anos, se mandou de Tanque D’Arca com destino a Maceió, com esse objetivo. Aplicado nos estudos, logrou aprovação destacada no exame intelectual e partiu para a etapa seguinte, o teste psicotécnico.

      Liberalino não gostou da cara do examinador do psicotécnico, um galego com ar de doido e o olhar de gavião.

      Sentado diante do sujeito, Liberalino foi surpeendido com aquela voz de trovão:

      – Por que você quer ser bombeiro, rapaz?

      E o rapaz:

      – Para salvar vidas, doutor!

      – Huuummmm… Muito bem! Agora, me diga: você sabe como salvar um preto num naufrágio?

      – Não senhor, doutor…

      – Ótimo! Ótimo! Um a menos!

 

Feliz Aniversário, né?

     O sujeito, todo maltrapilho, bateu na porta de uma senhora muito distinta que, por sinal, está toda feliz da vida porque acaba de ser avó. Essa senhora é dona Nadiene Verçosa. Ela foi atender e quando reparou na figura em sua frente, exclamou:

      – Ah, é esmola? Um momentinho que eu vou pegar um trocadinho pra lhe dar, viu, meu santo?

      E o mendigo:

     – Dá pra senhora também me arrumar um pedacinho de bolo e um copinho de guaraná?

     Nadiene arregalou os olhos, estranhando a pedida do esmolante:

     – Boolo?! Guaaaranááá? O senhor está muito cheio de luxo, hein? Posso saber por que essa mordomia toda?

     E o cara:

     – É que hoje é o meu aniversário, sabe dona?

 

Médico milagroso

     O Ezequias vai ser operado pelo doutor Arthur Gomes Neto e está todo nervoso, enchendo o médico de perguntas:

      – Doutor, e depois da cirurgia, eu vou poder pintar?

      – Claro. Vai poder pintar normalmente. E em poucos dias o senhor já estará trabalhando…

       O Ezequias começa a beijar as mãos do médico e agradece, quase chorando:  

        – O senhor não existe, doutor! É um verdadeiro santo! Vai me ensinar a pintar e, ainda por cima, vai me arrumar um emprego!