Ailton Villanova

13 de agosto de 2015

A Serenata Complicada

     Boêmio contumaz, paquerador incorrigível, o viúvo Tamarino Ansaldo entendeu de cair de amores pela balzaquiana Erotildes Maria, católica fervorosa, dessas de comungar diariamente. Era tão ligada no barato paroquial que as fofoqueiras de plantão palpitavam no sentido de que ela tinha um caso, muito na moita, com o pároco, padre Ovídio Abreu, cuja fama era a de “comedor” de marca maior. Diziam ainda as más línguas que o reverendo nunca foi de desprezar um bom “prato” – vestiu saia, dançou na sua frente, ele papava numa boa.

     Erotildes possuía corpo tentador e bunda sensacional. Quando ela caminhava, era um remelexo tão provocativo que nem frade franciscano seria capaz de resistir.  Então, quando desfilava sua pessoa perante o grupo de marmanjos – entre os quais o Tamarino – que frequentava o Bar do Osório e se postava na calçada do referido, só para vê-la passar, aí era que ela exagerava no remelexo.

      O Tamarino também possuía um defeito que o tornava inadequado em determinadas ocasiões, que era o de abrir a boca e expelir notas musicais à torto e à direito, não importando se estava agradando, ou não, ou dentro do tom. Pior quando se fazia acompanhar do violão, cujas cordas ele próprio dedilhava. Aí, era um deus-nos-acuda. Mas Tamarindo achava que abafava.

       Na medida em que o tempo passava, a paixão do cara pela balzaca ia aumentando. Da parte dela, o Tamarino não passava de uma pessoa pela qual não dispensava a menor simpatia. E o cara bolando mil esquemas para chegar junto da mulher que bagunçara seu coração. Até que um amigo de fé, o Edelvito, alojou no seu ouvido a seguinte ideia:

     – Ô bicho, tu tem na mão o maior instrumento para conquistar corações…

     E ele, sem entender bulhufas:

     – Que diabo de instrumento é esse, meu irmão?

     – O violão, bicho! Voz, eu sei que tu tem… Violão, nem se fala!

      – Acho que tô manjando na tua jogada… Seria uma serenata?

      – E então, bicho? Qualé a mulher que resiste a uma serenata caprichada, me diga?!

      Tamarino bateu na testa e vibrou:

      – Puxa! E eu nem me liguei nesse barato, meu! Hoje mesmo vou exibir pra ela a minha bela voz e… todo o meu amor! Brigadão, bicho! Realmente, você é um amigão!  

       Final da noite, lua brilhando no céu, rua deserta. Tamarino estacionou sua pessoa sob a janela do primeiro andar da residência da amada, dedilhou o violão e abriu o bocão, imaginando se não estaria matando de inveja o seresteiro Altemar Dutra, caso este não houvesse se transformado em finado:

        – Amooorrrr… tu ééésss a minha inspiraçãããooo…

        Só cantou até aí, porque a dona da casa, que havia acordado, sobressaltada, com aquela espécie de uivos e latidos, emitidos pelo seresteiro improvisado, deu garra de uma escopeta (herança de seu velho pai) e disparou vários tiros na direção do inconveniente. Ela só acertou dois, um no violão, que ficou imprestável, e outro na bunda do Tamarino, quando este empreendia fuga do local.

 

Seria só um sustinho!

      O marinheiro aposentado e bodegueiro da ativa Everaldo Porciúncula e sua sogra, dona Estrevaliana, jamais se bicaram. Presepeiro ao extremo, piadista incorrigível, Porciúncula era mestre nos trotes, sua folgança predileta.

     A bodega do Porciúncula só vivia cheia de amigos e naquela tarde de abril não poderia ser diferente. O telefone tocou, ele atendeu e sua esposa, dona Elza pediu:

     – Vevéu, vê se você pode voltar pra casa mais cedo, porque mamãe avisou que vem jantar com a gente.

     Muito a contragosto, Everaldo Porciúncula encerrou mais cedo o expediente na bodega e se mandou pra casa com uma ideia maluca na cabeça.

      Era um sábado, a tarde descambava para o final quando a velhota pintou no terreiro do genro, toda cheia de direito, como sempre. Everaldo se achava conversando, na varanda de casa, com dois velhos companheiros de marinha, também aposentados, um deles o Hermes Damasceno.  Ao passar pelo Everaldo, a velhota tirou uma onda:

     – Tá trabalhando não, vagabundo?

     Everaldo Porciúncula fechou a cara, cuspiu de lado e retrucou:

     – Vagabundo é o corno do seu marido, velha filha da puta!

     Ela treplicou:

     – Tomara que você morra, infeliz!

     Dali a instantes, Everaldo pediu licença aos amigos visitantes e se retirou do ambiente, prometendo que voltaria logo. Não demorou muito, escutaram um estampido – bang! – proveniente do quarto principal da casa.

      – Isso foi um tiro! – alertou Damasceno, se pondo de pé.  

      E correu todo mundo para verificar o que havia acontecido. E viram o desmantelo. Em cima da cama, o corpo inanimado do Vevéu. O peito dele todo tingido de vermelho. Ao seu lado, um revólver.

      Suicídio.

      Mas eu motivo teria tido Everaldo Porciúncula para dar cabo da própria vida!

      Entre os expectadores daquele quadro tragicamente dramático, estava a sogra com um riso de satisfação e felicidade nos beiços. Ela se aproximou do suposto cadáver e indagou:

      – Mas será que esse infeliz morreu mesmo?! Só acredito reparando bem de pertinho…

      Naquilo que a velhota se aproximou do “morto”, este abriu um olho e a boca. Em seguida, fez uma careta terrível e soltou um berro descomunal:

     – Aaaaaaahhhhhaaauuuuaaahhhh!

     A velhota tomou aquele susto e caiu durinha no chão, de canelas esticadas. A desagradável surpresa, seguida de terror repentino, foram demais para o seu coração.

     Everaldo Porciúncula havia bolado aquela cena apenas para dar um sustinho na sogra. O sangue que escorria pelo seu peito era “catchup”, o revólver de brinquedo e o estampido tinha sido provocado por uma bomba junina.