Ailton Villanova

12 de agosto de 2015

Chorou o “De Cujus” errado

     Na década de 50, as festas públicas natalinas no bairro do Bom Parto, empatavam com as de Bebedouro. Sem exagero nenhum, eram fascinantes. Ainda hoje fazem falta. Vieram outras, em localidades diversas de Maceió, mas nunca com a alegria, o brilho e o encantamento que deixavam vaidosos e orgulhosos bebedourenses e bompartenses.

     Quanta saudade!

     Dos festejos natalinos do Bom Parto resultaram paixões, que proporcionaram felizes uniões. A finada fábrica de tecidos Alexandria era quem os promovia. Seus operários caprichavam nas vestimentas para se exibirem naquelas oportunidades. Um deles, em particular, o Aglinobaldo Xavier, chamava a atenção pela elegância no vestir. Ele era tecelão de primeira categoria e na distinção no trajar era primeiro sem segundo. Esse detalhe chamou a atenção da linda morena Maria Otília, também operária da Alexandria. Daí, para uma avassaladora paixão, foi rapidinho.

      Nas esquinas, nos becos, não importava o local ou o horário, desde que os dois estivessem de folga, só se via o casal aos beijos e abraços. Então, resolveram casar. Quando os preparativos estavam em ponto de conclusão para a marcação da data das núpcias, eis que Aglinobaldo Xavier recebeu uma convocação em caráter de “urgência-urgentíssima”, para se apresentar no quartel do exército, que ficava na Fernandes Lima. Com o papel da convocação na mão e com a maior cara de choro, apresentou-se a um certo tenente Galisteu, que foi curto e grosso:

     – Prepara-se que você vai embarcar para a ilha de Fernando de Noronha!

      Aglinobaldo ficou atônito:

     – Mas por quê, seu tenente? Onde é que fica isso? E o meu casamento com a Maria Otília?

     – Uma pergunta de cada vez, rapaz! Esqueça o casamento com essa moça. Seu casamento agora é com a Pátria! Quer saber onde fica Fernando de Noronha? Fica no meio do mar. Quanto a primeira pergunta, é segredo de Estado. Vá até àquela sala ali de frente e vista a sua farda. Você embarca esta noite, visto?

      À noite, o infeliz Aglinobaldo partiu para cumprir missão sigilosa, sem o direito de despedir-se de sua amada.

      Enquanto isso, Maria Otília se desmanchava em lágrimas:

      – Mas por que o Baldinho me fez essa desfeita? Eu merecia isso? Sumiu sem explicação alguma! Nem um bilhete me deixou… Snif, snif…

      Anos e anos se passaram. Esquecido naquela ilha deserta (Fernando de Noronha não era como hoje), um dia ele mereceu a atenção das autoridades graúdas da Nação e foi liberado. Feliz da vida, entretanto com uma enorme interrogação no juízo, Aglinobaldo pisou em solo alagoano e a primeira coisa que fez foi procurar a amada. Um vizinho informou:

        – Olhe, meu amigo! O senhor chegou tarde demais! Dona Otília faleceu ontem e a esta hora deve estar sendo sepultada no cemitério… (e disse o nome do campo santo)

         Na pressa e na agonia em que se achava, anotou na cabeça o nome do cemitério e se mandou pra lá. Ao adentrar o campo santo não teve a preocupação de pedir informações a respeito das posições em que achavam os “de cujus” nas salas destinadas ao velório. Aí, disparou na direção do primeiro ataúde que enxergou, agarrou-se com e abriu o bocão:

         – Tiliiinhaaa, meu amor! Snif… snif… Eu não lhe abandonei! Estava morrendo de saudade de vocêêê… Buááá´…

         Ao lado do esquife, uma mulher de preto parou de chorar e esculachou:

         – Antiógenes! Ah, infeliz, precisou você morrer para eu descobrir que você era viado! Como pôde me enganar esse tempo todo, sua bicha safada?

         E ateou fogo no caixão, com o defunto dentro.

         Foi nesse momento que o Aglinobaldo descobriu que entrara no velório e no cemitério errados. Sua Otília havia baixado à sepultura horas antes, noutro campo santo.

          Mas o escândalo que promoveu com a consequente confusão que armou no cemitério anterior, mereceu longas e desabridas reportagens em todos os jornais locais.

 

A máquina perigosa

     Depois que emissoras de televisão andaram mostrando para o distinto público imagens daqueles covardes e revoltantes espancamentos e um assassinato cometidos por PMs de São Paulo e do Rio de Janeiro, o pessoal fardado não está podendo nem ver um cristão de máquina fotográfica ou câmera de filmar na mão. Ou foge dela como o diabo foge da cruz, ou parte para destruí-la, na marra. A situação está ficando perigosa.

      Pois, então, o distinto Jailton Pereira juntou uma graninha e conseguiu comprar uma filmadora ainda boa de uso a um amigo do jornalista Adaílson Calheiros, companheiro aqui da Tribuna. Feliz da vida, pendurou a peça no pescoço e começou a desfilar pela orla marítima, dando uma de turista. De vez em quando, dava uma paradinha e chamava o dedo no botão: “filmar”.

     Jaílton estava entretido, gravando um grupinho de cocotas que brincava na areia da praia quando, de repente, sentiu aquela mão pesadona fazer pressão no seu ombro. Aí, se virou e deu de cara com um PM gordão, da cara de hipopótamo, que falou:

     – Tá filmando o quê, malandro?

     Jailton tremeu nas bases, mas respondeu:

     – Tô pegando umas cenas inocentes daquelas menininhas…

     E o militar:

     – Começa assim, não é?

     – Mas do que é que o senhor está falando, seu praça?

     – Praça, não! S-a-r-g-e-n-t-o! Não está vendo as divisas?

     – Desculpe…

     O graduado bronqueou ainda mais:

     – Faz um tempão que eu venho manjando você, seu cabra. Pensa que eu não sei quais são as suas intenções? Você está querendo pegar a mim e os meus colegas no “flagra”, não é?

     – Eeeuuu, sargento? Deus me livre!

     – Você mesmo, seu porra! Pois num flagra a gente não, tá ouvindo?

     Ato contínuo, o sargento gordão arrancou a câmera do pescoço do Jailton, atirou-a no chão e, em seguida, dançou um xaxado em cima dela, esbagaçando-a. Depois, suspirou profundamente, e completou:

      – Viu?

      E saiu rebolando o corpanzil praia afora.

 

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Aquele conhecido vereador, muito boçal, por sinal, chamou a secretária:

     – Ô minha filha, me faça um favor…

     – Pois não, excelência!

     – Me marque uma reunião para sexta-feira…

     A secretária pôs um bloquinho sobre as pernas cruzadas, apontou a caneta para o papel e perguntou ao ilustre legislador:

      – Sexta… como se escreve? É com “x” ou com “s”?

      – É… bem… marca pra quinta mesmo.