Edmilson Teixeira

11 de agosto de 2015

O Falso Comprador

     O José Glicózio é o tipo do sujeito de quem se podia afirmar ter surgido do nada, ou mais precisamente, “ter vindo de baixo”. Esforçado, trabalhador a seu modo, começou vendendo peças e sucatas de bicicletas que apanhava no antigo lixão da Levada. O seu local de trabalho era a famigerada “Praça do Rato”, mesmo bairro, extinta parcialmente não faz muito tempo.

     Zé Glicózio era a boçalidade em pessoa, até sumir do mapa. Andava nos trinques e só namorava garota bonita, da chamada “alta sociedade”. Uma coisa o incomodava: o nome. Quando melhorou de vida, em razão dos trambiques que amiúde praticava, tratou, depressinha, de mudar de identidade. Em seguida, se instalou comercialmente na Avenida Fernandes Lima, bairro chique do Farol, no ramo automotivo. Passou, então, a se chamar Fred Williams. Ou mais precisamente, “Doutor Williams”. Para combinar com seu novo status, ele somente comercializava veículos importados, zerados (dizem que alguns fraudados), das marcas mais famosas, mundialmente. A mais fraquinha era Mercedes-Benz.

      A loja do Doutor Williams era a coisa mais linda do mundo. Chamava a atenção e causava inveja nos concorrentes. Bela manhã, encontrava-se o sobredito, todo engravatado, apreciando o movimento da rua, postado numa das portas de entrada de sua majestosa loja, quando parou um carrão espetacular e dele desceu um sujeito elegante, sorrindo de orelha a orelha.

       – Bom dia! – cumprimentou o recém-chegado, com sotaque estrangeiro.

       – Bom dia! – respondeu Zé Glicózio, digo, Doutor Williams, devolvendo o mesmo sorriso.

       O recém-chegado prosseguiu com o mesmo sotaque:

       – Eu estava de passagem e, de repente, deparei-me com esta maravilhosa loja de carros tão lindos e modernos…

       E Doutor Williams, todo vaidoso:

     – Muito obrigado. A gente faz o que pode para agradar a freguesia…

     E o bacanão:

     – Perfeitamente! Olhe, de coisas boas e chiques eu entendo. Possuo na Europa alguns palácios, cinco castelos, iates tenho uns dez e… nem sei mais o que possuo!

      Os olhos do ambicioso Doutor Williamos brilharam e o figurão continuou:

       – Estou aqui, nesta maravilhosa cidade, para investir muito dinheiro. Ontem mesmo comprei um prédio de apartamentos para instalar meus empregados, e agora estava de passagem para olhar o terreno onde deverei construir um dos maiores shoppings do mundo…

       Doutor Williams babou-se todo:

       – Posso lhe fazer uma pergunta… excelência?

       – Pode, pode, meu jovem.

       – O senhor não estaria necessitando de um pequeno sócio…?

       – Em que empreendimento, meu caro?

       – Na venda de carros, por exemplo.

       – Aaahh, bem pensado. Na verdade, vou precisar adquirir mais veículos para os meus funcionários que ficarão tocando os meus negócios por aqui. Olhe, veja aquele carro que me trouxe até aqui… Acabei de dá-lo de presente ao rapaz que contratei para ser meu motorista, por um dia. Não me custou quase nada… Apenas uns milhõezinhos de dólares.

       – Meu Deus! O senhor deve ser podre de rico!!!

       – Trilionário!

       A ambição do Doutor Williams centuplicou:

       – Por acaso o senhor não gostaria de adquirir um dos meus carros… err… para um outro empregado?

       – Na verdade, eu gostaria de ficar com todos e mais a loja. Quantos carros o senhor tem aqui?

      – Dez! Dez, excelência! – respondeu o lojista, esfregando as mãos.

      – Quanto vale tudo?

      Doutor Williams simulou umas contas, de cabeça e exagerou:

     – Somando os carros e a loja, são 200 milhões!!!

     – Só isso? Fechado! Fico com tudo e pago agora! Levo só os carros. A loja eu lhe dou de presente.

    Doutor Williams urinou-se todo de surpresa e felicidade. Ameaçou desmaiar, mas se segurou nas canelas.

     Aí, o estrangeiro acabou de matar a pau. Chamou o motorista e ordenou:

      – Aristóteles, por favor, me passe um dos meus talões de cheques, entre aqueles que estão na minha pasta. Prefiro o do Banco de Londres. Depois, me traga aqui dez motoristas dos melhores que você conhece, para lavarem esses carrinhos daqui…

       Em menos de uma hora a transação estava feita. A loja vazia, não significava nada para o felicíssimo Doutor Williams porque, com a grana pretíssima que imaginou haver faturado, compraria mais dez lojas e uns cinquenta carros.

       Nesse mesmo dia, Doutor Williams foi detido ao apresentar no banco o checão do suposto milionário estrangeiro. Imediatamente, a perícia bancária constatou ser aquela a mais grosseira das falsificações. Por suas respectivas partes, nem a polícia, nem o Ministério Público e nem a justiça acreditaram na história contada pelo ambicioso Williams. Depois de ter cumprido uma cadeia esperta, ele sumiu do mapa, do mesmo modo conforme se escafedera o estelionatário “estrangeiro”.

 

Somente em Calamidades

     O saudoso Edécio Lopes, que descobriu dezenas de valores para o Rádio nordestino (entre os quais me incluo), era um cara sagaz, dono de uma memória prodigiosa, uma cultura invejável e presença de espírito incomum. Mas também sabia ser mordaz e apreciava dizer as coisas na tábua da venta de qualquer cristão.

    Belo dia, exercendo a função de diretor-artístico da finada Rádio Progresso, ele recebeu a visita de um sujeito boçal, que se identificou como Adailton e foi logo falando:

     – Eu quero fazer um teste para locutor, pode ser?

     Edécio olhou o cara de cima abaixo e respondeu:

     – Pode, sim.

     Edécio conduziu o candidato à cabine de testes e submeteu o cara a respectiva prova. O resultado ele deu na hora:

     – Você está reprovado!

     O candidato não gostou da decisão do diretor:

     – Mas o que é isso, seu Adelço? Minha voz é possante, é ou não é? Eu acho que ela pode ser aproveitada!

     E o Edécio:

     – Pode! Pode, sim! Mas só em casos de incêndio e de naufrágio!

 

Qual é a música?

     Praça Deodoro, final de tarde de uma sexta-feira, movimento acentuado de transeuntes. Em dado momento, apareceu um baixinho humildezinho, carregando uma sanfona maior que ele. Sentou-se num daqueles bancos de cimento e começou a dedilhar o teclado do instrumento. Nesse momento, apareceu um guarda municipal, cheio  de direito, que deu a bronca no coitadinho:

      – Ô rapaz, tu acha que vai fazer zuada aqui, é?

      – Bom…

      – Você tem licença pra tocar aqui na praça?

      – Tenho não, sinhô.

      – Então, me acompanhe. Vamos!

      O baixinho alegrou-se:

      – E qualé a musga que o sinhô vai cantá?