Ailton Villanova

9 de agosto de 2015

ELA PEDIU PRA MORRER

     O sempre fino e educado, o economista Pascoal Pascácio jamais imaginou que um dia perderia a classe, a paciência e a elegância, marcas de sua personalidade que muitos, ou todos, julgavam indeléveis. E terminou caindo nas malhas da lei, que nem bandido da pior espécie. A motivadora dessa reviravolta na sua vida foi a mulher com a qual contraiu núpcias, numa linda tarde primaveril. Rosilândia Estrevolina, tipo taciturna, mal olhava para as pessoas; entretanto só um exemplar humano mereceu dela a melhor das atenções, até a morte: o Pascácio.

     Apesar de arredia, Estrevolina era considerada uma das mais competentes funcionárias da empresa para qual Pascácio trabalhava. Ele era o economista-chefe, ela a tesoureira. Por conta do fato de que estavam sempre em permanente contato, passaram a depender um do outro nas suas atividades laborais; depois, nas pessoais.

     No aspecto pertinente ao amor, Estrevolina era insegura e para tudo se agarrava no Pascácio, por quem tinha verdadeira devoção. Adorava-o como a uma divindade. Nada decidia sem ele. Estrevolina grudava no marido tal qual uma sanguessuga. Da insegurança, a mulher transitou rápida, incompreensivel e reversivelmente para o ciúme, até atingir o cúmulo do desejo persistente de posse.

     – Acho que você não me ama mais, Pascacinho! – disparou ela, certa tarde, durante um almoço num restaurante finório da cidade.

     Pacientemente, o marido respondeu:

     – Não é verdade, meu amor. Eu a amo demais!

     – Ama não! Cadê que você me diz mais aquelas frases bonitas…?

     – E eu não digo? Não seja injusta, minha querida…

     – “Minha querida”? “Minha querida”? Eu não tenho nome, por acaso? Nem meu nome você nem pronuncia mais!

     Pascácio observou que aquela discussão sem sentido estava chamando a atenção das pessoas, no restaurante.

     – Baixe mais o tom das suas palavras, meu amor. Estamos incomodando os demais comensais. – ponderou o marido.

     – E eu com isso? Não tenho satisfações a dar a esse povo. Vá tudo pra puta que pariu! – explodiu Estrevolina, completamente fora de controle.

     – Olhe o palavreado!

     – Não olho! De quem é a boca? Não é minha? Então, eu falo o que quiser, no tom que eu quiser, tá bom?

     – Tá não.

     – Então, se lasque!  

     Nesse ponto, o marido perdeu a paciência e a elegância. Aí, ameaçou:

     – Cale-se, porra! Se você permanecer discursando desse jeito leva um tapa na boca!

     – Você está me ameaçando, Pascoalzinho? Ah, meu Deus! A que ponto chegamos! O meu marido me ameaçando! Por que não me mata logo?

     – Se você continuar me desafiando… é bem capaz.

     – Quer me matar, é? Me mate, então! Me mate, seu frouxo! Me mate, seu covarde!

     Nesse momento, o mundo empreteceu para o Pascácio. Descontrolado, ele se levantou e aplicou um tabefe tão violento na mulher, que ela passou disparada pela porta e foi se estender na calçada, aos berros:

      – Me mate! Me mate! Me mate!

      Ela não pediu? Então, ele a matou como se mata uma barata, sapateando em cima dela.

 

CORNO DE SORTE

     Naquele domingo, o notório Correínha baixou logo cedo, no bar de sempre, com a maior cara de felicidade. Logo, foi abordado pelo amigo Horácio:

     – Ihh, meu! Que alegria é essa?

     E ele, esfregando uma mão na outra:

     – Bicho, nem te conto…

     – Conta, rapaz!

     – Seguinte… cheguei à conclusão de que sou o cara mais sortudo do mundo!

     – Não me diga que ganhou na Sena… ou na Loto?

     – Nem uma coisa e nem outra…

     – Deixa de drama e fala o que aconteceu, porra!

     Ele falou:

     – Ontem, saí com uma garotinha legal às pampas e terminei indo com ela ao motel. Na saída, advinha com quem me deparei entrando lá?

     – E eu sei lá! Com quem foi?

     – Com os dois maiores fofoqueiros da minha rua, rapaz: meu vizinho e minha mulher! Estavam tão entretidos, aos beijos e abraços, que nem me viram!   

 

MAS QUE DENTISTA?

     Quando a polícia baixou na porta do Apolinário, ele já havia quebrado tudo dentro de casa. Inclusive a cara da mulher, a Marluce, cujo corpo é de causar arrepio até em cabelo de estátua.

     Levado à presença da autoridade policial, ele contou que Marluce saíra de casa de tarde, cerca das 14 horas, e só voltara às 3 da madrugada. Furioso, indagara da indigitada:

     – Onde você andava até esta hora, sua vagabunda?

     Ela respondera muito cínica:

     – Sei que me atrasei um pouco, mas não foi porque quis.

     – Ah, não foi não?

     – Claro que não! É que o consultório estava muito cheio de pacientes. Se duvida, pergunte pra ele.

     O marido pegou o telefone, ligou para o dentista e ficou sabendo que havia uma semana ele estava acamado.