Ailton Villanova

8 de agosto de 2015

O DANÇARINO VIOLENTO

     O Nicolau Tiburtino foi expulso da Polícia Militar “a bem da disciplina”, depois de tirado, alternadamente, 233 cadeias, em apenas um ano e meio. Antes disso, quando serviu no finado 20º Batalhão de Caçadores, teve de pagar uma prisão de 30 dias, sem direito a se comunicar com ninguém. Cumprido o castigo, foi jogado no olho da rua, com a ficha mais suja do que macacão de mecânico de autos. Não chegou nem a vestir a farda. Por aí, o caro leitor tira a ideia do quanto esse malandro é perigoso.

      Olhando para a figura do Tibúrcio, cristão nenhum, neste mundo, é capaz de avaliar o quanto o cara é perigoso. O Tibúrcio é de estatura média, magro, bigode fino e possui o cabelo cortado à moda militar. Fala baixo e calmo, sem, entretanto, encarar o interlocutor. A não ser quando é para ameaçá-lo de morte.

        Pois bem. À-toa na vida, sem amigos, sem uma companhia feminina e sem casa para morar, porque fora expulso pela mãe, Nicolau Tiburtino vagueava pelas ruas à procura de um lugar onde pudesse repousar o esqueleto. A época era junina. Driblando fogueiras, ele chegou à um determinado local onde a sanfona gemia, o triangulo repinicava, o zabumba ribombava e a poeira cobria o ambiente, impedindo alguém reconhecer alguém ou saber quem era quem. Na penumbra do salão, os dançarinos chamavam na grande, maltratando os solados dos pés num arrastar sem sim.

          O forró estava animado demais. Nicolau parou na porta, tentou acostumar a vista no ambiente, com a intenção de identificar entre os dançarinos, algum conhecido, ou conhecida. Estava nessa aflição quando, de repente, a sanfona parou de gemer, o triângulo não soltou nem mais um “plim” e o zabumba deu um stop no baticum. Parou tudo. Aí, as luzes do salão foram acesas. Satisfeito, Nicolau respirou fundo e correu o olhar pelo ambiente. Num canto, ele viu a linda morena Ditinha, pela qual nutria uma danada paixão, desde quando a viu pela primeira vez, na Missa do Galo, na paróquia de Santo Antônio, em Bebedouro. Alegrou-se.

       Com passos largos, atravessou o salão e parou diante da moça:

      – Minha princesa, pode acreditar, este é o momento mais importante da minha vida!

      Ela riu, ele prosseguiu:

      – Quer dançar comigo, nem que seja um minutinho, pra me fazer o homem mais feliz do mundo?

      Timidamente, Ditinha respondeu:

       – Infelizmente, não posso!

       – Como não pode?

       – Tá vendo não? O forró acabou?!

       – Só por isso?

       – Só.

       – Então, o forró vai continuar para somente nós dois dançar. Espere aí que eu vou falar com o sanfoneiro…

       Dito isto, Nicolau girou nos calcanhares, foi até o palco onde se achava o conjunto nordestino, cujos integrantes arrumavam seus instrumentos para irem embora, e ordenou:

         – Continuem com a dança!

         – Com ordem de quem? – quis saber o líder do conjunto.

         – Com ordem minha.

         – Tá conversando merda, rapaz?! Vá logo saindo daqui e não me encha a paciência… – replicou o sanfoneiro.

         Nesse momento, Nicolau puxou de cintura um revólver “canela seca” do calibre 45, disparou um tiro no teto do salão e bradou:

         – Bote esse conjunto fuleiro pra funcionar, agora mesmo, ou eu furo de bala todos esses instrumentos. De quebra, dou um tiro na bunda de cada um de vocês. Vamos! Botem essa merda pra tocar, porque eu, agora, vou começar a dançar! E quem quiser que me acompanhe!

          Depois desse discurso, Nicolau deu garra da morena Ditinha e puxou com ela um passo de forrobodó desses de furar buraco no chão. A negrada acompanhou a dupla no arrasta-pé, que só terminou às 10 da manhã do dia seguinte, só porque os forrozeiros desmaiaram de cansaço.

 

 QUALQUER MARCA SERVE!

        Benedito Olegário entrou no sábado só bebendo cachaça limpa, com tira gosto der canela de siri, na orla da Pajuçara. Nesse embalo, virou a madrugada.

      No domingo pela manhã, ressacadíssimo, perambulava pelo calçadão dos Sete Coqueiros, enxergando o mundo emborcado, quando deu de cara com o amigo Lula Pé de Lancha, que levava uma estatueta do Padre Cícero para colocar, como proteção, na barraca do irmão, o Zé Pedro.

       – Ô parêia, tô c’uma sede da peste. Tu me arruma um pouquinho dessa Coca-Cola litro, que tá levando aí? – pediu, na cara de pau.

       E Pé-de-Prancha:

       – Já tá bebo essa hora, rapaz? Onde é que tu tá vendo Coca-Cola litro?

        – Aí, na sua mão!

        – Isso aqui é um padre Cícero, rapaz!

        E o Olegário:

        – Também dá. Do jeito que tô, morrendo de sede, qualquer refrigerante desce legal. Num tô reparando marca!

 

 

AZAR DO LADRÃO          

     O sujeito dirigia o seu carro pela Via Expressa, na maior tranquilidade. Ao chegar numa curva fechada, próxima de uma ribanceira de mais de 200 metros de profundidade, ele parou o carro, desceu, e ficou assuntando o tempo, com a cara pra cima, algo contrariado. E, seguida, fez meia-volta, dirigiu-se a uma lanchonete, entrou lá, ocupou uma mesa e pediu um refrigerante. Enquanto isso, o carro ficou lá, abandonado, com os vidros abaixados.

     Daí a instantes, entrou um baixinho na lanchonete e se dirigiu ao sujeito do carro:

      – Foi o senhor quem deixou aquele automóvel no acostamento, perto da curva?

      – Foi.

      – Pois o ladrão acabou de leva-lo! Saiu na maior disparada!

      E o cara, tranquilão:

      – Certeza? Levou, mesmo?

      – Levou! E o senhor não vai fazer nada?

      – Não! Não vou! O ladrão que se lasque! O carro está completamente sem freios…

 

 

IDIOTA, MAS NÃO VELHA! 

     Gente muito boa, o distinto Fernando Queiroz recebeu uma convocação da sogra, dona Dagoberta, assim que voltou do trabalho pra casa, morto de cansado. A convocação dizia para o Queiroz comparecer “com urgência” à residência da velhota. Aí, ele se mandou pra lá. Ao chegar, tentou desanuviar o ambiente:

       – Alô sogrinha do coração! Tudo joia?

       – Que joia, que nada! Eu estou aqui revoltadíssima, meu filho! – desabafou a velhota.

        – Fique fria e me conte comequié esse babado.

        – Lá vem você com essas gírias horrorosas! O caso é sério!

        – Sou todo ouvidos. Desembuche, minha santa.

        – Me prometa logo que você vai assassinar o Joaquim do açougue!

        – Já vi que o caso é sério. O que ele fez contra a senhora?

        – Discutimos sobre o preço da carne e ele me chamou de “velha idiota”!

        E o Queiroz:

      – Velha coisa nenhuma, dona Dagoberta! A senhora tem o aspecto bastante jovem!