Ailton Villanova

7 de agosto de 2015

SUBVERSIVO DE CIRCUNSTÂNCIA

     José dos Santos, apenas Zé, chamá-lo, assim, no abreviado, já é suficiente para merecer sua atenção. Zé é um alcoólatra malandrão, tomador de todas, que vive perambulando pelas ruas da cidade, preferencialmente as das áreas nobres. Vive de biscates e não tem casa para morar. José dos Santos, ou simplesmente Zé, não faz muita questão de comer. Alimenta-se apenas de biritas. Mas até estas, que durante anos não lhe faltava, começou a rarear. Tempo de inflação, o leitor entende.

     Sem um centavo no bolso, não tendo onde cair morto, com fome, frio e sede, de álcool principalmente, eis que nosso Zé entrou em desespero. Até porque as ajudas que recebia de amigos e de colegas de copo também escassearam. Ou melhor, faliram.

     Então, perambulando pela orla marítima, de repente Zé teve uma bela ideia, ao avistar uma viatura da Polícia Militar estacionada no calçadão da pracinha dos Sete Coqueiros (que na verdade são treze), confluência Pajuçara/Ponta Verde, e partiu firme na sua direção. Ao chegar lá, encarou o comandante da guarnição, um sargento parrudo – que se achava escorado na porta do carro, pelo lado de fora -, e provocou:

      – Essa PM num tá cum nada!

      O militar olhou pra ele com desdém, cuspiu de lado e resolveu ignorá-lo.

      Zé não se deu por vencido:

      – Essa PM é o maior cocô de louro da paróquia!

      O sargento esboçou um ar de riso, mas o resto da guarnição se sentiu incomodada. O PM que se achava ao volante, colocou a cabeça de fora e perguntou ao superior:

      – Sargento, vamos dar um pau nesse cara?

      – Não, não. É um pobre coitado, não está vendo? – respondeu o sargento.

      – Todos vocês são uns meeerrrdas! Essa polícia só tem puto! – o malandro resolveu ser mais agressivo.

      Reação nenhuma. Os PMs permaneceram cada um na sua posição, fingindo ouvidos de mercador.

      Frustrado com o pouco caso da tropa, o Zé decidiu ser mais veemente na sua provocação: subiu na mureta de proteção da pracinha, temperou a guela, àquelas alturas mais seca do que língua de papagaio, e abriu o bocão:

       – Abaixo o governo! Vamos derrubar esse governo, que não está fazendo nada pela pobreza! Cadê os bandidos, que não assumem de vez essa porcaria de governo corrupto? Vamos matar! Vamos roubar! Bandidos unidos jamais serão vencidos!

       Como toda paciência tem limite e a subversão da ordem pública é coisa que nossas forças de segurança não toleram, a guarnição comandada pelo sargento parrudo, partiu pra cima do subversor com gosto de gás. Os PMs o pegaram pelos sovacos e quando se preparavam para jogá-lo na caçapa da viatura, ele relaxou, abriu um sorriso e desabafou aliviado:

       – Graças a Deus! Até que enfim, hein, seus merdas? Pensei que não iam me prender!

       – Por que você faz tanta questão de ser preso, seu pinguço? – perguntou o sargento.

       – É que a vida num tá fácil aqui fora, sargento. Pelo menos na cadeia eu vou ter casa, comida e uma cachacinha… Me levem logo pra lá!

 

SÓ OS OLHOS?

        O matuto Manuel Nicolau se mandou das lonjuras de Colônia Leopoldina para se consultar com um oculista em Palmeira dos Índios. Como tem um primo-irmão na cidade, chamado Antônio Avelino, ele resolveu se hospedar na residência deste. Chegou lá boquinha da noite.

         Mais tarde, depois do rango, na hora de dormir, o primo chegou pra ele e perguntou:

         – Ô Mané, tu trôxe rede?

         – Truxe não, primo véio!

         – Cuberta? Corchuado?

         – Tomém não!

         – Ah, entonce qué dizê qui tu só trôxe mêrmo foi os ôio, num foi?

         – E munto máu!

 

MELHOR A DA VIZINHA!

     Maltrapilho, expelindo o maior bafo de cana, o sujeito enfiou o dedo na campanhia da casa de dona Romilda Azevêdo Brandão, ela correu para atender à porta. Abriu-a, deu de cara com o bebão:

     – O que deseja?

     – Uma comidinha, dona. Tô morrendo de fome… – respondeu o indagado.

     Coração enorme, dona Romilda disse pro cara:

     – Um momentinho, viu?

     A bondosa dona de casa correu até a cozinha e, não demorou muito, voltou com um enorme prato de comida numa mão. Na outra, um refrigerante geladinho, geladinho…

      Enquanto o faminto comia avidamente, dona Romilda reparava nele com curiosidade. O cara acabou de comer, liberou um arroto estrondoso e aí a dona da casa aproveitou o momento para indagar:

     – A comida estava boa?

     E o mendigo:

     – Médio!

     – Como médio?

     Cheio de arrogância, o sujeito respondeu:

     – Olha, dona, da próxima vez a senhora vai ter que caprichar mais nesse rango, tá ouvindo? A vizinha do lado cozinha bem melhor!

SÓ SERVIAM SOLTOS

     Puxando o maior fogo, o popularíssimo “Sândalo”, cujo nome verdadeiro é Sandoval Inácio, perambulava de boteco em boteco, no bairro do Poço. Aí, parou na birosca do Binha e perguntou ao referido:

     – Tem cigarro avulso aí, meu chapa?

     – Aqui não vendemos cigarros à retalho. – esclareceu o Binha.

     – Tá bom. Brigado.

     Sândalo girou nos calcanhares e se mandou. Caminhou uns 100 metros, encontrou outro barzinho e tornou a pedir:

      – Tem cigarro avulso?

      – Tem não!

      Duas horas depois Sândalo se encontrava na Pajuçara, andando pra cima e pra baixo, e morrendo de cansado. Finalmente, encontrou um barzinho escondidinho, já no Jaraguá. Chegou pro cara do balcão e repetiu a pergunta:

      – Tem cigarro avulso?

      E o cara:

      – Tenho. Quantos quer?

      – Me dê aí uns vinte!

 

BELA SURPRÊSA!

     O Genebaldo entrou apressado numa loja do shopping, escolheu uma caneta dourada e pediu a vendedora:

     – Faça um embrulhozinho bem bonitinho. É um presente de aniversário para minha esposa.

     – Ah, vai fazer uma surpresa, hein, doutor?

     – Uma bela surpresa! Ela está esperando um automóvel!