Ailton Villanova

6 de agosto de 2015

DOENÇA CONTAGIOSA

     Boêmio convicto, farrista laureado, Manuel Eliseu, o Manu, começou a murchar que nem grinalda de defunto e a ficar com a cor da pele esverdeada, igualzinha a de um calango, inclusive com aquelas listrinhas marrons verticais. Seus amigos de farra começaram a desconfiar que ele estava com alguma moléstia braba.

     Seu parceiro mais chegado, o Anibal “Língua de Sapo”, aconselhou:

     – Tu tá mal, bicho. Tu vê aí, hein? Procura um médico com urgência, se não quiser esticar as canelas depressinha!

     Manu ficou alarmado com a observação do amigo:

     – Dá pra notar que eu tô tão lascado assim?

     – Ôxi, bicho, a turma já não te enterrou porque tu ainda tá de pé!

     Mais que depressinha Manuel Eliseu correu até o consultório de um médico conhecido seu, que fica no Edifício Breda, centro comercial de Maceió.

      O esculápio nem chegou a examiná-lo. Assim eu o viu, só fez pegar a caneta e o bloco de receita e garatujar um monte de letras no papel. Quando acabou, estendeu-lhe o escritado e falou, entronchando a cara:

      – Faça esses exames com urgência… Depois volte aqui!

      Segunda-feira passada, Manu, com a cara mais triste do mundo, parou na barraca do Eliseu, na Jatiuca e lascou o pau a beber. Daí a pouco, chegou o amigão Aníbal Língua de Sapo, que foi logo perguntando:

      – Comequié, bicho, tu foi ao médico?

      – Fui!

      – E aí?

      – Ele me mandou fazer uma porrada de exames…

      – Tu fez os exames?

      – Fiz. Peguei os resultados e corri pro consultório…

      – E o doutor, falou o quê?

      – Não falou!

      – Como não falou?

      – Entrei no consultório, entreguei os exames, ele leu tudo, olhou pra mim meio atravessado… Aí, fiquei cabreiro e perguntei se a minha doença era contagiosa…

      – E então, cara? O médico deve ter respondido alguma coisa!…

      – Respondeu não, porra! O fiadaputa só fez sair correndo escada abaixo. Não esperou nem pelo elevador.

 

BÊBADO HONESTO

     Há mais de um mês estava dando entrada no Hospital Geral do Estado o carpinteiro Gerson Melquíades. Hoje, de alta médica, repousa em casa, no Barro Duro, com as duas canelas no gesso e um braço na tipoia .

     Ao ler estas primeiras linhas, você fica imaginando: que diabo teria com o infeliz? Seguinte: no princípio de julho, o Melquíades passou um domingo inteirinho biritando na casa do compadre Gilson Sampaio, lá p’ras bandas do Feitosa. Saiu de lá vendo tudo trocado. Para enfiar a chave na ignição do carro passou mais de meia hora tentando. Quando conseguiu, arrancou com o carro rua a fora, ziguezagueando a mais de 200 quilômetros.

      Nessa loucura, atropelou um burro que vagava pela rua, subiu na calçada de uma padaria, derrubou um poste e foi se enfiar na traseira de um caminhão. Foi retirado dos ferros retorcidos de seu carro, pelos bravos bombeiros militares. Quando estava sendo levado de maca para a ambulância, o sargento BM que chefiava a equipe de resgate, observou:

      – Desculpe, meu amigo, mas me parece que o senhor está alcoolizado!

      E Gerson, muito sincero:

      – Mas é evidente, autoridade. Ou o senhor acha que alguém pode dirigir tão mal desse jeito?

BÊBADO RACISTA

     O boteco do Mané “Biriba”, no Benedito Bentes, havia fechado suas portas havia um tempão – cerca de uma hora – e o Clariosvaldo Vicente continuava firme, segurando um poste, no maior porre. Do canto da boca, pendia um cigarro apagado, e ele reclamando:

     – Putaquipariu! Faz uns 10 anos que estou aqui e num passa ninguém fumando!

     Mal fechou a boca, uma luzinha surgiu o cenário noturno. Pensando tratar-se de uma brasa de cigarro, Clariosvaldo alegrou-se e se mandou atrás:

     – Ô bacano, psiu… por obséquio… Ei… é o seguinte, hic… tô a fim de um toque… O amigo poderia?

     Era um vagalume que se movimentava com extrema rapidez, de um lado para outro. E Clariosvaldo cambaleando, correndo atrás. Atravessou a rua, tropeçou no meio-fio, colidiu com uma árvore e quando estava chegando perto, o vagalume deu uma voada espetacular e sumiu. Clariosvaldo Vicente ficou puto da vida e desabafou:

      – Tinha que ser presepada de negro. Ah, negro fiadaputa!

 

 

FERTILIDADE MATUTA

     Pouca gente sabe, mas quando iniciou no exercício da medicina, garotão ainda, o doutor Luiz Alberto Fonsêca de Lima era obstetra. Depois, foi que optou pela Dermatologia e virou craque na especialidade.

     Belo dia, encontrava-se refastelado numa confortável cadeira de vime, no alpendre da casa de sua fazenda em Tanque D’Arca, quando pintou lá um matuto todo apressado:

     – Dotô tão precisando de sua pessoa na casa de dona Inezita…

     E o ilustre esculápio:

     – Será que é aquela que é mulher mulher do Cícero Romão?

     – Esse mermo, seu dotô. Ela tá na maió agunia pra mode parí!

     Doutor Luiz Alberto pulou da poltrona, correu pra dentro de casa e dalí a instantinho, voltou ao alprendre carregando sua maletinha de serviço.

      – Vamos lá! – disse ao mensageiro.

      – Im riba de nestante, dotô!

      Doutor Luiz Alberto e o mensageiro chegaram rápido, de carro, ao endereço da parturiente – uma casinha simplesinha, de sapé, enfincada no pé da serra.

       Minutos depois, enquanto o esculápio se preparava para iniciar o trabalho de parto, o dono da casa, um baixinho raquítico, amarelinho, bigodinho de rato, aguardava inquieto, sentado num banquinho, a chegada do bebê.

       Como o casal era muito pobre e não pôde comprar um berço para o neném, a parturiente, muito jeitosa, havia transformado um balaio grande numa caminha para ele. E ajeitou-a num canto da casa.

        Finalmente, chegou a hora do parto e doutor Luis Alberto meteu mãos à obra. Daí a pouco, ele saiu do quarto, pôs uma criança no balaio e voltou rápido. Segundos depois, lá vem ele com outra criança e bota no balaio. Passado mais um tempinho, outra criança é levada para o balaio e, finalmente, vêm o quarto e o quinto bebês.

         Depois de ter lavado as mãos e limpado o suor do rosto, Luiz Alberto cumprimentou o pai:

         – Parabéns, Cícero! Cinco bebês!!!

         E o matuto, tranquilão, mastigando um raminho de capim:

         – Ah, isso num foi nada, dotô. Se a cama num tivesse quebrado, nóis tinha era inchido esse balaio pelas bêra!