Ailton Villanova

4 de agosto de 2015

QUANTA GENEROSIDADE!

(ou A História Furada)

      A Belinha não era uma galinha qualquer. Era uma galinha lindinha, de uma raça alemã raríssima e de nome complicado, que fora dada de presente à dona Jumelice Pinto, pelo engenheiro Helmut Heinberg, dono de uma empresa de prospecção da Alemanha, que viera a Maceió cumprir parte de um contrato resultante de convênio entre os governos alemão e brasileiro, tendo como base de apoio a capital alagoana. Durante o tempo em que Helmut permaneceu em Maceió, dona Jumelice trabalhou para ele como empregada doméstica e o presente que recebeu do ex-patrão foi uma prova do reconhecimento deste, pela dedicação e os bons serviços que ela lhe havia prestado.

       Belinha, a galinha, era uma ave de fino trato. Fofinha, amarelinha com pintas marrons, ela não comia milho. Só comia arroz no alho e óleo, tendo como mistura um alfacezinho temperado com vinagre e salpicos de orégano ao molho. Belinha não bebia água, só tomava leite desnatado. Não cacarejava, conforme fazem as galinhas de pobre, que são escandalosas em demasia. Ela abria o biquinho e soltava sons maviosos. Era o orgulho de dona Jumelice, cujo marido, o mestre-de-pedreiro Coriolano Pinto, comprou até um carrinho, por exigência da esposa, para possibilitar os passeios semanais dos três – ela, o marido e a galinha – pela orla marítima e áreas nobres e bacanas da cidade.

         Depois que se tornou conhecida, a galinha de dona Jumelice, passou a ser a sensação do Jacintinho, localidade onde morava a família da simpática dona-de-casa, que se viu obrigada  a trocar de residência, porque a curiosidade e o assédio do povo eram demais. Não deviam ter feito isso, porque essa providência custou caro, além de provocar milhões de lágrimas. Lágrimas de dor, de desespero, de revolta de dona Jumelice.

          A nova morada de dona Jumelice era mais ampla, ajardinada, bem arejada… verdadeiro paraíso! E Belinha, a galinha, reinava no novo ambiente, porque tinha mais liberdade para dar suas pernadas. Até abriu mão de dormir na cama, com a sua dona e o marido desta. Um dia, por um imperdoável descuido de sua proprietária, Belinha se achava trepada no muro, reparando no movimento da rua, quando, de repente, parou junto um sujeito montado numa moto, que ficou de butuca nela.

      – Mas que galinha mais lindinha! E como ela é gordinha! – comentou o sujeito para o vizinho de dona Jumelice, que desconfiara de suas intenções.

      Na hora, o vizinho rebateu, em tom de advertência:

      – Êpa, rapaz! Tire o olho da galinha alheia! Essa é uma galinha especial. É estrangeira!…

      E o cara, disfarçando:

      – Eu estava só admirando a pecinha, meu amigo.

      Dito isto, o elemento manobrou a moto, dando a entender que iria em frente. Mas, foi rápido na jogada que se seguiu: acelerou a máquina, subiu a calçada e, num lance rápido, pegou a galinha pelo gogó – ela só fez “créu” – e se mandou.

        O alvoroço foi grande! Dona Jumelice e a vizinhança toda se mobilizaram no sentido de localizar a ave famosa e o ladrão, que logo foi identificado. Tratava-se do marginal conhecido como Júnior Frazão – além de assaltante, era traficante de drogas e matador profissional. 

         Quando a PM pintou na parada, foi logo cientificada a respeito do elemento e partiu para capturá-lo. Não demorou muito, Frazão estava preso e submetido a interrogatório, pelo chefe da guarnição, sargento PM Adeildo, na presença de dona Jumelice e de um monte de vizinhos, entre esses aquele que o havia flagrado de olho da penosa afanada:

           – Cadê a galinha da senhora aqui presente, cabra safado?

           E Junior Frazão, com a cara mais cínica do mundo:

           – Tenha calma, sargento! Por que essa onda toda por causa de uma galinha?

           O militar sapecou-lhe um tabefe no pé do ouvido e ele foi cair a metros de distância, com os olhos girando nas órbitas.

            – Cadê a galinha, ladrão sem-vergonha? – insistiu o sargento.

       O meliante se levantou com dificuldade e respondeu:

       – O caso é o seguinte, sargento: eu gosto muito de animais, principalmente de galinhas, avezinhas maneiras. Então, eu estava passando por aqui e reparei naquela penosa lindinha, sentada no muro…     

       – Aí, pegou a bichinha e levou, não foi, safado?

       – Peraí, sargento! Me deixe terminar…

       – Vá, termine, antes que eu arranque sua cabeça na base da porrada!

       – Bem… como eu estava dizendo: adoro galinha… Aí, vi aquela tão tristinha, tão desprezadinha, em cima do muro… e o que foi que eu fiz? Peguei a coitadinha, botei na garupa da moto e fui dar uma voltinha com ela, pra ver se ela ficava alegrezinha. O senhor, precisava ver, sargento, como ela estava triste demais…

        – E a galinha, onde você botou? Eu quero a galinha, rapaz!

        – Infelizmente, sargento, aconteceu um desastre…

        – Que desastre, porra? Não me venha com enrolada!

        – O desastre foi o seguinte: eu estava passando com a coitadinha pela beira do Salgadinho quando, de repente, ela perdeu o equilíbrio e caiu dentro daquele riacho imundo… e ficou morrendo afogada! Aí, mais que depressa, pulei dentro da água, peguei ela e levei para o bar de um amigo, lá no Feitosa…

         – Você levou a galinha para o bar do seu amigo, pilantra? Pra quê? – interrompeu o militar.

          – Mas o senhor não quer mesmo que eu termine a história, não é?

          – Essa sua história está muito furada, safado. Termine, vá!

          – Molhadinha, a pobrezinha estava tremendo de frio. E eu também. Mas, como sou um cara muito humano, pensei, primeiro, em salvar a vida daquela avezinha lindinha. Com esse pensamento, botei-a pertinho da boca do fogão, para ela aquecer…

          – Na beira do fogão!

          – Sim, senhor. Na beira do fogão. Era o único lugar que havia para a bichinha aquecer!

      – Sim, e aí?

      – Aí, sargento, aconteceu outro desastre, dez vezes pior!

      – Mais desastre?! Quantos, afinal?

      – Esse outro foi terrível e fatal! Tremendo de frio, a galinha perdeu o equilíbrio e… zupt! – caiu dentro do fogo! Não pude fazer nada, pode acreditar!

      – E o que foi que você fez com os restos da galinha, me diga!

      – Bom… acho que o senhor vai entender. Já que ela tava morta, quase torrada, certo?, a solução foi trata-la direitinho para turma comer como tira-gosto na farra de hoje à noite…

      Ao escutar o desfecho da narrativa do malandro, dona Jumelice sofreu um desmaio, com suspeita de infarto. Enquanto providenciavam o seu traslado para o hospital, Júnior Frazão era transportado para o Pronto Socorro, em estado crítico, em face da tremenda surra que levou da PM, com o auxílio dos vizinhos da pobre mulher.