Ailton Villanova

30 de julho de 2015

A CABELEIRA JÁ ERA!

     Boçal ao extremo, o Lindulfo da Silva resultou do cruzamento de uma linda prostituta negra pernambucana, chamada Felisberta, com o embarcadiço alemão Hans Dieter Schultz, que desapareceu nos mares do mundo, depois que o garoto nasceu. Mais conhecido como Dudu, desde a infância, Lindulfo herdou do pai os olhos azuis e a feiura. Da mãe, a negritude, mas não o caráter. Felisberta foi um amor de mulher.

      Dudu tinha o maior orgulho da cor das suas duas bolas visuais, mas odiava os cabelos pixaim, que eram mais duros do que cara de delegado de polícia de antigamente. Quem quisesse vê-lo puto nas calças que o chamasse de “negão”. Sua reação mais frequente era a seguinte:

      – Sou negro, mas tenho o olho azul!

      O complexo de inferioridade racial que modelava sua personalidade controversa, só lhe permitia namorar louras; mas, com elas, entretanto, não fazia sucesso algum, por um detalhe interessante: era visualmente desagradável, isto é, feio pra burro!

       Aos 45 anos de idade, solteiro e arredio, pelos motivos já expostos, só uma coisa continuava-lhe incomodando: a carapinha, o cabelo agastado. Potes e bisnagas de brilhantina para melhorá-lo, usava aos montes. Até que, certo dia, ao chegar em casa de volta do trabalho (ele era camelô, na Rua do Comércio) reparou que no imóvel de frente estava sendo instalado um negócio comercial. Uma placa chamativa indicava: “Stylist Hair”. Com seus botões, e na sua ignorância, comentou: “Deve ser alguma coisa de comer!”

         Dia seguinte, com uma interrogação aperreando o juízo, Dudu atravessou a rua e foi lá no empreendimento.

         – Bom dia! Por favor, do que trata esse novo estabelecimento?

         A moreninha a quem fora dirigida a pergunta, respondeu toda contente:

      – Viu não a placa? Aqui vai ser um salão de cabeleireiros, especializado em todos os cortes… alisamentos…tudo!

      – Alisamentos??? Quer dizer que…

      – Isso mesmo, moço! A gente dá um trato no seu cabelo e deixa ele lisinho… lisinho…

      – Igual ao do Roberto Carlos?

      A moreninha armou uma expressão de desdém e respondeu:

      – Ah, moço, o senhor está brincando! O cabelo do Roberto Carlos perto do que a gente prepara e alisa, ha… ha… ha… (ela riu) não tem nem comparação. Quer experimentar?

      Dudu se apressou em responder, porque estava bem ali, na frente, a solução para o maior problema de sua vida:

      – Quando é que vai ser? Agora?

      – Não, não! Deixe de pressa! Só amanhã, depois da inauguração, que está marcada para às 15 horas. Combinado? 

       Nessa noite o Dudu não dormiu, de tanta ansiedade. Dia seguinte, assim que o salão abriu suas portas, ele pinoteou dentro. A baixinha com quem havia conversado na tarde anterior, chegou junto:

        – Mas, já, senhor? A inauguração vai ser à tarde!

        E ele, justificando a pressa:

        – É que eu quero ser o primeiro a ser atendido.

        Bom. Aberto oficialmente o “Stylist Hair, só um cliente prestigiou o evento: o próprio Dudu.

        A dona do salão, a baixinha já citada, chamou o freguês:

        – Pronto, cidadão! Pode se sentar nesta poltrona.

        O cara se aboletou no assento e a madame, cheia de mesuras, informou:

         – Primeiramente, vamos lhe aplicar uma massagem capilar com os melhores ingredientes produzidos no mundo… Em seguida…

         O ansioso Dudu cortou o papo da cabelereira:

      – Moça, comece logo esse troço! Quero ver o meu cabelo lisinho… o mais lisinho que houver!

      A cabeleireira reagiu cheia de ética:

      – Espere aí, senhor! Não é assim, não! Eu tenho que ir me aprofundando aos poucos, na aplicação do creme amaciante. Preciso ver a reação do cabelo…

      – Nem precisa, dona! Pode chamar na grande! Sapeque aí esse tal de creme que eu quero ver se presta mesmo!…

      – Presta, sim. É de fabricação japonesa. É poderosíssimo!

      – Ah, é? Então, mande brasa!

      – O senhor se responsabiliza?

      – Claro! O cabelo não é meu? Vá em frente!

      O cara não mandou? Então, a madame destampou o recipiente do produto e, com uma enorme colher, retirou uma generosa porção. Ato contínuo, aplicou-a no pixaim do freguês. Naquilo que o creme bateu no cabelo, escutou-se o chiado – ssshhhiiii… Em seguida, uma fumacinha seguida daquele cheiro irritante de enxofre.

       – Cof… cof… cof… – engasgou-se o Dudu, forçando a respiração.

       A cabelereira tentou amenizar a situação, utilizando um pente para retirar o que sobrara do creme alisante, da cabeça do Dudu. Conseguiu retirar, mas somente o havia restado dos cabelos do infeliz.

       Lindulfo da Silva perdeu, para sempre, uma banda inteira do pixaim. E não adiantaram as dezenas de enxertos e cirurgias reparadoras para recupera-la. 

 

LAGOSTA CHEIA DE LUXO

       Esta é uma anedota. Para completar a coluna.

       Sujeito chamado Albertudes toda manhã levava o seu cachorrinho para tomar um grogue de cachaça, no bar do velho Anésio, localizado na esquina da rua onde morava. Ele chegava colocava o cão sentado no banco do balcão, pedia a cachaça e dava pro cão, que entornava o copo inteirinho.

     Numa manhã, Albertudes chegou pro dono do bar e disse:

     – Seguinte, seu Anésio! Estou indo à uma pescaria com uns amigos, vou ficar fora três dias e gostaria que o senhor me fizesse um favorzinho. É muito simples: o meu cachorrinho não passa sem a cachacinha dele da manhã. Ele vai vir aqui sozinho e o senhor faça a gentileza de lhe servir a bebida, como sempre. Eu já vou deixar tudo pago…

      E Albertudes saiu de viagem. Durante as manhãs que ele passou fora, o cachorrinho foi ao bar. Pulava no banco do balcão, esperava seu Anésio servir a cachaça dele, bebia num só gole e ia embora pra casa.

      No final do terceiro dia, Albertudes voltou da pescaria, com uma lagosta enorme na mão. Ao ver aquele bicho gigantesco, ainda vivo, seu Anésio se empolgou:

       – Que maravilha! Eu já vou preparar a água quente!

       No que respondeu o Albertudes:

       – Negativo, seu Anésio! Essa lagosta aqui só toma uísque!

 

REMÉDIO IMPEDIDO

     A conselho do amigo Álvaro Cleto, o inteligentíssimo Jotajó ao médico porque andava com uma disenteria filha da mãe. Seu foreba se achava mais esculhambado do que foreba de pirobo. O doutor o examinou e receitou uns remédios.

      Uma semana depois ele voltou ao médico, bem pior do que antes. O facultativo estranhou:

      – Você comprou os remédios que lhe prescrevi?

      – Mas é claro que comprei, doutor!

      – E tomou todos, direitinho?

      – Tomar como, doutor? Em todos os frascos estava escrito: “Mantenha sempre bem fechado”!

 

NO BAR DO DUDA

      Dois habituês conversavam, entre um gole e outro:

      – Sabe, Jorge, lá em casa eu e a patroa somos muito organizados. A gente toma metade água, metade vinho…

      – Como é que é, Pedrinho? Vocês misturam água no vinho?

      – Não! Ela toma água e eu tomo vinho, entendeu?