Ailton Villanova

29 de julho de 2015

NÃO PRECISAVA EXAGERAR

     Um casal exemplar! Esse era o conceito que desfrutavam Anfilófio Antípodas (Filó) e Ernelina Lúcia (Lininha), marido e mulher, perante a sociedade pinheirense. Religiosíssimos, ele era Congregado Mariano na paróquia do bairro do Pinheiro; ela, Filha de Maria, da mesmíssima comunidade católica. Não perdiam uma missa dominical, onde recebiam o sacramento da comunhão, que encaravam como obrigação religiosa. De quebra, Filó Antípodas desempenhava a função de “coroinha”, tempo em que sua amadíssima Lininha cumpria o papel de “zeladora” da paróquia. Achando isso pouco, a dupla ainda atuava como cantor e cantora, no coro da igreja.

      Muito jovens, ainda, Anfilófio e Ernelina contraíram núpcias, cujo celebrante foi frei Teóphilo di Virguletta, missionário italiano designado pelo Vaticano para missão apostólica no Brasil, tendo como base a Arquidiocese de Maceió. Lininha era moça de chamar a atenção, porque, além de muito linda, possuía um corpo espetacular. Mas era ingênua. Quanto ao Filó, este não era essas bonitezas todas, mas dava pro gasto. Porte atlético, funcionário federal, praticava o esporte do volibol e era bom nos saques e no ataque. Em dias de hoje, certamente estaria brilhando na seleção brasileira respectiva. Só via terra onde Lininha pisava.  Ela, por sua vez, dizia não enxergar outro homem na vida.

       Em razão de sua religiosidade, o casal respeitava, até demais, as orientações da Igreja. E, no tocante as obrigações matrimoniais, marido e mulher as respeitavam até ao cúmulo do exagero! Sexo só faziam às escuras e vestidos. Eram tão disciplinados que não se davam ao direito, até, de pronunciar um “ai”, sequer, no momento crucial da relação: o êxtase, o gozo. Bem dizer, era um casal de santos.

       Mas, um dia, Satanás resolveu bagunçar a vida do casal e mandou à ele dois dos seus mais sacanas emissários.

       Seguinte: Numa madrugada calorenta de verão, bandidos terríveis custodiados do estado na finada Penitenciária São Leonardo, resolveram empreender fuga. Entre os meliantes fugados se achavam José Cícero dos Santos, o proverbial “Ciço Bimba de Ouro” e seu parceiro de cela e de degenerações sexuais Antiógenes Aragão, vulgo “Cu de Mola”, que tanto comia como dava o que a gente popularmente chama de “rabo”.

      Assim que se viram fora do presídio, Ciço Bimba de Ouro e Cu de Mola se, embrenharam no mato, separando-se dos demais evadidos. Perdidos e sem rumo, foram parar no bairro do Pinheiro, justo onde residia o inocente casal Anfilófio e Ernelina. E a residência deles foi o alvo dos bandidos.

      – Vamos assaltar aquela casa de primeiro andar! – decidiu Bimba de Ouro. – A gente entra, pega o que puder e se arranca!

      – É uma boa! Vamos lá! – concordou o outro.

      Os marginais não encontraram nenhuma dificuldade para invadir a casa. O primeiro ambiente que encontraram dando sopa foi, justo, o quarto de dormir do casal. Naquilo que reparou no corpo sensualíssimo de Lininha, sobre a cama, sem nada lhe cobrindo – nem um lençolzinho, pra remédio –, o taradão Bimba de Ouro teve logo uma ereção. Enquanto isso, de arma em punho, seu parceiro atacava o grito:

      – Isto é um assalto! Levantem-se os dois!

      Ciço Bimba de Ouro, estático, não tirava os olhos da mulher que, choramingou:

       – Por favor, senhor ladrão, não nos mate! A gente faz o senhor quiser…

       Ao escutar isso, o De Ouro animou-se todo:

       – É meeesmo?!

       E Filó, o marido, apavorado:

       – Cala essa boca, meu amor! Você não sabe o que está dizendo!

       No que retrucou o bandido:

       – Cale a boca, você! Ela sabe o que tá dizendo, sim.

       Virando-se para a gostosura, Bimba de Ouro, indagou, com a baba escorrendo pelo canto da boca:

       – Minha lindeza, é verdade que você faz o que eu quiser?

       – Faço, sim. Contanto que não nos mate…

       – Tá bom. Vamos fazer o seguinte: você deita aí na cama e abre bem as pernas; meu colega faz a limpa na casa e o seu marido, fica bem quietinho, aqui no canto do quarto, espiando a gente “se amar”, pra aprender como é o riscado, certo?

       – Certo, senhor ladrão. – ela concordou.

       Bandido e inocente esposinha deram, então, início à maior seção de sexo explícito, explosivo, ruidosamente animalesco. Horas mais tarde, extenuado, depois de ter alcançado o deleite extremo, o bandido capitulou:

        – Ai! Aguento mais não, garota! Você é invencível! Eu me rendo!

        Pela manhã, depois que os marginais se mandaram, a ingênua esposa, crente que havia protagonizado uma grande ação, desabafou com o marido:

         – Enfim, estamos salvos! Valeu a pena o sacrifício, não foi amor?

         E o marido, putíssimo:

         – Sacrifício? E pra fazer esse “sacrifício” precisava você rebolar tanto e gemer de prazer que nem uma desvairada?!  

 

CHORO AO CONTRÁRIO

     Cidadão amadíssimo, exemplar chefe de família, o multimilionário doutor Apolinário Alcides teve um ataque do coração e bateu as botas. No seu velório, uma mulher chamou a atenção de todos, porque chorava convulsivamente. Um dos presentes achou melhor ir consolá-la:

     – Perdão… A senhora é parente do falecido?

     – Não! – respondeu ela, entre soluços.

     – E por que a senhora está chorando tanto, desse jeito?

     – Justamente por isso! Porque não sou da família!

 

PEQUENA DISTRAÇÃO

     Casal de origem humilde, seu Jucondino e dona Marieta (cuja inteligência é bastante limitada) fechou o seu estabelecimento comercial, na cidade de Penedo, e veio se instalar na capital. Nessa época, só existiam duas lavanderias, em Maceió, insuficientes, portanto, para atender a demanda, sempre crescente. Orientado por um deputado amigo, o casal penedense optou por montar uma lavanderia nas proximidades da Assembleia Legislativa Estadual.

       Trabalhador e bastante simpático, marido e mulher logo angariaram a simpatia da clientela, que crescia dia após dia.

        Bela manhã, um dos clientes de Jucondino e Marieta ficou intrigado  quando, ao entrar na lavanderia, reparou que a mulher se achava com uma das faces e a orelha queimadas. Então, resolveu matar a curiosidade:

         – O que foi que houve com a senhora, dona Marieta?

         Ela explicou:

         – É que eu sou muito distraída, sabe dr. Diógenes? Imagine que eu estava passando uma roupa quando o telefone tocou e eu atendi com o ferro de passar?

         – Puxa, mas que distração, hein? Mas por que o Jucondino também está com a orelha queimada?

         – É que a ligação era pra ele!