Ailton Villanova

24 de julho de 2015

O APRENDIZ DE NECROPSISTA

     Filho de um humilde (porém decente) coveiro, o Niclaudinor Alexandre, aos 8 anos de idade, empolgou-se com a rotineira ocupação do pai, assim que o viu em plena atividade no Cemitério de São José, localizado no Trapiche da Barra. Seu Adrenalino, o genitor referenciado, o havia levado para que conhecesse como era o riscado num campo santo.

     – Tá vendo, meu filho, é pr’aqui que a gente vem, quando morre!

     E o menino, abismado:

     – É aqui que é o céu, pai?

     – Não, não, meu filho. Aqui é o cemitério!

     Dentro da cabeça do garoto o juízo deu uma reviravolta:

     – Ôxente, pai, essa história num tá certa, não! Lá na escola, a professora de religião todo dia ensina que, quando a gente morre vai para o céu, que fica lá no alto, bem pertinho da lua… onde mora o São Jorge! 

     Sem condições e melhor conhecimento para contra-argumentar a teoria cristã instruída pela mestra do garoto, seu Adrenalino resolveu encerrar o papo com a seguinte ideia:

     – Olhe, meu filho, essa história de céu lá nos ares, pertinho da lua, só existe pra quem é santo, como São Jorge, entendeu? Pra nós, que moramos aqui na terra, o céu fica debaixo dos nossos pés. E não se fala mais nisso!

     Nesse dia, a fila de “de cujus” para sepultamento foi grande. A impressão que se teve, foi a de que todo mundo resolveu morrer na véspera para ser enterrado, justo, naquela data.

      Feliz e contente, o garotinho Niclaudinor ajudou o pai no seu mister, até cair, esgotado pelo cansaço. A partir daí, toda folguinha de que dispunha, olha ele no cemitério, de pá e enxada na mão, dando uma de auxiliar de coveiro! Garoto esperto, trabalhador, ele despertou a atenção de um determinado dono de funerária, o José Osply de Carvalho, que lhe propôs um emprego de higienizador de defunto.

     – E como é que é esse babado, seu Osply?

     O funéreo empresário explicou:

     – É simples, meu garoto… Você só terá que passar uma esponja com água no defunto, antes do meu pessoal especializado começar a vestí-lo. Quando for o caso de uma defunta, você aplica um perfumezinho…

     Niclaudinor topou a parada, na hora. Até por que a grana era melhorada e ele não teria mais que estar esburacando o chão para enterrar cadáver. O pai alegrou-se com a ascensão do filho e já previa para ele um futuro promissor no ramo defuntístico.

      Não é segredo para ninguém – muito menos para a polícia, para o MP e para a Justiça -,  que na grande maioria das funerárias, ocorre a prática espúria, condenável, ilegal, de injetar formol em corpo humano morto, crime previsto em lei (violação de cadáveres) e aquela de propriedade do José Osply não fugia à regra. Ele próprio se encarregava de praticar o crime, porque sempre soube que não dava em nada.

       Quando completou 18 anos de idade, Niclaudinor já estava enfronhando em todas as atividades legais e ilegais da Funerária “Vai com Deus”. Numa determinada tarde de sábado, encontrando-se em gozo de merecida folga, o jovem mancebo participava de uma farra no bar do Pedrão, localizado na Brejal, quando pintou na porta do referido um negrão montado numa bicicleta e a ele se dirigiu:

        – Niclaudinor, seu Osply mandou chama-lo com urgência…!

        – O que é que ele quer? Tô de folga, meu!

        – Ele mandou chama-lo para aplicar formol num defunto…

        – E por que ele não aplica?

        O negrão esclareceu:

        – É que ele tava trocando uma lâmpada, caiu da escada e quebrou os dois braços… Só essa besteirinha! É mole ou quer mais?

         E o Niclaudinor, já biritado e cheio de má vontade:

      – Eu vou, mas quero ganhar hora “extra”. Vá na frente que eu chego já!

      Não demorou muito, eis que lá chegou o solicitado funcionário, mais bêbado do que gambá. Na sala onde se praticavam os delitos, jaziam sobre respectivas mesas, dois sujeitos. Um deles estava vivo. Era o motorista do carro que havia trazido do interior, um defunto para submeter-se ao processo espúrio de formolização. Cansado da longa viagem do interior à capital, o tal motorista espichou-se na mesa ao lado onde fora colocado o morto, para “tirar um cochilo”. E que cochilo foi esse, que agarrou o sono.

     Niclaudinor embocou na sala dos defuntos e o primeiro que achou com cara do respectivo, foi logo arrancando suas roupas. O cara acordou assustado:

      – Êpa! O que é isso, meu chapa? Tá despindo por quê?

      E o Niclaudinor:

      – Cala a boca, porra! Você veio aqui para receber formol. Mas eu vou mais adiante… Vou fazer aquilo que sempre sonhei: a minha primeira necropsia!

      – O quêêê? O morto é esse aí do lado, rapaz! Eu sou apenas o motorista!

      – Não interessa! Fique quietinho, que agora vou lhe abrir, para saber do que você morreu! Não se mexa!

      O suposto morto abriu no berreiro:

      – Socoooorrrooo! Estão querendo me mataaarrr!

      O motorista ainda chegou a receber o primeiro corte no bucho. O segundo não houve tempo de ser aplicado, porque a sala foi invadida por um monte de soldados da Rádio Patrulha, cada um mais invocado que o outro.

       O pau que eles deram no Niclaudinor, não se dá nem num rinoceronte.

 

DE SALTO? IMPOSSÍVEL!

     Por insistência da dedicada e cuidadosa genitora, o Nivaldinho, rapaz delicadíssimo, superfino, foi consultar-se com o dr. Gamaliel, famoso psicanalista. O esculápio o examinou percucientemente e, ao final, indagou:

      – O que o levou a fazer a opção pelo homossexualismo, rapaz?

      E ele, revirando os olhos e torcendo as mãos:

      – Não foi opção minha, doutor! Fui colocado nessa vida à força! Eu tinha uns dez anos, estava brincando inocentemente quando o Fred, meu primo mais velho, me agarrou por trás e abusou de mim! Uma violência i-no-mi-ná-vel, doutor!

      – Mas você não tentou escapar? Não dava pra sair correndo?

      – Dava nada, doutor! De salto alto e saia justa, como eu poderia…?