Ailton Villanova

23 de julho de 2015

O ARQUITETO MUITO LOUCO

     Quando dona Severina Barbosa, entendeu de batizar o filho adorado como o nome de Jesus, ela estava pressagiando para ele um futuro abençoadamente auspicioso. Na conformidade do seu simplório raciocínio, seria de bom alvitre considerar que, em sendo um xará do Salvador da Humanidade o ungido rebento jamais seria desmerecido em qualquer de suas pretensões ou projetos de vida. Sobejamente conhecida em todo o bairro de Bebedouro como “Dona Bida”, ademais por se tratar de uma das zeladoras da paróquia do bairro, ela se precipitou na reflexão, digamos assim, por ingenuidade ou por excesso de confiança na influência  do divino homônimo.

     Mas, o Jesus Barbosa não resultou na pessoa ardentemente esperada pela genitora. Filho único e malandro desde criancinha, o xará do Todo Poderoso mal aprendeu a ler, em que pese a insistência dos pais, que investiram uma grana preta na tentativa de vê-lo, um dia, exibindo um anel de doutor, até porque é débil mental. Decepcionadíssimos, os velhos partiram desta para a melhor sem ver consagrada essa vontade.

      Sem pai, sem mãe; sem eira e nem beira, Jesus Barbosa se lançou à várias aventuras, sem sucesso algum, porque lhe faltava aptidão e, o principal: leitura. Mal sabia desenhar o nome e era um mentiroso de marca maior.   

       De tanto se aventurar, e já no desespero, conseguiu arrumar uma vaguinha de ajudante de pedreiro, na construção de uma mansão no bairro do Farol. A obra era de dar inveja. Num final de tarde de certo sábado, sendo o último a sair do trabalho, eis que Jesus foi abordado por um figurão que ocupava um carrão, parado defronte a imponente construção.

       – Boa tarde, meu amigo! – cumprimentou o bacana. – O senhor é o responsável por essa magnífica obra?

       Bem apessoado, Jesus sempre cuidou bem do visual. A saudosa mãe o ensinou a andar bem vestido. De modo que foi confundido com alguém mais que um simples ajudante de pedreiro. Aí, ele cresceu e esnobou:

       – Sou, sim. Gostou?

       E o figurão, encantado:

       – Parabéns, doutor! Muito prazer, eu me chamo Antiógenes Ezequias. Essa é a obra de engenharia mais encantadora e melhor acabada que já vi!

       Ao ser chamado de “doutor” e tendo recebido aquele elogio todo, Jesus decidiu continuar com a comédia:

       – Muito obrigado, seu Antiógenes Ezequias! Eu me chamo Jesus e estou às suas ordens, caso precise da minha modesta colaboração…

       – Não diga! Quer dizer que se eu quisesse construir uma mansão no mesmo padrão dessa, o senhor toparia…?

       – Claro! Claro!

       – O projeto é do senhor?

       – Claro! Claro!

       O figurão animou-se e foi fundo:

        – Nesse caso, vamos nos acertar. Quando poderemos ter uma conversa definitiva? Tenho alguma pressa, porque devo viajar à Europa dentro de três dias e só estarei de volta daqui a um mês…

        Jesus acompanhou o ritmo do tal Ezequias:

        – A gente se acerta hoje mesmo, porque este é o meu último dia aqui na construção. Na verdade, só passei aqui para me despedir da turma…

        Além de mentiroso e boçal, irresponsável ao extremo, Jesus Barbosa pegou o ricão pelo pé:

        – O senhor me diz como quer a mansão, me mostra o lugar onde devo construí-la e, na sua volta, ela já estará pronta!

        – Não diga! Verdade, doutor Jesus? E quanto aos valores…?

        – Como?

        – O preço!

        – Ah, o senhor me adianta a metade e me paga o resto na entrega da obra. Tá bom assim?

        – Tá ótimo! É só me dizer o número de sua conta bancária, que, hoje mesmo, apesar de ser sábado, mandarei transferir os valores…

      – Prefiro a grana na minha mão, doutor. Não gosto de banco…

      – Então, tá bom. Vamos ver onde fica o terreno. Lá mesmo eu lhe entrego o dinheiro… Vamos no meu carro?

      – Vamos.

      Foram, partiram para os “finalmentes”e ao se apossar da grana, Jesus Barbosa teve uma síndrome de loucura:

       – Acho que essa será a obra do século! E, aproveitando a ocasião, devo o lhe fazer uma advertência, caso sofra do coração…

       – Sofro não! E se sofresse?

       – Era bem capaz de ter um infarto… de tanta emoção!

       Um mês depois, Antiógenes Ezequias teve um princípio infarto quando Jesus lhe apresentou o resultado do trabalho que ele intitulou de “obra do século”. Na verdade, era um amontoado de tijolos, telhas, madeira e barro, que oscilavam, ameaçando ruir a qualquer momento, quando o deslocamento ao ar batia mais forte. A tal “obra” era, em síntese, uma coisa vã, sem fundamento, sem arte, sem coisa alguma que se pudesse chamar de lógica.   

       – Ma… mas… essa é a minha mansão… doutor???!!!

       – É, não tá linda?

       Com a confirmação, o contratante não teve como resistir ao infarto que se havia prenunciado fatal. Ali mesmo, esticou as canelas.

        Quanto ao Jesus, este continuou exercendo a função de auxiliar de pedreiro, entretanto em obras no âmbito da penitenciária estadual.

 

 

QUALQUER UM…!        

     O português Manuel Prata é mais grosso do que os da espécie. Certo dia, entrou nervosão em determinado edifício, aplicou um chute no vaso da recepção, xingou duas velhinhas que se achavam sentadas na portaria, sapecou um murro no botão para chamar o elevador. Quando este chegou, o ascensorista indagou:

     – Para que andar o senhor vai?

     Putão nas calças, ele respondeu:

     – Qualquer um! Já errei de prédio mesmo!

 

BAITA RESGATE!

     Emissora de rádio de além-mar, a mais ouvida, por sinal, mandava para os ares lisboetas um programa de músicas de sucesso. Em dado momento, o locutor Joaquim Manuel interrompeu a audição e entrou com uma notícia em audição extraordinária:

     – E atenção, caros ouvintes! Acaba de cair um helicóptero sobre o cemitério central de Lisboa. Daqui a pouco voltaremos a informar com maiores detalhes…

      Não demorou muito, Joaquim Manoel voltou a noticiar que a equipe de salvamento da Defesa Civil já havia resgatado mais de 400 corpos!…