Ailton Villanova

16 de julho de 2015

O CÚMULO DO EXAGÊRO

     Malandro até dizer basta, o Optato Santana teve de tomar uma atitude séria, a primeira de sua vida, quando completou 40 anos de idade, justo no dia do seu aniversário, por exigência da mãe, a viúva Obdúlia.

     – Olhe aqui, seu vagabundo… a partir de hoje, você só entra nesta casa se arrumar um emprego, tá me ouvindo bem? – sentenciou a genitora.

     E ele, na maior cinismo:

     – Mas o que é isso, maínha?! É esse o presente de aniversário que a senhora tá me dando?! Não acredito!

     – Pois acredite, seu safado! Estou farta de lhe sustentar e de suportar as suas bebedeiras. – rebateu a viúva.

     – Mas, maínha, onde é que eu vou morar?

     – Debaixo da ponte. Aproveite que naquela ponte do Salgadinho ainda tem vaga…

     – A senhora é uma mãe desnaturada! Como é que faz uma coisa dessa com o seu filho adorado!!!

     – “Filho adorado”, vírgula! Como é que eu posso adorar um filho que não presta pra nada? Rua! Vá procurar um emprego!

     Ele foi. Optato sapecou os pés na estrada e saiu parando em tudo quanto foi boteco. Entre um gole e outro, perguntava sobre a possibilidade de ocupar uma atividade remunerada que lhe caísse bem, e na conformidade de suas aptidões, que eram…  nenhuma.

      A ideia de uma função bem recompensada era tentadora. De modo que, ao parar no último bar para “tomar a derradeira”, ele observou, num programa exibido pela televisão da casa, um sujeito arrecadando de um monte de babacas, rios de dinheiro, só usando a sua lábia. O cara era um evangélico, que prometia a “Salvação da Alma” e o “Reino dos Céus”.

       – Irmãos, basta que depositem nesta sacola o seu “dízimo”, conforme é determinação de Deus, e então, terão, todos, o direito a ingressar no Reino dos Céus! Venham! Depositem o seu dízimo!

       Nesse momento, ocorreu a Optato a ideia luminosa de ganhar dinheiro fácil enganando os tolos. Dia seguinte, boquinha manhã, vestido elegantemente, ele entrava no Bar do Dino, situado na penúltima ribanceira do Reginaldo, com uma Bíblia debaixo do braço. Mil olhares de espanto e surpresa pra cima dele.

      Optato cumprimentou os presentes, foi até o balcão e falou para o Dino, dono do estabelecimento:

      – Caríssimo irmão, bom dia. Por favor, me libere uma garrafa de cachaça, porque preciso molhar a garganta para pronunciar o meu    sermão…

      – Você tá de brincadeira, rapaz!

      – Tô não, Dino! É que agora sou missionário da Nova Igreja Evangélica do Amor Divino…

      Com a garrafa de cachaça no bolso do paletó e a Bíblia na mão, o malandro improvisou uma tribuna no centro da praça mais próxima, e lascou falação, de microfone (de bateria) em punho:

      – Irmãããooosss em Cristo! Eis-me aqui, diante de vocês, para apresentar a palavra de Deeeuuusss!

      Fez uma pausa, tirou a garrafa de cachaça do bolso, tomou um demorado gole, fez uma careta, cuspiu de lado e prosseguiu:

      – Mas a palavra de Deus não sai de graça pra ninguém! Nãããõoo, irmãos! Já foi o tempo em que os trabalhos evangélicos eram feitos gratuitamente. Hoje em dia, até um sermãozinho banal, mixuruca mesmo, tem que ser remunerado, com facilitação a preço módico.

       A esta altura, uma voz se destacou do meio do ajuntamento de pessoas humildes que haviam parado para escutá-lo:

       – Qualé, pastor! Isso é roubo!

       – O infiel está me chamando de ladrão?! Deus não está gostando disso! Peça perdão pelo insulto, criatura pérfida!

      – Perdão o cacete! Você é ladrão, sim, e está querendo assaltar o povo! – berrou ainda mais alto, o popular.

      Nesse momento, por absoluta coincidência, uma viatura da PM dobrava a esquina. Dentro dela, ao ouvir as palavras “ladrão” e “assalto”, o comandante da guarnição, um sargento gordão e bigodudo, ordenou aos subordinados, sem mais delongas:

      – Desembarquem e adiantem, soldados! Assalto na parada! O bandido deve ser aquele de preto, que está empunhando um objeto suspeito (era o microfone!)! Fogo nele!

      Cinco minutos depois de cerrado tiroteio, onde só a polícia atirava, a praça estava deserta e o único corpo presente era, justo, o do Optato. O  infeliz estava estirado no chão, com as duas canelas esburacadas de tiros de todos os calibres. Mas, vivo, felizmente.

 

 

A ONÇA, O NEGRINHO E O OSSINHO 

      O velho João Lopes de Messias, antigo caçador, hoje está aposentado dessa atividade, mas tem mil histórias para contar. Cada uma mais incrível que a outra.

     Outro dia, um dos seus netos, o economista Kleber Lopes de Lima, o levou para conhecer a família de sua noiva Erotildes, justo no dia do aniversário dela. Era um sábado e George Gomes, futuro sogro do Kleber, achou de puxar papo com o velhusco:

      – Ouvi dizer, seu João, que o senhor é um grande caçador, hein?

      E ele, meio tímido:

      – Eu faço uma forcinha, não sabe, meu rapaz? Aliás, fazia. Hoje estou aposentando…

      E o George, puxando pelo velho:

      – Todo caçador tem incríveis histórias pra reviver, não é, seu João?

     E ele:

      – Verdade. São tantas que perdi a conta, meu rapaz!

      – O senhor se lembra de alguma que tenha lhe causado aquele arrepio na espinha? – insistiu o futuro sogro do neto.

      – Agora mesmo acabei de me lembrar de uma… Aconteceu lá na Mata do Rolo, que fica em Rio Largo.

 

 

      – Já ouvi falar nela. É uma mata e tanto. Muitos animais selvagens, seu João?

      – Demais! Mas muito fraquinhos. O mais brabo que tinha lá eu matei, na base da facãozada, só pra desmoralizar.

      – E como foi?

      – Eu tava com o meu empregado Expedito, um negrinho esperto, entocado numa “espera”, quando escutei aquele urro danado. Aí, pensei comigo mesmo: “Será um leão?” Mas, depois me lembrei que naquela mata não tem leão, só tem onça. Naquilo que me passou a lembrança, eis que pulou na minha frente uma baita onça de quase 2 metros de altura! Gelei, mas me controlei. Acontece que, muito do enxerido, o negrinho Expedito tentou agarrá-la. Não deu tempo…!

       – Não deu tempo, por que, seu João? – indagou o sogro do neto.

       – Porque a infeliz da onça engoliu ele!

       Ao lado do pai, a garota Neidinha, 12 anos, irmã da noiva do Kleber, que atenta escutava a narrativa do velho, suspirou assustada. O velho prosseguiu:

        – Que Deus me perdoe, mas vou lhe dizer uma coisa: foi melhor a onça ter engolido o Expedito, sabe?

        – Por que?

        – Porque se ele tivesse ficado vivo, hoje seria um homem inutilizado…  A onça foi cruel. O primeiro bote que ela deu no infeliz do negrinho, foi justamente naquela parte proibida dele – nhac! E comeu tudo!

        Neidinha logo entendeu o que foi que a onça tinha comido. Estremeceu e indagou, com a cara mais inocente do mundo:

        – Mas, a onça… ela comeu… com o ossinho e tudo?