Ailton Villanova

15 de julho de 2015

OLHA O CHAPÉU!

     Sabe como é sertanejo. Não tira o chapéu por qualquer motivo. Até por tradição, e não somente para proteger a caixa pensante dos causticantes raios solares do Sertão, ele o mantém firme na cabeça. Mas o Coriolano Felisdório é o exagero personificado da regra e, desta, não se afasta um milímetro, porque não é um “caboco” normal. De manhã, de tarde ou de noite, não importa a hora, ele está sempre de chapéu enfiado na caixa pensante, até as orelhas!

     Além dessa mania, Coriolano é possuidor de outra extravagância: o da cantoria desenfreada, esteja aonde estiver. Abre a boca e chama na grande, achando que está abafando. Para complicar ainda mais a vida dos infelizes que às vezes são forçados a escutá-lo, o cara comprou um violão de segunda mão, na feira livre de Dois Riachos.  

     De violão na mão, Coriolano Felisdório se achou no direito de maltratar ainda mais os ouvidos alheios. Onde chegava, principalmente nos barzinhos localizados nas margens das rodovias do Sertão, dava uma paradinha, ajeitava o chapéu na cachola, abria o bocão e mandava ver uma cavernosa. Certa vez, ele teve de ser recolhido à carceragem da delegacia regional de polícia de Santana do Ipanema, para responder perante a autoridade respectiva, por “insulto, injúria e desacato”. Por nada não. Apenas porque, sem autorização de ninguém, ele achou de expelir, no recinto de um bar e restaurante muito importante da região, incontáveis notas musicais, cada uma mais grotesca que a outra. Sentindo-se ofendidos, afrontados e desacatados, os clientes se reuniram e apresentam queixa coletiva na repartição policial. Mas Coriolano não ficou muito tempo detido, porque ninguém, na carceragem do órgão policial, conseguiu resistir à sua cantoria. O delegado teve de liberá-lo em “caráter extraordinário”, “para o bem dos demais presos”. 

     Acontece que, na semana seguinte, ele voltou à prisão. Dessa vez porque perturbou o santo sacrifício da missa, na paróquia presidida pelo padre Abdias Ferreira, bastante conhecido pela sua intolerância à matulagem.

     Igreja lotada de fiéis, todos na maior contrição, eis que adentra ao templo o Coriolano com seu tradicional chapelão “atolado” na cabeça. Aquele era, justo, o momento da consagração da hóstia. Naquilo que padre Abdias reparou na falta de respeito do cara, fez um sinal pra ele e o advertiu, no sentido de retirar o chapéu da cabeça:

      – Ei, psiu! Olha o chapéu!

      Coriolano entendeu o gesto do reverendo como um apelo ao seu espírito de intérprete musical. Aí, não contou conversa: correu até a nave central da igreja, apossou-se do microfone do padre, aprumou o violão no peito, dedilhou as suas cordas – pléin… pléin… pléin… – e lascou lá:

        – Caros irmãos… é com muita honra e satisfação que apresento à vocês a belíssima composição do saudoso Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, intitulada… “Meu Chapéu de Couro”…

        Infelizmente, Coriolano não pôde cumprir com o prometido, porque foi expulso da igreja à tapas e ponta pés, pelo celebrante e pela esmagadora maioria dos fiéis. Dessa vez, acusado de “subversão” e “desacato a crença religiosa católica e seus dogmas”, respondeu a  processo, tendo sido condenado a cumprir pena de prisão na finada e mal-assombrada penitenciária estadual “São Leonardo”, em Maceió.

 

A VINGANÇA DOS ‘NEGÕES’    

     Amigas inseparáveis, as branquérrimas Mariolita e Sandileuza são chegadas a uma esnobaçãozinha. Todos os anos, pegam a graninha do 13º e se mandam mundo afora. No último ano, decidiram curtir as férias na Jamaica. Chegaram lá pisando na ponta dos pés, cheias de boçalidade, se instalaram num hotel e deram uma saidinha para rápida para irem até a farmácia e deixaram toda a bagagem no quarto, inclusive a máquina fotográfica.

     Ao voltarem, Mariolita e Sandileuza encontraram tudo revirado. Muito assustadas, elas começaram a verificar os seus pertences e constataram, surpresas, que nada foi furtado. Até a máquina fotográfica estava lá, só que com o filme no final. Quem invadiu o quarto delas haviam tirado fotos.

      Considerando o fato como alguma brincadeira de mau gosto, elas decidiram deixar barato. Compraram novos filmes para a máquina e prosseguiram com a sua “tour” jamaicana sem maiores incidentes.

       Ao voltarem para o Brasil, mais precisamente para Maceió, elas mandaram revelar as fotos. No filme do dia da invasão havia uma série de fotos com dois negrões no banheiro delas, morrendo de dar risadas, enfiando as escovas de dentes das alagoanas no cu…

 

NORDESTINOS DEMAIS!

      Num vagão restaurante de trem viajam: um gaúcho, um mineiro, um carioca, um paulista e um nordestino.

      A certa altura da viagem, é servido um enorme filé para o gaúcho. Ele tira uma lasquinha, coloca na boca e enquanto mastiga joga o resto da carne pela janela do trem. E diz:

      – Bah! No Sul tem carne que não acaba mais! Tô enjoado, tchê! Tem muita!

      Para o mineiro é servida uma peça inteira de queijo fresco. Ele corta um pedacinho, experimenta e atira o queijo quase inteiro pela janela.

      – Em Minas tem queijo demais da conta, sô! É bão mas enjoa, uai! Tem muito!

      Aí, fazem uma presença pro carioca de um gigantesco baseado. Ele dá um tapinha na bomba e depois a joga pela janela.

      – Aí, me’irmão! Tô ligadaço de tanto puxá liamba, morô? Tem erva dimais no Rio de Janeiro. Tem muita!

      Instantes de silêncio…

      De repente, o paulista pega o nordestino e o atira pela janela do trem! 

 

 

IDA SEM VINDA

      Belarmino resolveu visitar o compadre Agapito. Montou no cavalo e foi à casa dele. Bateu na porta, a comadre veio atender e ele perguntou:

      – Bá tarde, cumáde. Cumpáde Agapito tá?

      – Tá não. Ele foi no cimitéro…

      – E ele vai demorá?

      – Acho qui vai… Ele foi dentro do caxão!