14 de julho de 2015

Morte súbita.

Morte Súbita no Exercício e no Esporte

DIRETRIZ DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE MEDICINA DO ESPORTE

 

A morte súbita relacionada ao exercício e ao esporte

(MSEE) pode ser definida como a morte que ocorre de modo

inesperado, instantaneamente ou não. Uma outra definição

utilizada seria a da morte que ocorre de 6 a 24 horas

após prática de uma atividade físico-desportiva. A MSEE

tende a gerar grande repercussão nas diversas formas de

mídia, especialmente quando ocorre em atletas profissionais

que são considerados verdadeiros modelos de saúde.

Apesar disso, felizmente, a MSEE é um evento raro e essa

informação deve ser levada em consideração dentro do contexto

dessa diretriz, para analisar as informações de risco

relativo baixo ou alto.

Abaixo dos 35 anos de idade, as causas mais frequentes

são as cardiopatias congênitas, sendo a cardiomiopatia hipertrófica

a mais prevalente. Acima dos 35 anos, a doença

arterial coronariana (DAC) é a causa mais comum. Wever

estima que cerca de 90% das vítimas de MS possuam cardiopatia

conhecida ou não diagnosticada. Assim, na maioria

dos casos, a MSEE ocorre por causas que podem ser

detectáveis através de um exame clínico e de exames complementares e, consequentemente, muitas vezes a MSEE

é um evento que pode ser evitado.

 A estratégia fundamental para sua prevenção é a realização de uma avaliação médica pré-participação específica para indivíduos envolvidos na prática sistemática de exercícios e, sempre que possível,uma boa infraestrutura do ponto de vista médico nos

locais de treinamento e competição para um pronto-atendimento

em situações emergenciais, incluindo a parada cardiorrespiratória.

Esses são os principais escopos dessa Diretriz

da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte sobre

Morte Súbita no Exercício e no Esporte.

 

A real incidência da MSEE é desconhecida. Estudos encontraram

valores muito diferentes, variando conforme a

idade, o sexo e o tipo de esporte praticado pelo atleta. Em

artigo de Perez et al. a MS é estimada em jovens abaixo

de 30-35 anos em 1/133.000 homens/ano e 1/769.000 mulheres/

ano, sendo que uma de cada 10 mortes está relacionada com o esporte.

Recente estudo realizado na região de

Veneto (Itália) mostrou uma incidência de 2,3 MS por

100.000 atletas por ano provocada por todas as causas e

2,1 MS por 100.000 atletas por ano por doença cardiovascular.

De acordo com inúmeros estudos, pode-se considerar

que para indivíduos saudáveis que se exercitam, seja em

nível competitivo ou não e independente da intensidade, o

risco de MSEE é muito baixo quando analisado do ponto de

vista estatístico. Situações ambientais extremas, distúrbios

hidroeletrolíticos graves ou uso de determinados ergo gênicos

podem, hipoteticamente, acrescentar algum risco,

embora não existam dados precisos a esse respeito. Em

adendo, indivíduos que praticam exercício regularmente

apresentam um menor risco de MSEE do que indivíduos

sedentários, visto que o exercício regular promove uma

estimulação parassimpática promovendo uma estabilidade

elétrica, ao contrário do exercício vigoroso ocasional que

estimula o sistema nervoso parassimpático e promove uma

instabilidade elétrica predispondo a arritmias cardíacas graves

e/ou ruptura de uma placa aterosclerótica vulnerável.

As principais causas de MSEE:

Abaixo de 30 anos;

Cardiomiopatias Hipertróficas; displasia arritmogênica do VD.

Origem anômala de artérias coronárias;miocardites; doenças valvares congênitas ou adquiridas.

Doença de Chagas; doenças do sistema de condução.

Drogas (por exemplo: cocaína, anfetaminas, esteroides anabolizantes); distúrbios eletrolíticos; concussão cardíaca;doenças da aorta e síndrome de Marfan.

 

Acima de 30 anos doença arterial coronariana.

 

ASPECTOS PREVENTIVOS DA MSEE.

 Avaliação clínica pré-participação (APP) é recomendável para

todos os indivíduos que praticam exercícios físicos – de

caráter competitivo ou não e tem como um de seus principais

objetivos afastar condições que possam ter no exercício

físico um gatilho para o desencadeamento de eventos

graves, como a ocorrência de morte súbita.

Um dos pontos fundamentais na aplicação da APP é a

relação custo x benefício desta intervenção. Diversos estudos

que analisaram os resultados de uma APP com exames

complementares incluídos mostraram custos elevados

para a detecção de casos de risco potencial de MSEE.

Por outro lado, quando analisamos o esporte profissional,

no qual muitas vezes a detecção tardia de uma situação de

risco ou até mesmo a ocorrência de MSEE trazem consideráveis

prejuízos para quem custeia a formação e manutenção

de atletas, os custos de uma APP com métodos complementares,

se tornam plenamente justificados, tanto do

ponto de vista de garantir a integridade do atleta, quanto

de preservar o investimento realizado. Devemos levar, ainda,

em consideração a sensibilidade e especificidade desses

exames, além dos aspectos ético-legais implicados.

 

Exames laboratoriais:

Eletroforese de hemoglobina/ teste de falciformação.

VDRL. Sorologia para Chagas. Eletrocardiograma de repouso.

Teste ergométrico. Teste cardiopulmonar de exercício.

Eco cardiograma.

 

SUMÁRIO DE PONTOS CHAVE

A morte súbita no exercício e no esporte (MSEE), apesar

de ser um evento que traz grande repercussão e comoção,

especialmente quando ocorre em atletas competitivos, é

um evento raro e não existem dados que indiquem que sua

frequência esteja aumentando.

– Abaixo dos 35 anos as cardiopatias congênitas estão

mais frequentemente relacionadas à causa de MSEE.

– A doença arterial coronariana é a causa mais frequente

de MSEE acima de 35 anos.

– A avaliação pré-participação (APP) sistemática e periódica

é a estratégia mais eficiente para se prevenir a MSEE

e, em seu nível mais básico (anamnese e exame físico),

deve ser realizada, por médico com experiência na área,

em todos os indivíduos que praticam exercício e esportes.

– Essa avaliação é justificável do ponto de vista ético,

médico e legal.

– A realização de exames complementares depende das

características do indivíduo avaliado (idade, nível de envolvimento

na prática do exercício).

– No esporte competitivo é altamente recomendável que

o teste ergométrico seja realizado por todos os indivíduos.

– O profissional médico mais habilitado para realizar uma

adequada APP é o especialista em Medicina do Esporte.

– Instituições que oferecem prática de exercícios e esportes