Olívia Cerqueira

7 de julho de 2015

Minhas memórias

Olívia de Cássia – jornalista

 

Gostava de anotar tudo o que se passava comigo, desde os primeiros anos da adolescência. Eram os meus caderninhos que eu chamava de diário, mas que um dia queimei tudo no quintal da nossa casa da Tavares Bastos, porque descobri que minha mãe tinha lido sobre todas as minhas intimidades.

O hábito de escrever sobre as minhas atividades diárias, em alguma etapa da minha vida foi minguando e ficou restrito apenas àqueles momentos de infortúnio e fui abandonando-o aos poucos, à medida que as coisas iam se acomodando na vida, só lembrando de fazê-lo quando ficava em situação de conflito interior, de solidão ou angústia e não encontrava com quem desabafar.

Tenho consciência de que às vezes carrego um pouco nas tintas e chego a acreditar que estou à beira do desespero e do abismo, angustiada e sozinha, talvez para escapar da tal angústia interior que os analistas poderiam explicar melhor do que eu.

Mas eu também abandonei a terapia, por falta de condições financeiras e só fui fazê-la porque estava um pouco perdida, aconselhada por uma amiga, quando o meu companheiro saiu de casa pela segunda vez. Busquei várias saídas, me dediquei de corpo e alma ao trabalho, para que a tristeza não me dominasse de vez.

Acabei me isolando da família e dos vizinhos e perdi a vontade de ficar falando sobre os meus problemas para várias pessoas, já que tinha chegado à conclusão de que a resposta para todos os meus questionamentos e indecisões estava dentro de mim mesma. Dei-me por vencida e resolvi escrever o livro.

Já não tenho a memória aguçada de antes e por isso recorri a alguns amigos e familiares, para que eu pudesse descrever acontecimentos daquela época, com mais clareza, muito embora ainda tenha fixado na mente muitos fatos da infância distante.

Na “Crônica da infância perdida”, artigo publicado no pequeno jornal O Relâmpago, de União dos Palmares, editado pela amiga Genisete de Lucena Sarmento, escrevi que ser adolescente nas décadas de 60 e 70 em União era conviver com a febre dos modismos, era não se importar com o que acontecia no País.

Foi assim durante a nossa adolescência, onde vivíamos preocupados com os amigos e com tudo aquilo que podíamos fazer em se tratando de diversão e “arte”. Para nós era “proibido proibir”, e se nos proibissem de fazer algo, aí sim, nos empenhávamos em desobedecer. Éramos os filhos da ditadura militar e não tínhamos consciência de como a nossa alienação agradava àqueles que estavam no poder.

Na escola, não nos informavam sobre o que estava ocorrendo no País e vivemos um período de total desinformação. O Brasil atravessava um dos seus piores momentos em termos de falta de liberdade, mas a juventude da nossa geração se rebelava pregando a paz, o amor e a liberdade acima de tudo.

A liberdade que pregávamos era aquela do tudo poder fazer sem a intervenção dos nossos pais, que de certa forma preocupavam-se em não nos ver metidos com os “comedores de criancinhas”, ideia transmitida pelo regime militar para definir as pessoas ligadas a movimentos políticos, os comunistas e libertários, homens e mulheres que sacrificaram suas próprias vidas para ver o País livre da falta de liberdade de manifestação.

Assim nos foi transmitida a ideia do que era ser comunista. Evidente que não acreditávamos em tão fantasiosa história; além do mais, como tínhamos a contestação na cabeça, nós não ligávamos muito para tais preocupações, mesmo sem ter a clareza do que fossem tais ideais. Mas essa não era a nossa questão, pelo menos não a da maioria da juventude interiorana, da geração nascida em 60, da pequena cidade de União dos Palmares, terra de Zumbi, herói da liberdade.

A chegada da adolescência me trouxe muitas incertezas e questionamentos; além do mais, as divergências e os conflitos de gerações se acentuavam a cada dia e a partir dos meus 14 anos eu não admitia e não gostava que alguém me dissesse o que devia fazer.  Como toda adolescente rebelde eu achava que era a dona da verdade. 

Eu tinha sonhos de transformar o mundo com meus ideais, enfrentei ou pelo menos tentei enfrentar todas as barreiras que foram surgindo e elas não foram poucas. Achávamos que a nossa juventude e o nosso amor pela liberdade e pelos amigos seriam capazes de derrubar os preconceitos da época.

Havia de nossa parte uma necessidade de afirmação, uma busca constante do novo, do inusitado, do desconhecido. Percorremos caminhos diversos e antagônicos e cada um foi pro seu lado. Os sonhos, as vontades, os amores, tudo nos era proibido. Quantas privações alguns tiveram que passar para encontrar os seus caminhos, as suas direções!

Em União dos Palmares vivi os mais importantes dias da minha vida. Ali nasci, me criei, estudei até o antigo ginásio, fiz amizades, conquistei muito espaço, cultivei meus sonhos, meus amigos, vivi meus amores de juventude e, à época, as vivências mais profundas.

Na nossa ânsia de saborear cada minuto da vida, o mundo lá fora não nos incomodava, a não ser quando sonhávamos com lugares exóticos e distantes, onde pudéssemos desfrutar da liberdade que queríamos alcançar a qualquer preço.

Os finais de semana na cidade, na década de 70, eram ‘ricos’ em opções para nós. Aos sábados e domingos todos os jovens e adultos tinham como referência as seções do saudoso Cine Imperatriz, transformado hoje em supermercado, onde íamos arriscar uma paquera.

A maioria das adolescentes da turma paquerava o mesmo garoto e cada uma reservava uma cadeira do cinema do seu Armando Assunção, à espera de ser a escolhida pelo tal rapaz, que era paquerado por todas nós, mocinhas da época.

Aos sábados, nosso lazer da tarde, isso nos anos 70, era assistir ao programa do saudoso Luiz Tojal, “Sábado Maior”, transmitido pela recém-criada TV Gazeta, na casa de Eliane Godoy, hoje Aquino. Lá, em casa de Eliane, formávamos um grupo de amigos queridos e quando terminava o programa nos juntávamos nas escadarias do Grupo Escolar Rocha Cavalcante, para conversar sobre amenidades e ouvir as nossas músicas preferidas ou fazer outra brincadeira qualquer, própria da idade.

Eliane, já àquela época, tinha na veia a verve da escrita e escrevia histórias de amor com cada uma de nós, nos colocando como personagem principal dos romances, sempre realizando as nossas doces fantasias. Um circo, tipo lona furada, foi durante um período a atração de União dos Palmares. Ficava armado no pátio da Estação Ferroviária, hoje quadra municipal e sede da Prefeitura do município.

O circo tinha duas atrações principais: o palhaço Facilita e o galã Iran, que despertava frisson nas adolescentes. E lá ia Eliane escrevinhar contos de amor, onde o príncipe encantado era o Iran ou era o Facilita. Tive o prazer de conviver em União dos Palmares com várias gerações e delas tirei ensinamentos.

Em cada época surgia uma turma que se destacava mais na sociedade palmarina: fosse pela rebeldia, pela falta do que fazer, ou por outro motivo qualquer. Fui participante de quase todas elas da minha faixa etária.

No colégio Santa Maria Madalena, as meninas driblavam a diretora de disciplina, Isaura Oliveira, a Isaurinha (de vez em quando eram pegas fumando ou gazeando aulas); os meninos também aprontavam das suas. Costumavam ficar perto do tanque que abastecia o colégio, para ver as calcinhas das meninas, quando passavam por perto, pois nossas saias eram muito curtinhas.

Os bailes da Palmarina (o clube da cidade) encantavam a todos nós e atraíam pessoas da redondeza, jovens e adultos de outros municípios, de Maceió e Recife. Era a oportunidade de fazermos novos amigos, ampliarmos nossos gostos musicais, enfim, de conviver em sociedade.

Mas o ponto culminante, no entanto, sempre foi a festa da padroeira, Santa Maria Madalena, em que nas nove noites se davam os encontros festivos e animados. Tempo de rever os amigos que ficavam ausentes durante todo o ano, de falar do passado, de falar da vida, falar de nós. Como disse o colega Iremar Marinho, em artigo publicado no jornal O Relâmpago, é doce lembrar União, num tempo em que não havia tanta violência, não havia tanta maldade e os relacionamentos eram puros e fraternos.