Ailton Villanova

7 de julho de 2015

A CASA DO AZULINO TEIMOSO

     Este ano, o inverno chegou botando pra quebrar. E pra desabar, também. Que o diga o diarista Ederlindo Calixtrato, morador na antiga Borracheira, inserida no nem sempre alegre Alto do Céu, em que pese seus moradores vaidosamente  cognominá-la de “aprazível”. Foi motivado por isso, que o Ederlindo escolheu instalar-se residencialmente naquele local. E, por mais ainda: de lá de cima, teria o privilégio – nem sempre cabível ao mais abonado dos maceioenses -, avistar, em toda a sua plenitude, o Estádio Gustavo Paiva, do seu adorado Centro Sportivo Alagoano, o CSA.

     Para obter essa grande honra, Ederlindo sacrificou um casamento de 20 anos e quase a própria vida. Quase. É que, quando optou por morar na Borracheira, ele escolheu desta, a parte mais alta, na beirinha da barreira onde se situa a comunidade (antiga favela) “Delmiro Gouveia”, que declina para o bairro do Mutange. Dona Maribalda, a esposa, protestou:

      – Tu malucou, homem! Morar aqui, nesse precipício???!!!

      – Qualé o precipício, mulher? Isso aqui é nobreza! Daqui do alto, eu enxergo até Marechal Deodoro. E, ainda, tenho a vantagem de ver o meu CSA jogar debaixo dos meus pés! Bem dizer, no jardim da minha casa…!

      – Jardim?Que jardim?

      – No jardim que eu vou fazer!

      – Aqui, eu não moro de jeito nenhum! Num sou doida…!

      – Pois é aqui que eu vou morar, na maior bacanagem!

      – Nesse caso, me dê o divórcio!

      – Só se for agora!

      Oficializada a separação do casal, Ederlindo meteu mãos à obra na construção da casa. Ele mesmo foi o mestre, o pedreiro, o auxiliar, o carpinteiro… Foi tudo. Quando o vento soprava forte, a casa balançava. Os amigos e vizinhos das redondezas, não cansaram de advertir:

       – Seu Dedé, tenha cuidado com a próxima ventania!

      – Seu Dedé, por que o senhor não procura outro lugar mais seguro pra morar?

      – Seu Dedé, o senhor já pensou no próximo inverno?

      Apesar de toda construída em alvenaria, casa do Ederlindo não oferecia a menor confiança, porque, entre outros perigos, por exemplo, fora erguida a um palmo da borda da barreira.     

       Na véspera de São João, a chuva caiu pra valer, conforme  já disse. Chegou um vizinho e advertiu: “Cuidado aí, meu irmão!” Outro, acrescentou: “Olha, a minha casa estará à sua disposição, caso aconteça algum desastre com a sua, neste inverno!” E mais outro: “Essa barreira vai desabar, rapaz! Sai daí, pelamordedeus!”

        A resposta dele era uma só:

        – Se preocupem não, meus camaradas. Esta casa forte demais! Foi toda construída com tijolo e cimento de primeira qualidade. Nem precisou de alicerce!

        Dia de São João, fogueiras ardendo, a negrada na rua festejando a data com muitos traques, chuvinhas de pólvora, bombas de chio e rojões, cachaça e cerveja dando no meio da canela.

        De repente, um trovão violentíssimo ribombou nos ares – prrráááá…beeeeiiii…cabruuuuummm -, dando a impressão que o mundo estava se acabando. Em seguida, um raio traçou um desenho prateado no céu, assustando ainda mais as pessoas. Em meio ao alvoroço, ouviu-se um grito aterrador:

         – Socooooorrrrro! Me acudam! Minha casa está caiiiinnnndooo…

         Dia seguinte, quando tudo voltou a normalidade, populares encontraram na ribanceira, o que havia restado da residência do Ederlindo. Mais adiante, cerca de 500 metros, o teimoso morador todo estropiado, esparramado lá embaixo no asfalto, com um pedido na ponta da língua:

         – Se eu morrer, me enterrem no campo do meu CSA!

 

CONTA DE LOUCO

     Depois que o governo petista obrou a ideia luminosa de forçar o fechamento dos hospitais psiquiátricos brasileiros, no Recife começaram a pôr em prática um novo modelo de dispensa do tratamento específico à pacientes com distúrbios mentais. Constrangido e obrigado pelas circunstâncias, o primeiro médico a meter mãos à obra no processo de seleção daqueles que poderiam receber alta, foi o doutor Eraldo Maciel. Ele chamou o primeiro ao seu consultório:

     – Quando é dois mais dois, Altamiro?

     – Setenta e dois! – respondeu o paciente.

     O doutor balançou a cabeça em sinal de negativo e chamou o segundo da fila:

      – Quanto é dois mais dois?

      – Terça-feira! – rebateu o segundo interno.

      Desanimado, doutor Maciel virou-se para o terceiro:

      – Abinadá, sabe quanto é dois mais dois?

      – Quatro, doutor! – respondeu o louco com firmeza.

      – Parabéns, Abinadá! Você acertou! Mas, me diga: como foi que você chegou a essa conclusão?

      E ele:

      – Simples! Eu me baseei nas respostas dos meus colegas: 27 menos terça-feira, dá 4!

 

VELHINHO PREVENIDO

     Velhinho muito do safado, professor Pompeu Advíncula voltou ao doutor José Dias, para o seu checape anual.

      – E aí, meu mestre predileto, como vai a sua vida sexual? – foi logo perguntando o esculápio, que conhece de sobra as sacanagens que o macróbio sempre apronta.

      – Para lhe ser franco, meu filho, não vai nada mal. A mulher já não anda mais tão interessada… Eu acho até bom, sabe? Semana passada, saí com três lindas gatinhas, a mais velha com 29 anos!

      E doutor Zé Dias:

      – Cuidado, professor! Na sua idade esses exageros são perigosos. Espero que ao menos o senhor tenha tomado suas precauções.

      – Escute aqui, doutor: posso estar velho, mas não estou senil… É claro que dei a todas elas um nome falso!

 

 

OS POMBINHOS

     Fim de tarde, o casal de velhinhos passa perto de dois jovens que se beijam, no banco da praça.

     – Olha lá, Sindulfo – aponta a velhinha, romântica. – Não parecem dois pombinhos?

     – Parecem não, Eudóxia… – retruca o marido, menos míope. – São um pombinho e um pombinho!