Ailton Villanova

2 de julho de 2015

ERA UMA VEZ UMA BUNDA

    Resolveram denominar de caráter, a marca distintiva de alguém, ou melhor, da personalidade de alguém, esclarecendo melhor. Esse conjunto de elementos psíquicos e comportamentais que constituem a singularidade de um sujeito, pode ter como exemplo o Davi Capistrano Pereira. O cara faz questão de ser chato e boçal. Isso, desde criança. Ainda hoje, aos 75 anos de idade, só quer ser o que a folhinha não marca. Pelo que me contaram, ele se casou 11 vezes e nenhuma das 11 esposas conseguiu suportar a sua amolante e bizarra pessoa.

     Davi Pereira nasceu no antigo distrito do Alto da Conceição, bairro do Farol, e se criou enchendo o saco das daqueles com os quais conviveu. Nas tardes dos sábados e domingos, quando ocorria um bate-bola mais incrementado no campo da Vila Operária, ele só queria ser o centro avante, embora fosse péssimo com a pelota nos pés. Davi matava o povo de raiva com a sua ignorância e estupidez. Nas festas natalinas, carnavalescas e juninas estava sempre querendo aparecer diante dos demais, principalmente das garotas.

       Certa ocasião, noite comemorativa de São João, o pároco da igreja do Bom Parto, frei Egídio de Sarocchi, mandou armar no terreno ao lado da Escola São José, no Bom Parto, uma bela fogueira, com lenha de primeira qualidade, fornecida pela Fábrica Alexandria. Em torno dela, duas ou três fogueirinhas destinadas àqueles que quisessem assar a sua espiga de milho, dádiva, também, da Alexandria.

          Então, estava a garotada, muito animada, submetendo à ação do fogo o seu milho, quando, de repente, surgiu o Davi, abraçando um monte de espigas. Encarou a todos e indagou, de peito estufado:

          – Já terminaram de assar a porcaria do milho de vocês?

          O garoto chamado Abelardo de Lima, antecipou-se aos demais e respondeu:

          – Você não está vendo que ainda não terminamos…? Olhe aí, outras fogueiras…

          – Mas eu quero é essa! E vamos deixar de conversa mole, senão…

          – “Senão” o quê?

          – Senão eu jogo você dentro da fogueira, com espiga de milho e tudo!

          O Davi não devia ter dito o que disse. Mal acabou de fechar a boca, recebeu um tabefe no pé do ouvido – plaf! – e caiu sentado dentro da fogueira.

           Aos berros, com a bunda tão queimada quanto uma peça de churrasco de boi, foi levado às pressas ao HPS. Para ter um traseiro mais ou menos “sentável”, o infeliz teve de se submeter a mais 60 cirurgias e enxertos. Mas a bunda permanece irrecuperável.

 

 CEGO IRRESPONSÁVEL

     Preso em flagrante, o Manuel de Jesus França foi levada à presença do delegado Rubens Camêlo Almeida, titular da especializada em acidentes de veículos da capital. O agente que o conduziu à presença da autoridade policial, não conseguiu se controlar:

     – Esse cara é um criminoso, doutor! O senhor precisava ver o estrago que ele fez, dirigindo o automóvel alheio…

     E Rubens Camêlo, tranquilão, como sempre:

     – Me conte, direitinho, o que foi que o distinto aí andou aprontando.

     – Negócio terrível, doutor! Este filho da mãe, pegou o atomóvel de uma senhorita muito distinta, por sinal, e saiu pela rua afora fazendo barbaridades. Primeiramente, derrubou um poste e lá se foi quase uma banda do veículo da moça. Em seguida, deu uma balroada num carrinho de pipoca que o jogou longe, com pipoqueiro e tudo. Mais adiante, subiu na calçada, atropelou um cachorro e esmagou o gatinho de estimação de uma velhinha…

     – Danou-se!

     – E tem mais, doutor!

     – Tem?

     – Tem. Quando não tinha mais em quem bater, esse safado pegou o que restava do carrinho e colidiu contra o muro de uma escola infantil. Não ficou um tijolo inteiro! Teve uma professora que sofreu um infarto…

     – Ela morreu?

     – Ainda não. Mas dizem que ela está mais pra lá do que pra cá, coitadinha…

      – Terminou?

      – Terminei.

      O delegado respirou fundo e se virou para o acusado, que se mantinha no seu lugar, mais firme do que um poste. No pau da venta, tinha escanchado um óculos de lentes escuras.

       Rubens Camêlo, então, deu início à oitiva propriamente dita:

       – Você andou bebendo,rapaz?

       – Não senhor, doutor. Bebo, não!

       – Tem carteira de habilitação?

       – Tenho não, senhor.

       – E mesmo assim dirigia por aí, feito doido…

       – Eu tava fazendo um favor à moça, que me pediu pra guiar o carro dela…

       – E cadê essa moça?

       – Deve estar aí fora, batendo papo com os policiais.

       – E por que essa maluca lhe pediu para dirigir o carro dela?

       – Bem… eu ia passando pela porta do bar do seu Afrânio quando ela me chamou e me fez o pedido, dizendo que estava sem condições de dirigir, porque estava bêbada demais!

       – E aí, você pegou o carro da infeliz e saiu atropelando o povo… O carro estava sem freios?     

        – Tava não, senhor.

        – Então me explique: o que peste deu em você pra querer acabar com o mundo inteiro, ao volante de um automóvel?

        – O problema, doutor, é que eu não enxergo nadinha. Sou cego de nascença!