Ailton Villanova

1 de julho de 2015

EXAGEROU NA FOGUEIRA!

     As pessoas que conhecem mais de perto o Antípodas Aureliano apostam que ele já nasceu boçal, apesar de ter uma família ajustada constituída de gente normal. De princípio, ele nunca se conformou com a sua origem humilde, singela.

      Antípodas, nasceu numa das tantas favelas que tiveram origem no bairro proletário do Jacintinho. Seus pais, diaristas suburbanos, trabalharam muito para dar uma vida razoável aos seus rebentos – seis ao todo – sendo que o Antípodas surgiu por último. Por isso, teve um pouco mais de regalia. Todo caçula é privilegiado, no trato diário domiciliar.

      Aos 14 anos de idade foi que ele aprendeu a rascunhar o nome, por preguiça no aprendizado e também porque sempre foi destituído de inteligência. Mas sempre exigiu dos pais “tudo do bom e do melhor”, conforme lembrou sua tia materna Astrogilda Pîtanga. Por infelicidade sua, os velhos faleceram num lance só, em acidente rodoferroviário, nas imediações do mercado público da Levada. O ônibus que os transportava foi colhido por um trem da Rede Ferroviária, por exclusiva culpa do seu motorista, que tentou atravessar a linha férrea num momento impróprio. A composição da RFN impactou com o ônibus justo na parte onde se achava o casal Agapito/Ernestina, pais do Antípodas.

       A partir do falecimento dos seus genitores foi que Antípodas ficou mais estúpido do que já era. Distanciou-se dos cinco irmãos e foi viver só, no pedaço mais encardido da Brejal, que começava a surgir no antigo lixão do bairro da Levada. As habitações do local eram todas improvisadas, conforme é predominante em toda favela. Mas a casa que ele construiu para residir, em meio a barracos de papelão, de zinco ou de madeira, foi toda ela em alvenaria. A ninguém Antípodas contou, ou explicou, onde arrumou dinheiro par investir na construção. Mistério.

        Antípodas ocupou uma área maior a que tinha direito. Mas, a maneira arrogante conforme se exibia, inibiu qualquer reação contrária.

      A nova casa do boçal ficou pronta às vésperas do São João. Mais uma vez, ele quis se “amostrar”. Enquanto os modestíssimos vizinhos armaram suas fogueirinhas de gravetos, pedacinhos de madeira achados nas ruas e papelões, o estúpido do Antípodas mandou montar a sua com lenha que andou pedindo nas padarias das redondezas. O que se viu, depois da fogueira instalada, foi a maior exibição de aparato ostentatório.

       Obra pronta, Antípodas pôs-se de pé diante da fogueira, cuja altura superava a dimensão vertical de sua residência, e discursou, cheio de soberba, perante os atônitos vizinhos:

        – Estão vendo, seus imbecis? Isso é que é fogueira, e não essas porcarias que vocês armaram! Morram de inveja, pobres miseráveis!

        Lá pelas tantas, as fogueirinhas da ralé já haviam sido consumidas pelo fogo. Nem cinza delas estava mais. Aí, chegou a vez do exibicionista se “amostrar” ainda mais:

         – Agora, vejam o que é uma fogueira de verdade!

         Naquilo que Antípodas acendeu a fogueira e as labaredas ganharam dimensão, como quisessem lamber o céu, a estrutura da referida começou a se inclinar para o lado de sua casa. Aí, alguém gritou:

 

          – Eita! A fogueira vai cair em cima da casa do “bacano”!!!

          E a galera vibrando:

          – Vai cair! Vai cair! Obáááá…

          No desespero, Antípodas apelou para a humildade:

          – Socorro! Me acudam, minha gente!

          Nesse momento, um estrondo marcou a queda da madeira em chamas sobre a casa do Antípodas.

          Em menos de meia hora o fogo havia consumido tudo. Até a arrogância do cara.

 

VIZINHO APROVEITADOR

          A turma de sempre jogava um dominozinho esperto no Bar do Júlio quando, em dado momento, a televisão anunciou: 

      – Interrompemos a nossa programação da meia-noite para pedir que todos os bombeiros militares compareçam imediatamente ao quartel.

      Nesse momento, um tal de Amarildo jogou suas pedras de dominó na mesa e levantou-se para sair. Um colega de jogo então observou:

      – Pra onde tu vai, cara? Você não é bombeiro…

      – Eu não, mas o marido da minha vizinha, é!

 

 

 GRAVE AMEAÇA

      Lotadíssimo, o ônibus parou no ponto e aí subiu o gordão Aderbal Botelho que, num lance de sorte, encontrou um lugar vazio. Acabara de ser desocupado. Ainda estava quente. Aí, ele se sentou todo esparramado, banha pra todo lado, abriu um livro da Agatha Christie e começou a ler.

       Do seu lado, uma senhora chamada Jumelândia Batista incomodou-se:

       – Ô rapaz, dá pra chegar mais pra lá? Você está me espremendo!

       O gordão nem aí. A madame insistiu:

        – Por que você não senta como todo mundo, hein?

        – E se eu não quiser?

        – Aí, eu conto o fim desse livro de mistério que você está lendo!

 

 

QUAIS AS PALAVRAS?

         Conservadora ao extremo, madre Lumária, a superiora, orientava a recém  admitida noviça:

          – Olha, Crismélia, existem duas palavras que eu não quero que você pronuncie mais neste convento: uma delas é “escrota” e a outra é “nojenta”. Promete?

       – Prometo. Mas quais são as palavras?