Ailton Villanova

30 de junho de 2015

O PÊNALTI QUE NÃO VALEU!

     No Nordeste velho e sofredor, pontificaram duas figuras distintas, cujas peripécias são demais exaltadas, tanto em prosa quanto em versos, por esse Brasil afora. Estou me referindo ao “coronel” Heráclio Bezerra, dono de muitas terras e gado no interior de Pernambuco, e ao “major” Elizeu Pinto (mais conhecido como Zezêu) proprietário de latifúndio danado de grande. Talqualmente seu colega (e compadre, por sinal) do vizinho estado, plantava cana e criava bois e bodes. Ambos possuíam a fama de brabos, violentos. Por qualquer besteirinha mandavam passar a espingarda em quem que fosse.

       Deixando de lado o ilustre Heráclio e me fixando na pessoa do major Zezêu, eis que me ocorre a lembrança de um fato referido pelo meu avô Juca Tenório e que ainda hoje é lembrado no Agreste alagoano, como se fosse hoje, apesar de ocorrido há décadas, aí pelos idos de 1920. Meu bisavô Cândido Tenório Villanova (“coronel” Candinho), amigão de Zezêu, que era padrinho de minha avó Joventina, mãe de meu pai, foi quem evitou uma tragédia, que se somaria a outras tantas da lavra do sobredito Zezêu. O local: a fronteira Quebrangulo, em Alagoas, e Águas Belas, no Pernambuco terra dos Tenório-Villanova. Tudo por causa de uma partida de futebol.

     Analfabetão, mas apreciador de um furdunço, “major” Zezêu inventou de promover um jogo de futebol entre as agremiações Algaroba Esporte Clube, seu time do coração e o Clube Atlético Aguabelense, pelo qual coronel Heráclio Bezerra dispensava grande admiração. O prélio foi marcado para a tarde de um domingo de junho – dois dias antes do São João – tendo, antes, como abertura, às 10 horas da manhã, uma cachaçada aloprada, seguida de uma “rangagem” à base churrasco de bode e de boi. Isso tudo exclusivamente para os homens. Para as mulheres foi reservado um guisado de porco temperado com pimenta malagueta, com o acompanhamento de vinho de jurubeba. As crianças não ficaram para trás. Elas tiveram direito a sucos de maracujá e laranja, facilitadores da deglutição de asinhas de galinha com farofa e arroz.

     Por volta das 4 da tarde, os dois times entraram em campo, sob aplausos, apupos e xingamentos mútuos de toda ordem, das duas torcidas. Os atletas, todos eles, pra lá de biritados. O mais cachaçudo de todos era aquele que deveria oferecer o melhor exemplo de sobriedade e respeito: o juiz. Ele pisou no gramado carregado pelos dois bandeirinhas, que também estavam bêbados.

      Sentado numa cadeira de balanço, instalada na beira do campo de jogo, major Zezêu mamava num charuto que não tinha mais tamanho. Antes da bola rolar em campo, Zezêu chamou o juiz e disse:

      – Óia aqui, seu difapeste! O meu time num pode perde, viu bem?

      E o mediador, entre um soluço e outro:

      – Pode deixar, excelência. Quer que o seu time vença de 10×0? Se quiser, é só dizer, que eu marco dez pênaltis. Vossa excelência manda!

      Ao escutar isso, Zezêu animou-se:

      – Entonce, vá lá e maique o premêro pênix! Vá, num tô mandando?

      – Mas, excelência, eu ainda não comecei o jogo!

      – Dêche de cunvelsa, bote o apito na boca, comece o jogo e maique o pênix. Caminhe, hôme! Se vosmicê num máicá o dizinfiliz desse pênix, eu arranco sua cabeça na base do tiro de espingarda 12.

      Nesse momento a embriaguez do árbitro sumiu. Mais que depressinha, ele correu para o meio do campo, chamou as duas equipes, trilou o apito e, na hora em que o centro-avante do time visitante pegou na bola, o juiz apitou – prrriiiiiiiii… 

       E o atacante:

       – O que foi que houve, seu juiz? O senhor marcou o quê?!

       – Marquei pênalti!

       – Ôxi! Endoidou, foi? Eu nem sequer cheguei lá na área…!!!

       O juiz estufou o peito e bradou:

       – Marquei pênalti, tá marcado! Quem manda no jogo sou eu! E se você se meter a besta, eu lhe expulso de campo!

       Sob mil protestos e graves ameaças, a bola foi colocada na marca do pênalti. O jogador do time do major, um baixinho chamado Pirrita, marcou carreira e… plaft! Mandou o pé na pelota. O goleiro, conhecido por Ziu Mosquito defendeu a penalidade.

        Sob a alegação de que o goleiro havia se mexido antes da cobrança da sanção, o juiz mandou cobrar novo pênalti. Novamente, o goleiro defendeu.

        Aí, veio o terceiro pênalti. O goleiro tirou a pelota para fora. E vieram outros dez, que foram competentemente agarrados pelo goleiro Mosquito.

        Espumando feito cachorro doido, major Zezêu entrou em campo empunhando a sua inseparável espingarda 12, mandou que o juiz colocasse a bola no lugar da cobrança do pênalti, encarou o goleiro e bradou:

        – Condenado dos inferno! Eu nunca fui dirmoralizado pur hôme argum, e num é agora qui eu vô sê. Eu vô chutá essa bola, se vosmicê num dexá ela intrá no gô, eu arranco as suas tripa na base do tiro!

        Nesse momento, no meio do silêncio tumular que se abateu o ambiente, uma voz cavernosa se fez ouvir:

        – Meu cumpáde! Esse quíque num vai sê batido, não! E se matar o goleiro do meu time, quem vai ficar sem as tripas é você, corno safado!

        A voz era do coronel Heráclio, que, de última hora, resolvera prestigiar o evento futebolístico promovido por Zezêu, que lançou o desafio:

        – Pois me mate bem matado, seu covardo! Porque, sinão, quem vai morrer é vosmicê!

        O alvoroço foi grande no estádio. O povo correndo que nem barata tonta, temendo levar bala, e os dois valentões se encarando, de armas em punho, no meio do campo.

         Surpreendente e inesperadamente, uma terceira figura entrou na parada, chamada que fora pelo delegado da cidade, para acalmar a situação: o coronel Candinho Villanova.

          – Êpa! Vamos acabar com essa arenga, dois cabras velhos safados. O jogo acabou em 0x0, de ordem de minha. Agora, quero ver quem é macho para mandar ele prosseguir!

          Ainda hoje eu procuro saber porque coronel Candinho era tão respeitado.