Ailton Villanova

27 de junho de 2015

O GOLEIRO-GALÃ ATRAPALHADO

 

     Desde a tenra idade o Itamar Tamarindo era vaidoso, coisa que sua genitora, dona Maria Balbina deplorava, apesar de amá-lo cegamente. E disso não fazia segredo.

     – Eu só queria saber, meu Deus do Céu, a quem esse menino puxou! Nunca vi uma criatura tão presunçosa! – desabafou, certa feita, dona Balbina, no confessionário do padre Olegário Barroso.

     E o reverendo, amável e indulgente:

     – Coisa de criança, dona Balbina. Ele vai mudar, a senhora vai ver!

     O que a cuidadosa e aflita mãe viu mesmo, foi o adorado rebento crescer terrivelmente imoderado até nos seus menores atos. Tudo para o Itamar tinha que ser do bom e do melhor.

      Os anos se passaram, Itamar virou adulto e foi convocado para servir no exército. Mal pisou no quartel, criou logo um caso com o sargento encarregado de encaminhar ao obrigatório exame de saúde, os candidatos ao serviço militar:

       – Tira a roupa, rapaz! – ordenou o graduado.

       – Tirar minha roupa, por quê? – reagiu o boçal.

       – E você quer se submeter ao exame médico vestido, é, seu palhaço?

       E ele, em tom desafiador:

       – Mas é claro!

       O bate-boca chamou a atenção do comandante de corporação, que foi lá ver o que estava se passando.

       – O que está havendo aqui? – indagou o oficial superior.

       O próprio Itamar respondeu:

       – Se meta aqui não, velhinho! O assunto é comigo e esse tenentezinho imbecil. Dê o fora!

     Seis meses depois de cumprir um xadrez no capricho, Itamar Tamarindo foi liberado pelo exército para cumprir “sentença adicional de castigo”: servir como motorista na Rádio Patrulha da Polícia Militar. Outro problema ele criou: não aceitou ser um simples PM.

      – Como soldado “raso” eu não fico! Só aceito ficar se for, no mínimo, como sargento! – esbravejou.

      Não ficou. Foi expulso da PM antes mesmo de vestir a farda.

      Mas Itamar alimentava um sonho: o de ser goleiro do seu time do coração, o CSA. De modo que se apresentou no Mutange e, na cara de pau, pediu para ser testado. O treinador, que ao mesmo tempo era presidente da agremiação, o boníssimo doutor Alfredo Ramiro Bastos, ficou encantado com a performance do sujeito. No primeiro compromisso oficial do time azulino, Itamar foi escalado como titular.

        Assim que o CSA entrou em campo, para dar combate ao seu mais tradicional adversário – o CRB -, o time azulino chamou a atenção de toda a plateia, por causa da vestimenta e da pessoa do goleiro estreante.

         Com o cabelo cheio de brilhantina e penteado à moda Elvis Presley, Itamar, de óculos escuros, vestia camisa de mangas compridas nas cores amarela, azul e branca; o calção era marrom e os meiões listrados em verde e rosa. Na cintura, ele tinha afixados, de um lado, um pente e do outro um espelhinho. Não falei que o Itamar era vaidoso ao extremo?       

         O jogo transcorria aguerrido (como gostam de dizer os cronistas esportivos), o placar marcava 0x0 até os 30 minutos do primeiro tempo, quando o árbitro Benedito Loureiro apitou um pênalti contra o CSA. O goleiro dirigiu-se ao mediador da partida e pediu:

         – Vossa Excelência permite que eu penteie o meu cabelo primeiro?

         E Loureiro:

         – Vai adiantar alguma coisa?

         – Vai, Excelência. Eu quero estar bonito e formoso quando agarrar o pênalti e o fotógrafo tirar o meu retrato. Já pensou eu sair no jornal com o meu cabelo todo assanhado?

         Acontece que não houve foto nenhuma, porque todas as vezes que o atleta regatiano Ariston se preparava para chutar a pelota, o vento assanhava o cabelo do Itamar. Aí, ele apelava:

       – Peraí, peraí! Deixa eu pentear o meu cabelo de novo!

       Até que o juiz invocou-se, expulsou o Itamar de campo e mandou Ariston bater o pênalti com a trave limpa, sem goleiro mesmo. O CSA perdeu de 1×0.  

 

 

ERAM BRASILEIROS!

 

     Professora Cecy Dília entrou na sala de aula com a carga toda:

     – Meninos! Hoje vamos conhecer a história de Adão e Eva, tá legal?

     E a garotada:

     – Tááá, professora!

     Cecy Dília, então, mandou ver. Falou sobre a maçã, falou sobre a serpente, falou sobre a expulsão do casal do Paraíso e patati, patatá. Quando terminou de explicar todo o barato do Pecado Original, a professora indagou da garotinha Rafaela, que sentava na primeira fila:

      – Que tipo de gente era Adão e Eva, querida Rafinha?

      A garotinha respondeu sem pestanejar:

      – Eles eram brasileiros, tia Cecy!

      – Brasileiros?! Por que, Rafinha?

      – Ora, tia, tá na cara! Eles não tinham roupas, não tinham comida, não tinham casa e ainda achavam que estavam no Paraíso… Só podiam ser brasileiros!

 

 

CASO DE POLÍCIA

     Aula de religião e professora Obdúlia Castroso concluía a explicação de um tema importantíssimo da História Sagrada, arguindo o pequeno Daniel, havido como o mais inteligente da turma:

     – Por que motivo Caim matou Abel, você sabe Daniel?

     E o menininho:

     – Não tenho a menor ideia, tia. Mas meu pai deve saber, com toda certeza!

     – Ah, o seu pai deve ser um estudioso da Bíblia, não é?

     – Não senhora. Ele é delegado de polícia! 

 

 

QUESTÃO DE BOM SENSO

 

     O pregador evangélico ministrava um bonito sermão, na Praça Deodoro.

     Estribando-se em capítulos e versículos da Bíblia Sagrada, o religioso dava a carga toda no discurso, cujo tema era o Matrimônio.

     Dizia ele:

     – … e como sempre costumo afirmar, caríssimos irmãos, se houvesse bom senso e melhor entendimento, muitos casamentos não seriam defeitos!

     Naquele momento, ia passando o pinguço Sandoval Messias, o Sandro, que parou a caminhada e deu uma marcha à ré. Aí, cuspiu de lado e replicou:

     – Você tá errado, meu! Se houvesse bom senso, não haveria casamento!

     Sandro deixou o local debaixo de estrepitosa salva de palmas.