Ailton Villanova

26 de junho de 2015

O FLAGRANTE DA FELICIDADE

     Até os 30 anos de idade o Estrevolino Barbosa foi um cara feliz. A partir daí, justo depois que conheceu a donzela Catarina (ela gostava de ser chamada de Caty, por pura frescura) sua vida emborcou. Explico: é que, apaixonadão pela sobredita garota, tratou imediatamente de pedi-la em casamento. Daí para conduzi-la ao altar, demorou algo em torno de um mês. Paixão demais!

     Ocorre que, sendo filha única e tendo como mãe a viúva Tabernácula Pinto, nenhuma outra alternativa restou à Caty senão a de levar consigo a genitora para o novo lar. Aí, começou o calvário do Barbosa, que sempre foi um sujeito do bem, cumpridor dos seus deveres e obrigações, entre esses os de assistir missa todos os domingos na paróquia de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, bairro de Ponta Grossa. É que Tabernácula era uma verdadeira cobra jararaca.

      Dona Naná (ela era mais conhecida por esse apelido) levava a vida espichada numa poltrona, assistindo a tudo quanto era programa de televisão e seus “artistas” preferidos eram, justo, os apresentadores mais chatos: Zé Luiz Datena, Faustão, Marcelo Rezende e o tal de Neto, esse o campeão da boçalidade e da chatice). Além de não bater um prego numa broa, a velhota só queria comer do bom e do melhor, a todo instante e a toda hora.

       Mal o bondoso genro entrava em casa, cansado, de volta do trabalho, Naná cuspia de lado e indagava com desdém:

       – Por que chegou tão cedo, hein? Esse seu emprego é bom demais!

       E Barbosa, pacientemente, respondia:

       – São 10 horas da noite, dona Naná!

       E ela:

       – Tá bom de arrumar outro emprego… pra completar o turno da noite. Esse negócio de homem o dia todo socado dentro de casa, não dá! Que tal você também ser vigilante de posto de gasolina?

       A cada dia a situação do Barbosa piorava. Nem para amada esposa ele tinha tempo. Certa ocasião, quando surgiu a ocasião de aplicar-lhe um beijo na bochecha, eis que a velha marcou em cima:

       – Êêêpa! Olha o respeito, seu safado! Que chumbrego é esse? Tá me vendo aqui não? Quer fazer safadeza vá pra rua e se agarre com as raparigas! Minha filha é moça séria, ouviu bem?

       O leitor já pensou no sofrimento do sujeito que se casa com uma linda donzela e não tem, sequer, o direito de dormir com ela, um minutinho só? Pois isso ocorria com o Barbosa. A magera da Naná jamais permitiu que o genro partilhasse o leito conjugal com a esposa, que permanecia virgem aos seis meses de casada. Quem dormia com a filha, era a mãe.

         Belo domingo de sol de verão, Caty sacou uma ideia sensacional, na hora do café da manhã, imaginando que a mãe ainda se achava na cama. A ideia, ela transmitiu ao marido na base do cochicho:

          – Amor, que tal a gente ir à praia? O sol está tão lindo!

          Barbosa topou na hora:

          – Oba! Vamos agora? O café a gente toma na rua!

          Mal se levantaram para pegar os seus apetrechos de praia, eis que o casal deu de cara com a velha plantada a metro e meio deles, com as mãos na região onde outrora existiu a cintura.

          – Pra onde vão vocês dois? – berrou ela. – Pensam que eu não ouvi vocês combinando ir à praia, seus traidores? Pois fiquem sabendo quer eu também vou! Esperem aí enquanto eu pego o meu maiô!

          Foi nessa hora que passou pela cabeça do Barbosa duas ideias terríveis: a primeira, dar um tiro na própria cabeça; a segunda, um tiro na cabeça da sogra. Mas, como era um cara pacífico, desistiu ligeirinhos das empreitadas macabras.

           O trio montou no carro do Barbosa e se mandou rumo ao mar. Só a sogra tagarelava, feliz da vida. O casal, exibido a maior cara de tristeza, parecia que estava indo para um velório.

            Assim que Barbosa estacionou o carro na praia, a sogra não contou conversa: pinoteou de dentro e disparou pela areia puxando mil por hora, em direção ao mar. O mergulho que ela deu, espalhou água suficiente para ser comparada a uma daquelas ondas do Hawaí. Em seguida, ouviu-se a gritaria de banhistas:

            – Socorro! Socooorrro!

            – Acudam! Chamem os salva-vidas! Há uma mulher se afogando!

            Caty teve um lance premonitório:

            – Acho que é a mamãe, Barbosa!

            Era mesmo a Nana se debatendo nas águas. Feito louco, rindo descontroladamente, Barbosa tomou a máquina fotográfica de um turista que ia passando e disse:

            – Desculpe, meu amigo! Eu preciso registrar esse flagrante de felicidade!

            Ele ainda conseguiu fofografar o último lance do afogamento da sogra: uma de suas mãos fora da água, dando “adeusinho”.

 

NÃO HAVIA ENERGIA…

 

     Um certo Jorázio Ciríaco é um vendedor de produtos eletrodomésticos desses bem chatos. Outro dia, olha ele enchendo a paciência da funcionária pública aposentada Danúzia Mercedes, com o dedo enfiado no botão da campanhia do apartamento dela!

      Mal abriu a porta, Danúzia foi surpreendida com a entrada intempestiva do cara. Jorázio nem permitiu que a dona do imóvel abrisse a boca para dizer alguma coisa. Foi logo despejando todo o conteúdo de um saco de lixo no tapete, no sofá, nas poltronas, debaixo da estante…

       – O que é isso, meu senhor?! Ficou maluco? Vou chamar a polícia!

       E o cara, todo empolgado:

       – Calminha aí, madame! Não se precipite! Pode ficar sossegada que lhe garanto, num instantinho, todo esse lixo será sugado por este aspirador elétrico de última geração!

      Mais que depressinha, Danúzia correu à cozinha e voltou trazendo uma vassoura e uma pá.

      – Madame…

      Danúzia empurrou a vassoura e a pá pra cima do vendedor e gritou:

      – Agora, limpe tudo isso bem limpinho, seu canalha. O apartamento não tem energia elétrica porque a Ceal cortou há três meses!

 

 

DOENÇA VITALÍCIA  

 

     O servidor público Natalícia Sobrinho, funcionário da prefeitura de Maceió, entrou na repartição para o expediente da tarde com a cara mais triste do mundo. Ao reparar no colega, o porteiro José Aníbal, o Gororoba, que é metido a sabichão, especulou:

      – Quê que “hai” com você, amigo velho? Pur “acauso” morreu alguém da sua família?

      E o Natal:

      – Morreu não. Mas quem vai morrer sou eu, de uma hora pra outra!

      – Vira essa boca pra lá, rapaz!

      – Você sabe de onde estou vindo? Estou vindo do médico, meu irmão!

      – Sim, e daí?

      – E daí que ele me falou que estou com uma doença filha da puta de braba!

      – Virgem Maria! E que doença da bubônica é essa?!

      – É uma doença escalafobética! O nome dela é tão complicado que não consigo me lembrar agora…!

       Gororoba respirou fundo, alisou o bigode e mandou ver, com aquele ar de entendido:

       – Ah, já sei! É uma doença vitalícia!