Olívia Cerqueira

26 de junho de 2015

As lutas das mulheres

Olívia de Cássia – Jornalista

 

Comecei a frequentar as reuniões da Associação dos Moradores do Tabuleiro do Martins (Amotan) lá pelos idos de 1985, quando começamos a pensar na elaboração do nosso Projeto Experimental (monografia) para a conclusão do curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), que hoje é denominado TCC.

Naquela época, o movimento de mulheres em Maceió era ativo e a presidente da entidade era dona Ivanise uma senhora muito simples, mas que nos recebia com muita atenção. Na comunidade tinha muita mulher carente que frequentava a associação por conta da entrega tíquete do leite, que já naquela época era programa do governo.

 A nossa aproximação com a entidade foi uma indicação do nosso orientador, professor Antònio Cerveira de Moura, para que nos entrosássemos com a comunidade e pudéssemos desenvolver a parte prática do trabalho por lá.

Acompanhávamos as reuniões da entidade e um ano e meio depois começamos a desenvolver essa parte, que foi muito atrapalhada, pois a gente  não tinha experiência nenhuma, mas que nos deu um pouco de suporte, já que nosso trabalho tinha como tema: “Em busca de uma comunicação alternativa da mulher”.

Nossa tarefa prática era fazer uma inserção de 15 minutos num programa de rádio veiculado num serviço de alto-falante tipo corneta, que era feito pelas colegas de curso Eunides Lins e  Carla Salignac, que também estavam terminando o curso e desenvolvendo seu trabalho no local.

No programa nós abordávamos os problemas vivenciados na época pela sociedade brasileira. O presidente do País era José Sarney, quando o país atingiu o ponto mais alto de inflação. Tinha fila nos supermercados para se comprar produtos, principalmente o leite e toda hora os preços  mudavam.

Falávamos da carestia, da violência contra a mulher, questões de saúde, da opressão e da submissão que a mulher sofria e todo aquele contexto vivido naquela época. Era tudo muito engraçado e difícil, pois fazer comunicação na porta de um abatedouro de aves ou na porta do Bar do Baixinho não era uma situação normal.

Apenas três vezes conseguimos o nosso intento, por problemas diversos que foram surgindo: ora os equipamentos não chegavam porque ficavam na associação e quem ficava responsável não levava ou por outro problema qualquer de apoio logístico.

Mas a parte teórica nos deu suporte para terminar o trabalho, depois de dezenas de entrevistas com lideranças femininas do Estado, visitas à Câmara de Vereadores e muita leitura. Lemos mais de 30 publicações e obter a nota nove foi a maior alegria para nós três: eu, Niviane Rodrigues e Rose Rocha.

Era a concretização do nosso sonho que a gente via acontecer, depois de tanta peleja, lutas e dificuldades para uma menina vinda do interior como eu  e ser a primeira da cidade a fazer jornalismo, indo de encontro à vontade de sua mãe.

Quando terminamos o curso, eu e Niviane já estávamos empregadas, no jornal Gazeta de Alagoas, o principal veículo do Estado, mesmo que aquela não fosse a função que sonhamos, antes de obter o diploma. De lá para cá muita coisa mudou.

Assumimos nossa profissão, mas a lembrança daquela experiência de luta universitária ainda me traz saudade. Antigamente o movimento de mulheres era muito forte e havia várias entidades femininas no Estado, que eu acompanhava de perto. Fosse indo  às passeatas, em reuniões ou em outra atividade qualquer.

As mulheres conseguiram muitos avanços na Constituição cidadã de 1988, mas o preconceito contra elas ainda não acabou e muitas lutas daquela época, incrivelmente, depois de tudo o que foi conquistado ainda exige um estudo aprofundado.