Ailton Villanova

23 de junho de 2015

Matuto atrapalhado

     Sertanejo das lonjuras de Santana do Ipanema, o vaqueiro José Onofre, popularmente conhecido como Zezinho Bodão, veio passar o carnaval em Maceió, a convite do jovem Francisco de  Assis (Chiquinho), filho de seu patrão, o fazendeiro Zózimo Bonfim. Assim que botou os pés em terras capitalinas, Bodão escutou do Chiquinho a seguinte dica:

     – Se prepare, que o mulherio aqui é moleza. Você pega quantas quizer. A primeira que passar na sua fente, pode mandar a cantada, que é tiro e queda!

     Zezinho Bodão animou-se todo:

     – É mêrmo, seu Chiquinho? Fais pirigo não?

     – Que perigo que nada, rapaz! Vá em frente!

     No domingo de carnaval Zezinho Bodão foi levado por Chiquinho à um baile em determinado clube da periferia da cidade. No que ele bateu os olhos na mulherada, encantou-se. Virou-se pro filho do patrão e perguntou:

     – Todas dão, seu Chiquinho?

     E o rapaz, tremendo de um sacana, confirmou:

     – Todas.

     – Valei-me meu padrinho Ciço! É hoje!

     A primeira garota que passou por sua frente, Bodão agarrou pela cintura. Ela soltou uma gargalhada de aquiescência e os dois sairam pulando pelo salão. É claro que simplesmente pular carnaval não era o que o matuto estava querendo. O negócio dele era curtir a dois, uma horizontal. De modo que arrochou o papo:

     – E entonce, sua piranha? Vâmo tirá um piço?

     E a moça, assustada:

     – “Piço”, que diabo é isso?

     – É um gozo, num sabe? A gente procura uma matinho puraí e tira um piço…

     A moça reagiu de maneira violenta. Sentindo-se insultada, sapecou a mão na cara do matuto sertanejo. Ele ficou sem entender nada e procurou o filho do patrão:

   – Seu Chiquinho, peguei uma mulé, convidei-lha ele pra trepá e a dizinfiliz me danou a mão na cara!

    – Mas você foi chegando e logo mandando a cantada?

    – Cheguei cum gosto de gáis!

    – Também não assim, rapaz. Você tem que chegar e conversar um pouquinho com a garota, com classe e educação, entende?

    – Ah tem qui cunvelsá antes, é?

    – Lógico.

    – Entonce, dêxa cumigo.

    Chiquinho Bodão voltou pro salão de baile e a próxima jovem que passou dando sopa, ele agarrou pela cintura, conforme havia feito antes. A moça enrolou o braço no seu pescoço e ele achou que era hora de puxar o papo:

     – Bunita noite, num é? Munto prazê. A sinhurita puracauso cunhece a cidade de Santana do Panema?

     – Não.

     – Entonce vâmu ali pro jardim, fazê sevelgonhêza?

 

 

Filho de bêbado…

 

     Cheio de moral, o tal de Valdir Colágeno chegou pro cara que bebia uma cervejinha escorado no balcão de determinado bar da orla lagunar, e discursou:

     – Ô Jovelício, para de beber, rapaz! Isso não é um crime que você está comentendo apenas contra você. É um crime contra seus filhos…

     – Puuur quê?

     – Você não sabe, seu imbecil, seu irresponsável, que todo filho de alcoólatra nasce idiota?

     E o bêbado:

     – Eu sei. Mas você pensa que é fácil parar de beber? Pergunte  pro seu pai.

 

 

O documento

 

     Com cara de poucos amigos, o sujeito entrou na Farmácia Ana Paula, na Pajuçara e pediu pro balconista, que por acaso era o dono, Paulo Nascimento:

     – Quero um litro de arsênico!

     E o Paulo:

     – Posso saber pra que o senhor quer esse arsênico?

     – É pra minha mulher. – respondeu o sujeito.

     – O senhor trouxe a receita?

     – Trouxe não, mas tenho aqui uma foto dela pro senhor ver.

 

 

Pra que viver?

 

     Numa ilha deserta, dois náufragos estavam há vários dias sem comer e sem beber. Em torno da ilha, um monte de tubarões nadando e exibindo aqueles dentões afiadíssimos.

     Aí, um dos náufragos caiu de joelhos na areia e começou a implorar:

    – Senhor, salvai-nos. Livrai-nos dessa desgraça! Se o Senhor me salvar, eu juro que terei uma vida de penitência. Juro que orarei e cantarei sempre em seu louvor. Eu prometo nunca mais beber. Prometo nunca mais jogar. Prometo nunca mais fumar. Prometo nunca mais ir ao cinema. Prometo nunca mais transar. Prometo nunca mais olhar pra uma mulher…

    Então, o companheiro interrompeu:

    – Peraí, Júlio! Você quer sobreviver pra quê?

 

Vida ruim

 

     Na condição de turistas, dois vampiros boêmios da Transilvânia vieram curtir o carnaval no Rio de Janeiro. Aproveitaram para incursionar pelos morros mais violentos, à procura de sangue. Com tanto tiroteio entre vagabundos e a polícia, impossível era não sobrar um sanguezinho esperto.

     Nas subidas e descidas pelas favelas os vampiros se perderam. A noite era fria e nebulosa.

     – Tá ruim, hein, colega Vlad?

     – Ô se tá, companheiro Klurb – conformou-se o outro. – Até agora nem um pescocinho pra gente chupar. Que dureza!

     – O negócio é a gente vasculhar um saco de lixo!

     – Lixo, colega? Pra quê?

     – Pra ver se a gente acha um modess pra fazer uma sopinha!

 

 

Marca boa

 

     Muito carola, madame Juvenília pediu ao filho Adrovaldo, que é ainda criança, que ele fosse a uma loja de artigos religiosos perto de casa, e comprasse um crucifixo de parede. O que ela tinha em casa, caiu da parede e quebrou-se. Precisa de outro para substituí-lo.

     O menino chegou lá e pediu o crucifixo ao balconista, que perguntou:

     – De madeira ou de metal?

     Sem saber a resposta, o garoto ligou para a mãe:

     – Ô maínha, o moço aqui tá perguntando se queremos um crucifixo de madeira ou de metal.

     E a mãe:

     – Qualquer um, meu filho, desde que seja da marca INRI!

 

 

Ah, coitadinhos…

 

     No seu consultório médico o doutor Nilton Jorge Melo, explicava à paciente:

     – É como eu lhe disse, dona Eutrópia: respirar fundo mata os micróbios.

     E a madame, na sua simplicidade de sertaneja:

     – Sei, doutor, tá certo. Mas cuma eu vô pudê insiná os bichinhos tão miudinhos a rispirá fundo?

 

 

E ele “era”?

 

    Madame Astúria é uma professora invocadona. Leciona na mesma escola onde a ilustre mestra Rose Lessa dava aulas. A matéria sob seu domínio era História.

    Bela manhã, ela entrou na sala de aula disposta a fazer uma sabatina em regra. Primeiro aluno que pegou dando sopa foi o Orlandinho:

    – Me responda, garoto: onde foi que os índios comeram D. Pero Fernandes Sardinha?

    E o Orlandinho, muito surpreso:

    – Eu nem sabia que ele era bicha, professora!