Ailton Villanova

21 de junho de 2015

PEGO NA MENTIRA

     De volta da rua, o motorista Antiógenes Pereira, conhecidíssimo como Pinto Doido, assim que assentou os solados dos pés dentro de casa, foi logo avisando à mulher, dona Escolástica:

     – Mulerrr, arrume aí as minhas roupas que eu vou viajar, nestante, para o Xingó!

     E ela, surpresa:

     – Assim, de repente, pra tão longe, meu nego?

     – Tem que ser, e agora! Do contrário, eu perco o emprego que acabei de arrumar. Vou dirigindo o carrão de um engenheiro que está fazendo uma construção naquelas bandas do Xingó…

     – E tu volta quando, meu nego?

     – Daqui a uma semana, mais ou menos.

     – Afe, Tió! Isso tudo de tempo?

     – Que jeito, né, muler?

     Triste, contrariada, madame arrumou a bagagem do marido, que se mandou numa correria danada. Nem se despediu direito da mulher.

      Antiógenes Pereira havia supostamente viajado na quinta-feira. No sábado seguinte, dona Escolástica, uma irmã e duas sobrinhas foram visitar uma tia no Jacintinho. Quando transitavam, de taxi, por uma rua chamada Santa Teresa, Escolástica reparou num cara sem camisa, debruçado numa janela, muitíssimo parecido com o marido. Depois do susto que tomou, conseguiu exclamar:

      – Não é possível!!!

      No rastro da exclamação, Escolástica pediu ao taxista:

      – Motorista, por favor, dê meia-volta nesse carro!

      O profissional atendeu ao apelo da mulher, voltou com o carro e parou em frente a tal janela. Determinadíssima, Escolástica pinoteou de dentro do taxi e caiu na calçada da casa onde Antiógenes se aboletava como se fosse o dono.

       – O Xingó agora é aqui, seu cafageste? – gritou a mulher.

       O mentiroso Antiógenes murchou, empalideceu e depois reagiu, dando uma de macho:

       – Ôxi, muler?! Quê que tu fazendo aqui, na porta dos outros? Já pra casa!  

       De dentro da casa, uma voz feminina, toda dengosa, fez-se ouvir:

       – Quem está conversando com você aí fora, meu amor? Se for esmola, diga que não tem!

       Antiógenes foi mais sacana que de costume:

       – Não é ninguém não, minha princesa. É só uma conhecida. Mas ela já está indo embora!

      Dona Escolástica foi embora, sim. Mas, antes, ela e as parentas, tiveram de quebrar tudo  o que havia disponível dentro de casa, na cabeça do Antiógenes. Ainda hoje, meses depois do quase fatídico episódio, o infeliz continua hospitalizado, em estado de coma. De Escolástica não se tem notícia nenhuma. Das parentas também, não.

 

 

ESTUPRADOR MENTIROSO

 

     Dorinha, moreninha cheia de curvas, acabou de estudar com a amiga na residência da referida, e ficou lá para dormir, ~por dois motivos justificadíssimos. Primeiro, porque estava chovendo muito e, segundo, devido ao adiantado da hora, não havia ônibus circulando.

     De manhã, quando acordou, Cristina perguntou:

     – Dormiu bem?

     – Mais ou menos. Teria dormido melhor se o safado do seu irmão não tivesse entrado no quarto e me possuído!

     O acusado estava por perto e, ao escutar a conversa, tratou de limpar a barra:

       – Foi só uma vezinha…

       E Dorinha:

       – Mentiroso! Eu contei oito vezes!

 

 

FELIPE COM JACÓ   

 

     O prestamista Jacó José dos Santos Filho se achava no ponto de ônibus do antigo cine Plaza, bairro do Poço, aguardando condução para o centro da cidade quando, inesperadamente, pintou na parada um bêbado, cheio de intimidades:

     – E aí, Felipe, tudo jóia?

     Meu nome é Jacó! – esclareceu o prestamista.

     E o bêbado, chato pra burro:

     – Qualé, meu? Tu é o Felipe! Tá se fazendo de bacano pra cima de mim?

     – Eu lhe conheço, por acaso?

     – Mas é claro que me conhece, Felipe?

     O prestamista começou a ficar invocado:

     – Eu já lhe falei que não me chamo Felipe, porra!

     – E carece alterar, meu chapa? Tu é um grande sacana, hein, Felipe?

     Nesse ponto o Jacó perdeu de vez a paciência e deu um empurrão no bêbado, que se estendeu no chão. Uma dupla de PMs que se achava de serviço na Praça Senhor do Bomfim, atravessou a rua, pegou o agressor pelos sovacos, enfiou num taxi e correu com ele para a delegacia de polícia de plantão, que ficava na Rua Boa Vista.

      A discussão recomeçou quando o agente de polícia encarregado do preenchimento da ficha de detidos, perguntou ao prestamista:

      – Diz aí o teu nome completo, Felipe!

 

 

CONFLITO NO BAR

 

     Boquinha da noite, corretor de imóveis Marionaldo Santana, o Mário, saiu de casa dizendo à esposa que estava indo para um plantão noturno que o patrão havia inventado. Dona Cilene chiou:

      – Mas plantão no domingo de noite, Mário?!

      – Pois é, minha filha… Sobrou pra mim, que sou o mais novo corretor da imobiliária.

      Antes de sair, Marionaldo se perfumou todo, vestiu um terno de tergal novinho e fez um gargarejo para eliminar o bafo de onça. Aí, a esposa observou, meio cismada:

      – E precisa essa elegância toda, meu filho?

      E ele:

      – Hoje é domingo, não é? Os clientes de hoje são selecionados. Você está por fora desse barato, meu amor. Fique na sua!

      Mas, Cilene não ficou na dela. Desconfiada, foi em frente, também.

      Assim que o carro do marido sumiu na esquina, ela ligou para um sobrinho que é policial civil e pediu ajuda. Com meia hora de procura pelos bares e restaurantes da cidade, Cilene e o sobrinho encontraram o bacana, todo ancho, numa pizzaria da orla marítima. Ao lado dele, uma louríssima de fechar comércio. Ambos se achavam aos beijos e abraços, chamando a atenção de todos os fregueses da casa.

        Naquilo que acabou de aplicar mais um beijo na bochecha da loura, Marionaldo Santana sentiu alguém tocando no seu ombro. Virou-se para ver quem era, quase desmaiou de susto. Dona Cilene abriu o bocão:

        – O plantão imobiliário agora se transferiu pra cá, foi, seu safado? Por acaso essa rapariga, toda pintada, é sua cliente?

        E cadê que o Marionaldo conseguia falar? A loura foi quem entrou no papo:

        – Olhe aqui, minha senhora, não precisa me destratar desse jeito. Eu não sou quem está pensado!

        – Ah, não?

        – Não. Só estou aqui porque o Marinho me garantiu que era solteiro e insistiu demais nesse jantar.

        O que ocorreu, a seguir, foi um negócio incrível! As duas mulheres se juntaram e deram o maior pau no corretor.