Ailton Villanova

20 de junho de 2015

O borrifo do Álvaro

     O que o galego Álvaro Cleto já aprontou por esse mundo afora não está nem no gibi do Capitão Marvel. Um livrão de mil páginas não chega para contar as suas peripécias.

     Aqui vai uma delas.

     Cleto morava no Paraná, onde nasceu, há quase oito décadas. Quando beirava os quarenta anos, ocupava o honroso cargo de chefe de segurança da rede ferroviária. Metido numa farda pintosa, com direito a boné com frisos dourados, parecia um general. Sua saudosa genitora, dona Alzira, um dia me revelou cheia de orgulho:

     – Alvinho ficava tão lindo vestido naquela farda de guarda! Tu precisavas ver, guri…!

     Comilão desenfreado, um dia Álvaro Cleto entendeu de rangar um prato diferente, à base de castanha – prato gordurosíssimo, por sinal -, num barzinho da estação de Londrina. Mal terminou de saborear a comida, eis que a barriga começou a protestar; imediatamente, os intestinos velhos de guerra apresentaram o resultado do sobredito, numa reação estrepitosa e mal-cheirosa.

      O trem corria veloz nos trilhos da linha férrea e o galego no maior pique para o toalete. Uma vez, duas vezes, três vezes, quatro vezes… seis vezes… Na décima segunda, o sanitário se achava ocupado. Álvaro desesperou-se e, segurando a barriga, gritou para a pessoa que se achava trancada lá dentro:  

       – Vai demorar muito aí, gente boa?

       E o indagado, com voz espremida:

       – Ainda tenho três páginas e meia do meu jornal pra ler…!

       – Pelo amor de Deus!

       Juntaram-se agonia, desespero e cólica, obrigando o guarda-chefe da ferrovia a adotar uma providência emergêncial inusitada, porque o cocô ralo se encontrava na porta de saída do fiofó do galego.

        Então, ele correu para o último vagão do trem, arriou as calças, pendurou-se no balaústre traseiro, agarrou firme e mandou ver…

        A cena era ao mesmo tempo incrível, escandalosa e cômica. A bunda branca do Álvaro Cleto exposta aos incrédulos olhares do povo, desfilava borrifando cocô mole pra todo lado, estrada de ferro afora. E o comboio disparado sobre os trilhos.

        Assim que o trem parou na estação ferroviária central de Curitiba, o diretor da ferrovia correu para o Álvaro com os olhos esbugalhados:

        – O senhor viu, viu?

        – Vi o quê, doutor?

        – O tarado!

        – Que tarado, doutor?

        E o chefão, encolerizado:

        – Olhe aqui, seu Álvaro… Na qualidade de chefe da segurança da empresa, o senhor tem que descobrir qual foi o degenerado que andou fazendo “strip-tease” no nosso trem. O povo inteiro do Paraná está telefonando, na maior revolta, aqui pro meu gabinete!

        – Alguma descrição do… do…imoral?

        E o grandola, furibundo:

        – Dizem que o tarado é alto, louro, tem as nádegas bastante brancas e é barbudo… Puxa vida! Reparando bem, o safado é senhor cagado e cuspido!

 

 

PASSAGEIRO PENTELHO

 

     O taxista Advélcio Pacheco, sujeito tranquilão, também conhecido como Vevéu, nunca foi de agredir ninguém. Pra tirá-lo do sério é preciso muito, mas muito mesmo.    

      Então, Vevéu se achava aguardando passageiro, muito à vontade no seu carrinho, cujo ponto fica no centro de Maceió. Em dado momento, surgiu um sujeito barbudo, com um guarda-chuva socado no sovaco, que indagou:

      – Tá livre, parêia?

      E o Vevéu, com aquela calma que Deus lhe deu:

      – Estou, meu patrão!

      – Então, vamos pro Biuzão!

      – Biuzão???!!! Onde fica isso?

      – Ôxi! Que taxista é você que não sabe onde fica o Biuzão? Estou falando do Benedito Bentes, se ligou agora?

      – Ah, bom. Vamos lá!

      Assim que se aboletou no taxi, o passageiro sacou nova indagação:

      – O senhor se irrita com facilidade?

      Sorridente, Vevéu respondeu:

      – De maneira alguma. Sempre fui tranquilo e calmo…

      Não demorou nem um minuto, o cara voltou à carga:

      – O senhor se irrita com facilidade?

      – Não, não. De jeito nenhum! – replicou o taxista, exibindo um largo sorriso.

      Mais três minutos, e nova pergunta:

      – O senhor se irrita com facilidade?   

      – Não… não, senhor…

      O passageiro era chato mesmo. Olha ele de novo:

      – O senhor se irrita com facilidade?

      Vevéu, que já estava ficando puto, respondeu seco:

       – Não!

       O pentelho atacou pela sexta vez:

        – O amigo se irrita com facilidade?

        Aí, Vevéu não conseguiu se segurar:

        – Me irrito! Me irrito e muito! Por quê? Algum problema?

        E o filho da mãe:

        – O senhor é mesmo estranho! Falou aí o tempo todo que não se irritava com facilidade. Quando acaba…

        O sujeito não terminou de falar. Foi atirado fora do taxi, no asfalto, pelo Advélcio, o tranquilíssimo Vevéu.

 

 

DESCULPA NO GRITO

     Todo mundo sabe que a Eurídice, mulher do Prognócio, é uma tremenda guerreira. Só, ele, apaixonadão, não vê que a indigitada transa adoidado com meio mundo de machos. E com a mão na cabeça, pra não perder o juízo.

     Ocorre que, de tanto dar, ela derrapou numa de suas jornadas clandestinas e pegou um bucho, isto é, uma gravidez. Nove meses depois, eis que surgiu o bebezão na parada. Mal ele acabou de nascer, o médico exclamou espantado:

     – Eita! O menino é preto!

     Eurídice é uma louraça de olhos azuis e o marido, galego dos olhos verdes, fato que deixou cabreira t oda a equipe médica. Médico, enfermeira e auxiliares se prepararam para ver o pau comer, quando o marido entrasse no quarto.

      No meio daquela expectativa, eis que Prognócio, o pai, adentrou ao ambiente. Aproximou-se da mulher, olhou pra ela, olhou pro recém-nascido e, quando se preparava para dizer alguma coisa, Eurídice apontou o dedão para o corno, digo, para o marido, e gritou:

      – Tá vendo aí, seu canalha? Depois não venha me dizer que não anda me traindo com a Ditinha, nossa empregada!