Ailton Villanova

14 de junho de 2015

Preparando o futuro

     Até bem pouco tempo, as imoralidades políticas faziam parte do cotidiano das casas legislativas e dos palácios governamentais. Eram tantas, que viraram rotina. Aí, veio a história do mensalão; em seguida, a do petrolão, o prato dia, que virou até motivo de chacota, inclusive no próprio governo central .

      – Mensalão é piada! – debochavam figurões da República, incluindo o notório Inácio Lula.

      Os zombeiteiros voltaram a ter nova dor-de-cabeça, dessa vez mais adubada, com a notícia de que já existe outro escândalo engatilhado, para estourar logo depois do petróleo.

      Depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu enfrentar com rigor a bandalheira oficializada, a vil politicalha, a esperança do brasileiro é que melhore a qualidade dos nossos políticos.

       Antes de pipocarem os escândalos que hoje estão sendo denunciados e julgados, certos integrantes do governo preparavam terreno para o futuro, certos da impunidade. Até que veio a Justiça, através de um destemido, imparcial e rigoroso Joaquim Barbosa e deu o primeiro grito de exatidão da virtude moral daquele que julga. Delinquente pra ele é tudo igual, de gravata ou sem gravata. Afinal, todos são iguais perante a lei. Ninguém está acima dela.

       Naqueles tempos da esculhambação generalizada, determinado ministro e meia dúzia de assessores visitavam o interior do País, esbanjando o dinheiro do povo. Na primeira cidadezinha onde entrou, encontrou o prefeito, cidadão modesto, que lhe fez um pedido:

      – Excelência, nós estamos precisando de um dinheiro pra construir uma escolinha…

      E o ministro:

      – Traduzindo em reais, quanto seria esse dinheirinho?

      – Uns 50 mil reais.

      – Bem… – o ministro começou a gaguejar – sabe como é… a crise do dólar… a globalização… está difícil, mas eu vou ver o que posso fazer pelo senhor.

        Na segunda cidadezinha, um pouco maior que a outra, o prefeito também fez um apelo ao ministro:

       – Excelência, nós estamos precisando de uns 2 milhões para construir uma cadeia nova.

       – Dois milhões?! Claro! Secretário, por favor, pegue na minha pasta o meu cartão corporativo, que eu quero retirar uma grana para o nosso prefeito aqui.

       De posse do cartão, o ministro foi até a agência bancária mais próxima e enquanto pegava o dinheiro com o gerente, seu assessor, estranhando o ato do chefe, comentou:

      – Pô, excelência! O senhor recusou dar 50 mil reais para construir uma escolhinha e dá 2 milhões pra um presídio?!

      E o ministro:

      – Qual é o problema, rapaz? Você acha que depois que eu largar a política eu vou voltar pra escola?

 

Cirurgia eficiente

      Madame Georgina encontrou no consultório do doutor Octávio Botelho muito nervosa. Entre soluços, desabafou:

     – Doutor, dê uma olhada em mim. Quando me levantei esta manhã e me olhei no espelho, levei um susto danado! Estou cheia de rugas nos olhos e também em redor da boca. Sem falar nas pintinhas. O que tem de errado comigo, doutor?

     O médico avaliou a mulher por alguns instantes e depois falou, calmamente:

     – Reparando direitinho, sua cirurgia de catarata foi muito bem sucedida, senhora!

 

Bígamo folgado

      Boêmio contumaz, malandro até dizer basta e tomador de todas, o tal de Josebânio Esbórnio encontrava-se diante do juiz para escutar a sentença que lhe seria imposta dali a instantes.

      O magistrado encarou o sujeito, temperou a goela e mandou:

      – O senhor foi absolvido da acusação de bigamia. Vá pra casa e volte aqui amanhã com a sua mulher. Preciso falar com ela!

      – Pois não, excelência. Com qual das duas o senhor quer falar?

 

O fim estava próximo demais!    

      Tomara que este texto não sirva de motivo para mais um protesto de determinada facção evangélica, conforme tem ocorrido todas as vezes que se fala do fanatismo reinante em algumas crenças da espécie.

     Aos montes, malandros, travestidos de pastores, missionários, apóstolos, ou coisa que o valha, têm engabelado milhares de criaturas ingênuas, retirando-lhes seus últimos centavos com promessas de curas e milagres. Nenhum desses, entretanto, está na cadeia. É que, desgraçadamente, são acobertados pela Constituição Federal, que lhes dá a garantia do exercício do culto religioso, seja ele de que denominação for.

       Cinicamente, através da televisão, alguns indivíduos tem mostrado “milagres” – cego enxergando, aleijado andando, mudo falando – em espetáculos patéticos, muitas vezes deprimentes e humilhantes. E essas estranhas pantomimas se repetem impunemente a toda hora.

      Um flagrante exemplo de fé num desses exploradores da ingenuidade alheia, é o sertanejo Adaurílio Bonfim, que passou dois anos juntando uma graninha para comprar um carrinho, que seria destinado ao prazer do folgado pastor de sua igreja evangélica, um certo Messias. Essa era a sua tarefa. Adaurílio conseguiu comprar um Chevette modelo 66, mandou dar um brilho bacana na sua lataria e se preparou para leva-lo ao pastor. Todo feliz, montou no veículo e se mandou para a casa do sujeito, que ficava léguas de distância, em pleno deserto sertanejo. No meio do caminho, eis que se deparou com um trabalhador exibindo uma placa, onde se achava escrito:

      “CUIDADO! O FIM ESTÁ PRÓXIMO!”

      Acontece que o  Adaurilio estava “próximo demais” e não viu que a estrada terminava ali. Coitado, não teve tempo de brecar o carro e caiu num precipício de mais de duzentos metros…

      Duas semanas mais tarde, ele acordou num leito de hospital, todo cheio de gases, gesso e esparadrapo no corpo inteiro. Milagrosamente, escapara da morte, mas não da bronca do sacana do pastor:

       – Viu no que deu a sua falta de atenção? Acabou com o meu carro! Agora, você terá que me dar outro!