Olívia Cerqueira

14 de junho de 2015

Literatura de cordel desperta talento de jovem universitário

Olívia de Cássia – Repórter 

Cicero Manoel de Lima Alves tem 24 anos, é estudante de Letras pela Universidade Estadual de Alagoas (Uneal) e conta que começou a escrever versos com dez anos de idade. “Descobri a literatura de cordel aos dezesseis anos, depois que uma professora levou um texto para a sala de aula na escola em que eu estudava. Antes eu só escrevia poemas em quartetos e passei a escrevê-los em sextilhas como havia visto no cordel”, observa.

 

 

No lançamento do livro: “Versos de um cordelista”. Foto: Elaine Marcelino

 

Cicero Cordelista, como é conhecido o artista, explica que depois de ver um senhor lendo um cordel comprado na feira de Santana do Mundaú foi até a banca e comprou um exemplar. “Depois de lê-lo, fui correndo para casa escrever uma história em cordel e a partir daquele dia nasceram meus primeiros versos”, destaca.  

O estudante descreve que em 2007,  quando cursava o ensino médio, “ao trabalharmos o gênero em sala de aula, a pedido de uma professora tive a honra de escrever um cordel para ser apresentado pela turma em toda a escola: nasceu ali “O casamento forçado”, um dos meus cordéis mais conhecidos e que também me deixou conhecido em toda escola”, comenta.

 

 

Alguns dos seus cordéis.

 

Segundo ele, daí em diante passou a escrever os versos no estilo e a vendê-los na escola em folhetos feitos por ele mesmo, de modo artesanal (fazia xérox, recortava as páginas e encadernava), a preço de R$ 2 e R$ 3.

“No instante em que comecei a vender os folhetos, percebi que a maioria dos cordéis usavam um desenho na capa por nome de xilogravura, foi aí que descobri que tinha outra arte; como já gostava de desenhar, passei a elaborar as xilogravuras que ilustrariam meus folhetos”, explica.

Começava ali um trabalho de divulgação do seu trabalho, nas escolas da região fazendo apresentações em datas comemorativas. “Passei a frequentar as rádios de União dos Palmares onde recitava os cordéis em programas culturais. Conheci o jornalista e radialista Humberto Maia da rádio Pajuçara FM, em Maceió, que abriu as portas de seu programa “Manhãs Nordestinas”, onde pude mostrar meu trabalho para todo o Estado de Alagoas”, ressalta.

Nascido em Garanhuns-PE, em 20 de setembro de 1990, Cícero cresceu no Sítio Ilha Grande, município de Santana do Mundaú, em Alagoas, cidade onde reside hoje em dia, ajudando a família nos trabalhos da roça. Em novembro de 2013 ele conta que participou da VI Bienal do Livro de Alagoas onde pode expor seus trabalhos, no  estande da Secretaria de Cultura, (Secult), servindo de matéria para  sites da capital.  

“Cresci na roça, enfrentando as dificuldades que ela proporciona a quem nela habita, mas nem por isso perdi o gosto pelos estudos ou pelos livros. Depois de passar em um vestibular, entrei para o curso de Letras Vernáculas no Campus V da Universidade Estadual de Alagoas – Uneal, no início de 2013 e dei de cara com o reitor José Jairo Campos. Não perdi tempo para apresentar-lhe meu trabalho e fiquei surpreso quando ele me fez o convite para editar um livro patrocinado pela instituição”, revela.

O primeiro livro de Cícero Cordelista, ‘Versos de um cordelista’, ficou pronto em dezembro de 2014 e foi lançado no Campus V da Uneal, em abril de 2015. O livro foi editado pela Editora Viva e contém dez cordéis, entre eles: ‘O casamento forçado’, um dos seus primeiros textos. O livro ainda conta com um prefácio do reitor Jairo Campos e está em divulgação.

O artista popular comenta que tem mais de cinquenta cordéis escritos. A maioria  folhetos, outros em no blog (www.mcordeis.blogspot.com) onde divulga e posta suas criações.

Entre os trabalhos mais conhecidos de Cicero Cordelista estão: O casamento forçado; Relato da enchente de 2010 em Santana do Mundaú- Alagoas; Sebastião e Carolina, A moça que fez promessa para poder se casar; O homem que adormeceu e sonhou beijando uma égua;  A mulher que morreu quando viu o marido nu; A mulher que capou o marido; O viajante cantador e a moça que não sorria.

“Não tenho um tema específico para escrever, os temas nascem conforme a história. Porém os temas mais abordados em meus folhetos de romance, humor e temática social são: amor, paixão, traição, vingança, tristeza, seca, compra de voto, etc. Para escrevê-los, busco inspiração em meu interior e em minha sociedade. Amo ouvir histórias e adoro escrever os causos do interior em versos”, argumenta.

Depois de quase dez anos como cordelista, o estudante de Letras ressalta que a sua maior dificuldade é recurso para editar os folhetos. “Não recebo apoio de nenhum órgão ou instituição. Vivemos em um Estado onde a cultura não é valorizada, principalmente a arte do cordel comparando a estados como Pernambuco, Paraíba e Ceará onde o cordelista é bem mais valorizado”, avalia.

Ele explica que sempre editou os folhetos com recurso próprio, e depois de tê-los em mãos, ele mesmo os vende. Cícero Cordelista ressalta que não tem um ponto específico para venda e divulgação dos folhetos.  

“Não busco lucro ou fama naquilo que faço, busco prazer, respeito e reconhecimento. Sinto prazer em escrever, em criar histórias que fazem o povo rir, pensar, se emocionar e se identificar. Fico feliz quando alguém diz que riu muito com meu cordel ou que se identificou com aquele poema. Às vezes fujo do gênero cordel e adentro em outros gêneros, pois também escrevo poesia (soneto) e conto, porém minha casa é a literatura de cordel”.

O escritor luta para que esse tipo de manifestação popular permaneça viva dentro de uma sociedade pobre de conhecimento e podre de influências e bestialidades que fazem seu povo não valorizar as riquezas que possuem.

“Hoje a Literatura de cordel encontra-se extinta das feiras do Nordeste, raramente os folhetos são encontrados. Em meio a tanta tecnologia o cordelista resiste nos dias de hoje com sua arte, lutando para que ela não morra. Porém a mesma modernização tecnológica que afasta o povo dos folhetos de cordel ajuda o cordelista a manter-se mais vivo do que nunca: por que os cordéis que eram publicados em folhetos hoje são publicados on-line nos sites e redes sociais. Em meu blog é possível encontrar grande acervo de minha obra”.

Abaixo um exemplo do trabalho de Cícero, relatando a tristeza e o arrependimento de um caboclo depois de deixar seu sítio para morar na cidade.

DO SÍTIO PARA A CIDADE

 

Vendi meu taco de terra

E vim morar na cidade,

Aqui eu não tenho paz,

Não tenho felicidade,

Do meu rancho lá no sítio

Só me resta a saudade.

 

Eu tinha muita vontade

De a cidade conhecer,

Então vendi minha terra

E aqui eu vim viver,

Mas de arrependimento

Com certeza vou morrer.

 

Lá eu criava galinha,

Pato e porco no chiqueiro,

Criava peru, guiné,

Bode cabra e carneiro,

Um sabiá cantador

E um cachorro perdigueiro.

 

Lá no sítio eu criava

Uma vaquinha malhada,

Um cavalo corredor

Pra eu fazer cavalgada,

Um jegue e um velho burro

Pra levar carga pesada.

 

A um rico fazendeiro

Meus animais eu vendi,

Botei as roupas num saco

E pra cidade parti

Hoje meu coração dói

Muito me arrependi.

 

Tenho saudade do campo

Do meu lindo riachinho,

Sinto saudade de ouvir

O cantar de um passarinho,

Me lembrando do meu sítio

Aqui eu choro sozinho.

 

Foi uma grande burrice

Minha terrinha eu vender,

Nessa imensa cidade

Está ruim de viver,

Queria voltar pro campo

Meu doce eterno prazer.

 

Aqui só tem violência,

É tiro pra todo lado,

Se alguém vai comprar um pão

Na esquina é assaltado

À noite aqui nas ruas

Só tem ladrão e tarado.

 

De dia eu não aguento

É um barulho do cão,

É carro que só a gota

Estremece até o chão

Aqui só sinto tristeza

Não tenho satisfação.

 

Minha velha todo dia

Chora pra se acabar

Lembrando dos animais

Que lá chegava criar

Hoje o seu maior sonho

É para o sítio voltar.

 

Com o dinheiro da venda

Da terra e dos animais,

Aqui comprei uma casa

Que roubou a minha paz,

Desse dinheiro um real

Hoje eu não tenho mais.

 

A terra que eu vendi

Não posso hoje mais comprar,

Também não tenho dinheiro

Pra comprar noutro lugar,

Digo muito magoado

Aqui vou me acabar.

 

Para respirar aqui

Não tenho mais facilidade,

Queria morrer no sítio

Mas essa é a verdade:

Vou morrer arrependido

Nas ruas dessa cidade.