Ailton Villanova

11 de junho de 2015

O único doutor competente

      Ninguém pode negar que o médico pernambucano Metódio Masseterino é um profissional competente. Ele só não opera milagres porque não é santo, mas tem salvado vidas aos montes. Masseterino também se orgulha do fato de possuir uma clientela bastante regular. Entre seus pacientes mais recentes exsurgiu uma madame – dona Anfrísia Rodeiro –, que é um autêntico pé no saco. Só num mês ela compareceu à clínica do distinto esculápio mais de dez vezes. É mole?

       Recentemente Anfrísia baixou lá lépida e fagueira e cheia de onda:

       – Bom dia, meu santo!

       – Bom dia. O que a senhora tem desta vez? – indagou o médico com visível má vontade.

       – Como vou saber? Quem que me dizer o que eu tenho e você, doutor!

       E Metódio Masseterino se controlando para não soltar umas pulhas:

       – Muito bem… mas eu quero saber o que a senhora está sentindo!

       – Não dá pra você saber só de olhar para mim? Devia saber… Afinal, tantos anos de estudo, não é meu filho?

       O médico não respondeu à pergunta irônica da paciente, mas abriu a porta do consultório, saiu pela ante-sala, ganhou o corredor e seguiu para o bloco contíguo.

      – Peraí, doutor! – gritou Anfrísia, correndo atrás dele. – Pra onde você está indo?

      – Vou chamar o doutor Eliseu, aqui na frente. Só ele poderá resolver o seu problema!

      – Ora, só faltava essa… pedir ajuda a um colega! Mas que incompetência!

      – Ele não é meu colega. – explicou Deltóideo – Ele é veterinário e o único capaz de diagnosticar sem fazer perguntas ao paciente.

 

 

Finalmente, hein?    

 

      O capitão PM José Belarmino era delegado de polícia numa cidade do interior alagoano, lá pelos anos 40. A delegacia funcionava, como ainda funcionam as sedes de regionais, no mesmo prédio da cadeia pública, ou vice-versa.

      Belarmino era madrugador.

      Numa sexta-feira, ele chegou mais cedo pro expediente e saiu acordando  tudo quanto foi preso. Depois, reuniu todos eles no pátio interno e anunciou, cheio de satisfação:

      – Atenção cabroeira! Hoje teremos uma grande honra! Vamos receber o nosso prefeito!

      Lá no fundo, manifestou um dos reclusos:

      – Não é azar, não! Até que enfim prenderam esse ladrão!

 

 

Faltou papel na igreja!

      João Octaviano, matutão dos confins de Olivença, resolveu visitar a capital , justamente no dia da festa da padroeira do bairro onde residia o primo João Vicente.

      Igreja lotada de fiéis, aquela movimentação toda, e Octaviano ciceroneado pelo parente, reparava nas bonitezas internas do templo. Nunca tinha visto coisa igual. De repente, puxou o primo pela manga da camisa e cochichou no ouvido dele:

      – Primo véio, tô carecendo de fazê pricisão. Onde qui fica a latrina?

      E Vicente, apontando na direção da sacristia:

       – Vá em frente, dobre a direita e…

       Tão apertado se achava o Otaviano que ele nem esperou ouvir o resto da explicação do parente. Partiu em frente e foi esbarrar no confessionário. Entrou sem a menor cerimônia e trancou-se por dentro.

       Depois de ter demorado um tempão, Otaviano pôs a cabeça de fora e gritou:

      – Ô primo Vicente! Me tráis aí um pedaço de papé pra eu limpá o cu, qui aqui na latrina num tem, não!

 

 

Pode deixar que eles fecham!

      Já viu uma mulher boçal? Pois a rainha da boçalidade é Maria dos Remédios, mulher do Alceu Leocádio.

      Remédios passou o ano inteiro azucrinando a paciência do marido, por causa de um apartamento. Ela queria porque queria, mudar-se da casa onde moravam, havia mais de 15 anos, para residência compatível com a sua boçalidade.

      – Tô de saco cheio dessa casa, Ceuzinho! Trate de arrumar um apartamento imediatamente. De preferência na Ponta Verde, que é bairro chique!

      Esse papo ela repetiu de manhã, de tarde e de noite. Aí, para se ver livre da chateação da mulher, Alceu vendeu a casa e comprou um apartamento na Ponta Verde, bem pertinho do mar, conforme exigira Maria dos Remédios.

       Mudaram-se para o novo lar numa sexta-feira. Assim que entrou no banheiro, Remédios se deparou com uma enorme janela. Aí, bronqueou:

       – Ceuzinho, não estou gostando, nem um pouco, dessa janela aqui! Os vizinhos vão me ver tomando banho todos os dias. É melhor você comprar uma cortina!

       E o Alceu, de saco cheio:

       – Compro não! Depois que os vizinhos lhe virem nua pela primeira vez, eles é que irão comprar cortina!

 

Tarefa impossível

      Nesta nossa vida terrena acontece cada coisa incrível! Coisas que, contadas nesta coluna, podem parecer piadas, de tão bizarras. Que diga dona Tertúlia, uma veterana mutangense, torcedora fanática do CSA. E solteirona zerada, conforme garante.

      Certa noite, caminhando pela linha do trem, tropeçou numa garrafa um pouco parecida com aquela da Coca-Cola, que se achava meio enterrada entre os trilhos. Sonhadora, ela não pensou duas vezes:

      – Vou esfregá-la. Quem sabe não aparece um gênio igual aquele da lâmpada do Aladim…     

     Esfregou, esfregou e… não é que apareceu o gênio!!! Não um gênio tal qual o da fábula, mas um gênio fajuto, subdesenvolvido, fino que nem um graveto, careca, desdentado, cheirando a sovaco e um pouco gripado. Aí, a veterana vibrou:

     – Você é mesmo um gênio?!

     E o gênio, entre um espirro e outro:

     – Sou, dona. O que a senhora deseja?

     – Eu quero que você me atenda três pedidos, como acontece nas histórias.

      – Sem chance, dona. – respondeu o mirrado gênio – Aquele papo de três desejos é onda da mídia. Só acontece nas histórias. Só atendo a um desejo, e olhe lá!

      – Tá bom. Eu gostaria de arrumar um marido bonitão, fortão, que tenha senso de humor, saiba lavar, cozinhar, limpar a casa, goste da minha família e me seja fiel…

      – Sem condição, dona. Homem com essas qualidades é impossível. Peça outra coisa, tá legal?

      E Tertúlia, na ponta dos pés:

      – Já sei! Já sei! Eu quero que você faça o meu adorado CSA seja campeão da “Série Z” e volte à primeira divisão de futebol.

      O gênio suspirou profundamente, balançou a cabeça negativamente e respondeu:

       – Como é mesmo que você quer o namorado?