Olívia Cerqueira

6 de junho de 2015

Falta o poeta

Olívia de Cássia – Jornalista

 

Uma tarde de sábado monótona e sem muito o quê fazer, a não ser ficar na internet. Cansei. Pego o livro “Os três mosqueteiros”, de Alexandre Dumas, mas não consigo adiantar a leitura. Lá fora o barulho dos boêmios incomoda, já estão entorpecidos pelo álcool.

Numa das casas o som toca um CD de músicas bregas, daquelas que antigamente só tocava em locais ‘suspeitos’, o baixo meretrício, sem preconceito nenhum para com esses lugares, só uma constatação. Esse tipo de música virou cult nos dias de hoje. Caiu no gosto popular e no da classe média também.

Sinto falta da boa música tocando nas rádios e nos lares também, mas como estamos em um regime democrático, o jeito é ouvir ou pegar um fone e colocar no ouvido.

Deito no sofá para esticar o corpo velho e tentar melhorar a dor de cabeça. Meus gatos Antonio Bandeiras e Thor deitam do lado; estão sujos, ‘amarrotados’ e feios de tanto brigarem e se espojarem na rua atrás das fêmeas. Penso em castrá-los para sossegar o facho deles em casa.

Thozinho se espicha esticando o corpinho o máximo que pode. Antonio olha para um ponto fixo e eu fico no aguardo de a minha sobrinha chegar para pintar meus cabelos e ajeitar minhas unhas. Toda semana o ritual se repete. O corpo mostra sinais de cansaço, dá sono, mas não consigo dormir nem tirar um cochilo sequer.

Lá vou eu pensando na Rua da Ponte e suas ricas histórias, com seus moradores nas portas, colocando as novidades em dia. Saudade dos meus avós Manoel e Olívia Paes de Siqueira que ficavam na porta de casa, vendo o movimento da rua.

Vovó gostava de contar as flores do vestido e de conversar com quem passasse. Vovô Manoel, quando chegava um conhecido, conversava sobre os filhos e as caçadas que empreendia nas matas na Barriguda e na Serra da Barriga.

Mimim, o gato preto da minha avó, ficava num canto, escutando e observando tudo. Enquanto isso, no fogão de lenha e carvão da casinha da minha avó, na Rua da Ponte, o café feito com grãos torrados e moído em casa, fervia na chaleira.

Ainda sou da época em União dos Palmares, que no final da tarde um rapaz da companhia elétrica ou da prefeitura, não sei, saia com uma vara, de poste em poste, na Rua da Ponte acendendo as lâmpadas, que não eram fluorescentes e eram muito fraquinhas.

Uma espécie de acendedor de lampiões mais moderno do que o da época do poeta Jorge de Lima em seu poema. A vida da gente é breve. Vejo o tempo passando em minha frente. As lembranças são de um tempo em que as amizades eram mais fraternas.

Vejo minha mãe gritando e ralhando com meu irmão mais velho, pelas suas traquinagens, ou me gritando e me batendo por conta de algum comentário maldoso de algum vizinho contra mim.

Nesse ponto ela era muito radical e não procurava nem saber se era verdade tudo aquilo. Ia logo me batendo. Mas tirando esse lado de divergências nossas e até por isso, sinto falta da sua presença e de seus ensinamentos.

Meu pai era um homem de fé e muita devoção por Santa Maria Madalena e sua fé foi até o fim da sua vida de 76 anos. A fé do meu pai nunca foi menor, mesmo quando veio a invalidez provocada pela doença de Machado Joseph, a ataxia.

Apesar dos impedimentos, ele não perdia o humor para contar seus causos e dizer versos embolados e ritmados: “Raposa velha do cu franzido”, repetia ele. Contava rindo que tinha sido até curador de cachorros na feira livre, em União, para ganhar a vida quando solteiro.

Lembrando das suas histórias engraçadas, mais parecem as histórias de Ariano Suassuna, em 'O Auto da Compadecida'. Se meu pai tivesse estudado, teria sido um poeta popular.