Ailton Villanova

22 de Maio de 2015

O trote e a fuga do Procurador

      De um dos meus livros – “Nem anjos, Nem Demônios. Apenas Imortais” – prontos para impressão, extraí o bizarro episódio protagonizado por dois dos vultos mais representativos da cultura e da justiça alagoanas: os saudosos Bráulio Leite Júnior e Paulo de Castro Silveira.

      Bráulio Leite Júnior, 250 kg de peso, advogado, jornalista, escritor, ator e teatrólogo  era um contumaz. Quando não tinha o que fazer, juntava-se ao colega Alberto Jambo – hoje em dia azucrinando a paciência de São Pedro nas alturas celestiais -, e danavam-se, os dois, a passar trotes nos amigos. Com os inimigos, então, eram cruéis.

      Certo dia, passando uma vista de olhos na coluna social do Josué Júnior, no falecido Jornal de Alagoas – do qual também era articulista -, Bráulio Leite deu de cara com uma notícia cheia de elogios e chamegos à pessoa do Procurador da República, que não era outro senão o doutor Paulo de Castro Silveira, seu amigo do peito. Aí, resolveu sacaneá-lo, deixando-o quase louco.

      O que fez o ardiloso Bráulio? Pegou o telefone de seu gabinete de trabalho – à época ele era diretor do Teatro Deodoro –, e fez uma ligação para Silveira. Abro aqui um parêntese.

      O procurador federal Paulo Silveira era uma figura carismática. Baixinho, gordinho e ágil, era um lírico de sensibilidade incomum. Escritor, poeta, integrou a roda boêmia de Maceió, abdicando dela quando assumiu a representação republicana em Alagoas. Na época em que era estudante de direito, fez grande amizades por esse Brasil afora, porque era líder universitário, com ligeira tendência revolucionária. Entre os amigos que fez além das fronteiras alagoanas, incluía-se o famoso Dante Pelacani, italiano naturalizado brasileiro e considerado “inimigo número um” daqueles que tomaram as rédeas da nação depois do golpe de 64. E Pelacani virou foragido, juntamente com outros brasileiros que passaram a ser rotulados de subversivos. O leitor conhece a história.

      Fecho o parêntese.

      Entre os considerados subversivos pela milicada verde-oliva, aquele que pôde fugir do país ou se esconder bem escondidinho em território nacional não foi torturado e nem trucidado.

      No recrudescimento da repressão, entre 1968 e 1971, o pau comeu impiedosamente, nas costas daqueles que tiveram um pouco mais de sorte, isto é, daqueles que não foram metralhados ou atirados ao mar de bordo de aviões ou de lanchas oficiais.

       E Dante Pelacani, que se autointitulava  contragolpista, simplesmente eclipsou-se, sumiu do mapa, mas continuou sendo caçado. A ordem dos escalões maiores de Brasília, era triturá-lo vivo. Pelacani passou a ser o pior dos proscritos. A partir daí, nunca mais comunicou-se com o amigo Paulo  Silveira, o que para ele era um alívio.

      Naquele dia em que o Jornal de Alagoas derramou-se em encômios e louvores à sua pessoa, Paulo Silveira teve as suas linhas telefônicas, de casa e do trabalho, praticamente congestionadas, tantos foram os parabéns que recebeu dos amigos e admiradores. Entre os telefonemas que recebeu, um deles o deixou apavorado, quase à beira do infarto.

       Esse maldito telefonema ele recebeu no seu gabinete oficial de Procurador da República, à época funcionando no último andar do prédio-sede da Delegacia Regional do Ministério da Fazenda (antiga Delegacia Fiscal do Tesouro Nacional), na praça D. Pedro II.

       – Alô? – disse Silveira, todo cerimonioso.

      Do outro lado da linha, uma voz espremida, com sotaque italiano, falou:

      – Por gentileza, gostaria de falar com o doutor procurador…

      – É ele! – respondeu o próprio.

      – Paulinho? Doutor Paulo?

      – Quem é?

      – Aqui é um velho companheiro seu… o Dante!

      – Dante?

      – Sim, rapaz! Dante Pelacani!

      Ao escutar a revelação, Paulo Silveira começou a tremer e a suar frio. O Exercito brasileiro em peso procurando o sujeito e ele telefonando logo pra quem!!!

       Paulo Silveira baixou a voz, agachou-se por trás do birô e falou sussurrando:

       – Você é doido, rapaz?! O telefone pode estar grampeado. Vou desligar!

      – Espere aí! Desligue não, Paulinho! É assim que você trata um velho companheiro de lutas?

      – Você quer me foder, rapaz?

      – Camarada não fode outro, Paulinho.

      – Fode, sim! É o que você está fazendo comigo, agora!

      Antes de desligar, o interlocutor deu a carga:  

      – Olha, camarada Paulinho! Estou escondido aqui em Maceió. Logo mais à noite eu passo na sua casa, para a gente acertar uns esquemas, certo?

      Mal acabou de falar ao telefone, doutor Paulo de Castro Silveira desceu a escadaria da repartição, correu para a garagem onde pegou o carro e, com ele, desapareceu da cidade. Quase dois meses depois, quando voltou à Maceió, ainda cabreiro, ele ficou sabendo de toda a verdade, através do jornalista Alberto Jambo. Havia sido vítima de um trote crudelíssimo do amigo Bráulio Leite, com o qual ficou sem falar até praticamente às vésperas de sua morte.

 

Como hospedar os Lp’s?!

      Antes de ser nomeado promotor de justiça de Marechal Deodoro, pelo governador do estado, o advogado Gladstone de Araújo Barros, cidadão fino e elegante, passou pela experiência de executivo no serviço público, na qualidade de diretor-geral da Rádio Difusora de Alagoas.

      Gladstone, que também foi empresário e político, conseguiu dar a emissora oficial do estado um novo ritmo administrativo, zerando as suas contas e mantendo em dia o pagamento do pessoal da casa. Foi um bom diretor. Só não era familiarizado com o setor artístico.

      Homem de poucas palavras, até porque era tímido, Gladstone Barros a princípio não foi bem entendido pelos radialistas, face a economia de guerra que impôs a rádio. Para por em dia as contas da Difusora, determinou um formidável corte nas suas despesas, o que lhe valeu o apelido de “Doutor Unha-de Fome”. Demorou pouco tempo gerindo os negócios da emissora. Quando se despediu do cargo, já havia dispensado quase a metade do cast da “Pioneira”.

      Gladstone odiava a palavra “despesa”. Era falar nisso em sua presença e ele passava mal.

       Mal havia assumido o cargo de diretor geral da Difusora, e preocupado em fazer valer o seu projeto de ortodoxa economia, ele teve o seu primeiro aborrecimento quando, certa manhã, alguém bateu a porta de seu gabinete, pedindo licença para entrar. Era o servidor Daví Pereira:

      – Doutor, acabaram de chegar os “Long Play’s”!

      Convém que aqui se antecipe o seguinte: até meados de 1950 ainda não tínhamos a novidade dos discos Long Play. Produzidos em vinil, começaram a surgir em oito e dez polegadas, reunindo entre oito e dez músicas em cada lado. Revolucionaram o mercado fonográfico. Depois, vieram os de doze. Antes dos Lp’s, os sucessos de então eram gravados em discos betuminosos de 78 rotações. Eram chamados de “bolachas pretas” e só rodavam uma música de cada lado.

      Bom. Os tais Lp’s haviam sido adquiridos pelo diretor anterior e Gladstone Barros ficou aperreado quando recebeu a notícia, mas não deu mancada. Querendo dar uma de entendido no assunto, pôs-se de pé, encarou Daví Pereira e exclamou:

      – Não é possível! Mais despesa!

      – Mas são os Long Play’s, doutor! Acabaram de chegar de São Paulo!

      – Eu sei, eu sei! Mas o que diabo eu vou fazer para pagar a hospedagem desse pessoal?

      Gladstone pensava tratar-se de algum conjunto musical que estava chegando para abrilhantar a programação de aniversário da emissora, que seria levada ao ar dali a três dias.

(Condensado do meu livro “Nem Anjos, Nem Demônios. Apenas Imortais”).