Ailton Villanova

14 de Maio de 2015

O obstinado Ponciano

     Joãozinho Ponciano era um amarelinho baixinho, meio zambeta e estrábico que nasceu e viveu, anos e anos, no interior de Pernambuco, mais precisamente na cidade de Águas Belas. Tinha a fama de ser renitente. Quando botava uma coisa na cachola não desanimava e nem desistia nunca, nem que chovesse canivete. Era homem de confiantça do prefeito Natalício Tenório, a ponto de, mais das vezes, representar o alcáide em solenidades importantes ocorridas na cidade.

     Um dia, o mandatário mandou chamá-lo em seu gabinete e lhe deu nova missão:

     – Joãozinho, você vai ao Recife buscar o novo pároco da cidade, que por sinal é um primo meu!

     – E quem é ele, doutor?  

     – É o padre Nildo. Ande, vá logo se arrumar!

     Minutos mais tarde, o baixinho estava na estrada, ao volante da caminhoneta particular do prefeito. Na capital pernambucana pegou o padre e voltou imediatamente para Águas Belas. Enquanto percorriam as ruas que levavam à paróquia, padre Nildo resolveu dar uma pitada no seu inseparável cachimbo. Naquilo que reparou na peça, Joãozinho não se conteve:

      – Puxa, padre! Mas que cachimbo bonito!

      E o padre:

      – É feito de legítimo carvalho inglês…

      – Dá ele pra mim, padre.

      – Ah, meu filho, bem que eu gostaria… mas não posso. Esse cachimbo é de estimação, lembrança do meu falecido pai.

      Passados alguns dias, padre Nildo já familiarizado com a paróquia e seus fiéis, estava ele soltando as suas baforadas, na frente da igreja, quando se aproximou o baixinho Joãozinho:

     – Padre, por que o senhor não me presenteia com esse cachimbo? Eu sempre sonhei em ter um cachimbo. Desde garoto eu tenho essa vontade. Vai, padre, dá ele pra mim. Não vai fazer falta pro senhor…

     – Mas eu já lhe disse que é uma recordação do meu saudoso pai.

     Uma semana mais tarde, o reverendo foi novamente abordado pelo baixinho, quando dava um passeio na praça:

     – E então, padre? Vai me dar o cachimbo? Sabe, padre, com essa onda de câncer por aí, acho melhor o senhor parar de fumar. Pense na sua saúde!

     – Tá bom. Pegue o cachimbo, vá embora, e me deixe em paz!

     No sabado seguinte, uma garota algo aflita procurou o sacerdote, na igreja:

     – Padre, estou sendo tentada a pecar! Não sei o que faço!

     – Que tentação é essa, minha filha?

     – É o meu namorado. Ele quer uma coisa minha, sabe? Ele é tão insistente, pede tanto, que uma hora dessas vou entregar os pontos, não vou conseguir mais resistir.

     – Você deve ser forte a essas tentações; deve resistir bravamente.

     – Mas o senhor não imagina como ele pede. Olha, padre, quando o meu namorado quer uma coisa, não desiste. Não sei o que fazer…

     – Afinal, quem é esse seu namorado, minha filha?

     – É o Joãozinho Ponciano…

     – Aquele baixinho da prefeitura?

     – É sim, padre. O senhor o conhece?

     Reverendo Nildo bateu na testa e gemeu:

     – Ah, meu Deus! Você está perdida! 

 

 

Quanta insensibilidade!

 

     Querendo curtir uma tarde diferente, o Aglastildo pegou a noiva Mauritânia e a levou ao Trapichão, onde preliavam o CSA, seu time do coração, e seu mais tradicional adversário, o CRB.

     Evangélica, Mauritânia nunca tinha ido a um estádio de futebol, diferente do noivo, que era um peladeiro inveterado. A garota ficou assustada com aquele povo todo entupindo o estádio, berrando, buzinando… aquela loucura! Não gostou daquilo que estava vendo.

     Lá pro meio do primeiro tempo, a partida em 0x0, Mauritânia angustiou-se. Cutucou o Aglastildo e comentou:

     – Acho uma grande maldade o que estão fazendo com aquele moço de preto!

     – Que moço? O juiz? – indagou o noivo.

     – Aquele alí, que está apitando tanto, coitado!

     – Mas que tipo de maldade você acha que estão fazendo com ele?

     – Você não está vendo, meu filho? O coitadinho já correu tanto, no campo inteiro, atrás de pegar a bola e os outros não estão dando a menor atenção pra ele! Acho isso uma falta muito grande de solidariedade!

     – Mas, meu amor…

     – Não me venha com desculpa, Aglastildo! Por que você não faz alguma coisa pelo pobrezinho?

     – Mas o que é que eu devo fazer, me diga?

     E Mauritânia resoluta:

     – Vá lá embaixo e fale com aqueles insensíveis e egoístas para darem a bola pro rapaz. Se você não for, quem vai sou eu!

 

 

Baixinho, rasteiro e difícil

 

     O esmolante perambulava pela rodoviária do Feitosa, de mão estendida à caridade pública. Nisso, aproximaram-se duas madames de aspecto muito distinto e ele apelou:

     – Uma ajudazinha pra um sertanejo caricido, minhas dona…

     A mais idosa delas compadeceu-se do infeliz:

     – Coitadinho! O senhor falou que é sertanejo?

     – Falei, dona…

     – A situação está difícil por lá, não está?

     – Ôxi si tá, dona! Todo mundo morrendo de fome…

    A outra madame entrou na conversa:

    – Outro dia eu lí no jornal que o povo sertanejo está pegando calango pra comer. O senhor também come calango?

    E o matuto, entrochando a cara:

    – Pra eu num dá não, sinhora. É um sacrifiço da bobônica! O bicho é munto bachinho (baixinho). Dá uma dô dizinfiliz no ispinhaço!

 

 

Um espirro inconsequente

 

     Na década de 40 a Polícia Militar teve um sub-comandante que era notório por sua dureza. Subordinado com ele tinha que marchar certinho. Coronel Bezerra era desses que gostava de andar pelo interior, inspecionando tropas, distribuindo ordens, mantendo a disciplina na corporação.

    Certa feita, encontrava-se em Palmeira dos Indios fazendo revista. Enquanto passeava diante da tropa perfilada, ouviu um espirro. Aí, gritou:

     – Quem foi que espirrou aí?

     Nenhuma resposta. Puto da vida, ele chamou o capitão que comandava a tropa e ordenou:

     – Tire cinco praças dalí da ponta e bote no xadrez!

     – Sim, meu coronel.

     O oficial pegou cinco soldados e trancou no xilindró.

     Depois dessa demonstração de tirania, o coronel insistiu na pergunta:

     – Quem espirrou?

     Ninguém abriu a boca. O militar deu nova ordem ao capitão:

     – Agora, tire mais cinco do meio e leve pra fazer companhia aos outros no xadrez!

     Ordem dada, ordem executada, o coronel voltou à carga:

     – Quem espirrou?

     Vendo que a tropa toda iria para o xadrez, o soldado que havia  espirrado levantou o braço e falou, tremendo de medo:

     – Quem espirrou fui eu, meu coronel!

     E o superior:

     – Saúde, meu filho!

 

 

O avião foi o culpado

 

     O telefone tocou na casa do Escolástico, ele atendeu, e o amigo Deolindo sapecou, do outro lado da linha:

     – Bicho, tô telefonando pra te dar uma notícia triste…

     – Olha, Déo, vem devagar. Meu coração anda meio esculhambado desde que a Cristina me abandonou.

     – Tá legal, vou devagar. Sabe quem morreu?

     – Puta merda! E isso é devagar? Diz logo quem morreu!

     – Quem morreu foi o meu primo Heliogábalo.

     – Ô mano velho, meus pêsames. De que foi que ele faleceu? Infarto?

     – Não.

     – Qual foi a causa, então?

     – Foi um avião!

     – Onde foi o desastre?

     – Na casa do assassino.

     – Assassino?! Que assassino? O avião caiu na casa do assassino, é isso? Me explica essa história direitinho.

     – Eu explico: o Heliogábalo foi executado pelo marido da mulher que estava com ele na cama, e aí os dois foram flagrados pelo corno, tá me entendendo?

     – E onde entra o avião nessa história?

     – É que o meu primo e a tal mulher pensavam que o marido estava em São Paulo. Mas o filho da puta havia perdido o avião!