Ailton Villanova

9 de Maio de 2015

O trio da trombada

     Altamente biritado, o sapateiro José Agrício, o popular Boca de Jacaré, caminhava trocando as pernas pela rua Cirilo de Castro, bairro da Levada, em direção ao mercado municipal. Ia da ponta ao canto da calçada, num excepcional exercício de equilibrismo. Em sentido contrário vinha o biscateiro Ranulfo Pinto, igualmente cachaçudo. Aí, aconteceu o inevitável: os dois colidiram e estalaram-se no chão, cada um para o seu lado.

     Boca de Jacaré levantou-se primeiro, cheio de bronca:

     – Você tá cego ou tá bêbo, seu fidapeste?

     Ranulfo Pinto replicou no mesmo tom:

     – Bêbo o cacete! Tô sóbrio, num tá vendo? Bêbo só pode tá você!

     – Nesse caso você tá cego! – insistiu o Boca de Jacaré.

     – Cego é a veínha!

     – Epa! Respeite a minha santa mãezinha, que tá no céu!

     – Nesse caso me desculpe. Mas num tô cego, não!

     – E purrr que num me enxergou?

     – Ora, eu tava distraído… Muitas preocupações…

     – Então, tá certo. – desculpou o Boca de Jacaré. – Prazer em conhecer o colega.

     – O Prazer é meu. Vamos tomar “uma” pra comemorar a nossa amizade? – sugeriu o Ranulfo, erguendo-se do chão. – Eu pago o estrago!

     – Absolutamente! Quem paga sou eu!

     – Não, senhor. Eu pago, num já disse?

     – Tá certo.

     Aí, saíram os dois abraçados, calçada a fora. Na primeira esquina, pararam e um deles falou:

     – Vamos atravessar aqui. Repara se vem carro aí.

     – Tá limpo!

     Não estava. Assim que os bebões pisaram na rua para iniciarem a travessia… Vabei! Foram alcançados por uma moto em alta velocidade, que os atirou cinco metros adiante.    

      O motoqueiro, um tal de Milton Cara de Maracujá, também estava biritado.

      Resumindo a história: os três deram entrada no Pronto Socorro, combinando uma farra no Bar do Pelado, assim que recebessem alta do hospital.

 

 

Pra casa de novo, não!

 

     O bebunzado estava caído na calçada da Praça das Graças, na Levada. Suas roupas não tinham mais cor, tão suja se achavam. As canelas, estambocadas, cheias de esparadrapo. Daí a pouco, tentou levantar-se, mas não teve como sustentar-se em pé. Arriou novamente. Um transeunte de bom coração, tentou ajuda-lo:

     – Quer que eu o leve para casa, meu amigo?

     E ele:

     – Carece não, amizade. Acabei de chegar de lá nestante!

 

 

Certamente uma boa escolha!

 

     Um certo estudante caminhava pelo campus universitário quando se deparou com um colega montado numa moto quentíssima, zeradona.

     – Ei, cara! Como foi que você conseguiu essa máquina fantástica?

     Respondeu o universitário indagado:

     – Conseguí numa boa. Ontem à noite eu estava caminhando aqui pelo campus quando uma garota, boa pra cacete, apareceu com esta moto. Ela desceu, tirou toda a roupa e disse: “pegue o que você quiser”!

     – Pô, meu! Você fez uma boa escolha! Provavelmente as roupas dela não iriam lhe servir!

 

 

Taí um sujeito inteligente!

 

     Na sexta-feira, o barbeiro Coristeu da Graça fechou o salão mais cedo e desceu a Pitanguinha com destino à Pajuçara. Chegou lá, instalou-se numa mesa de bar e, entre um gole e outro de cerveja, consumiu mais de meia dúzia de garrafas da bebida.

     Passava de uma hora da manhã quando resolveu fazer o caminho de volta ao morro e saiu procurando um ponto de taxi.

     Ao passar por um pedaço pouco iluminado, Coristeu escutou um “psiu”. Espiou e viu um sujeito fazendo sinais para que ele se aproximasse. Chegou junto do cara e este apontou-lhe um revólver que não tinha mais tamanho:

     – É um assalto, babaca! Vá logo passando a carteira!

     Coristeu entregou a carteira pro assaltante. Ele abriu, espiou dentro e disse, decepcionado:

     – Só três reais, bicho! Tu é mesmo um lascadão, hein?

     E o barbeiro, todo vaidoso:

     – Lascadão o quê? Pensa que eu sou otário, pra andar por aí com a carteira cheia de dinheiro? A grana alta eu guardo é aqui na meia, ó!

 

 

Oh, dúvida cruel!

 

     Maria Diomédia é uma balzaquiana bem aprumada. Dedicou-se tanto à igreja católica que esqueceu de casar.

     Num certo final de noite, ela voltava pra casa (no bairro do Pinheiro), a pé, depois de ter participado de uma reunião de coroas ligadas à assistência cristã, na Pitanguinha. A certa altura da caminhada, percebeu que estava sendo seguida por alguém.

     E começou a ficar preocupada:

     “Será que é um assaltante?”

     Não demorou muito o suspeito se aproximou da balzaca e a segurou pelo braço. Ela tremeu nas bases e gemeu, de olhos fechados:

     “Ai, Jesus! É mesmo um assalto! Esse marginal deve estar armado! Vou esperar pra ver…”

     O assaltante a levou para detrás de uma moita e lhe tirou toda a roupa. E Diomédia, com seus botões:

      “Mas, qual será a desse sujeito?”

      O marginal deitou a balzaca no chão e deu início ao “serviço”.

      Enquanto o tarado chamava na grande, a balzaca, entre um gemido e outro, de prazer, ruminava a dúvida:

      “Acho que ele não é assaltante, não! Será que ele me achou com cara de prostituta?”

 

 

Benedito, o santo fofoqueiro

 

      Mais liso do que buraco de cobra, o pinguço Luzídio Urupemba, andava doido para tomar uns floreados de cachaça e, sem ter para quem apelar, procurou conformar-se orando pra Jesus, na primeira igreja católica que achou. Mal entrou no templo, reparou numa mesinha próxima ao altar principal, uma bandeja destinada ao padroeiro São Benedito, recheada de dinheiro. Então, o que fez? Pegou uma nota e falou pro santo:

     – Ô Biu, me empresta essa grana que depois te pago, tá legal?

     Dito isto, girou nos calcanhares e partiu para o boteco mais próximo. Pediu uma meiota de cachaça e estava bebendo o primeiro grogue, quando uma mão pesada fez pressão no seu ombro. Era a mão do guarda que o tinha visto pegar a grana do santo:

     – Olhe, meu chapa, volte pra igreja e vá devolver a grana do santo, que você pegou!

     Luzídio voltou à igreja puto da vida. Jogou o dinheiro na bandeja de São Benedito e desabafou:

     – Olhaí a porcartia do seu dinheiro! Precisava dar parte na polícia, precisava, seu nego fofoqueiro?

 

 

O pinguço era o mesmo!

 

      Um tanto-quanto chapado, mesmo assim o guarda noturno fazia a sua ronda quando se deparou com um bêbado cantando, trepado num poste.

     – Ei, rapaz! Posso saber o que você está fazendo aí em cima?

     E o bebão: 

     – Tô cantando, você num tá vendo?

     – Você tá bêbado!

     – E daí? Eu bebo porque é líquido e o dinheiro é meu!

     O guarda ficou nervoso e ordenou:

     – Desça daí, senão eu atiro nas suas canelas!

     O sujeito ficou com medo e desceu do poste, cambaleando. Quando, enfim, ele chegou no chão, o guarda abordou:

      – Quem é você?

      – Ué, você não se lembra, ou tá bêbado? Eu sou o cara que tava lá em cima do poste, nestante!