Ailton Villanova

26 de Abril de 2015

O Homem da Capa Preta

      Irreverentes, entretanto competentes, Válter Lima e Jorge Oliveira constituiram a mais célebre dupla de repórteres policiais de Alagoas, na década de 70. Insuperáveis na cata da notícia, incansáveis e determinados perseguidores da prioridade da informação, esses dois jornalistas extrapolavam até os limites de suas próprias forças. E da coragem.

      Brilharam e incomodaram. Os espaços que se abriram para eles em Alagoas, de repente se tornaram exíguos, insuficientes. Então, decidiram  procurar espaços maiores, noutras paragens. Válter Lima se mandou para o Recife e Jorge Oliveira embarcou com destino ao Rio de Janeiro, onde se fixou e se impôs como repórter (depois virou escritor e cineasta) juntamente com outro valoroso colega, o Epaminondas Lima de Amorim, sobrinho do saudoso Nunes Lima, de quem herdou a veia humorística.

      Mais respeito e prestígio Válter e Jorge ganharam fora das Alagoas. Jorge é “Prêmio Esso de Reportagem”, galardão conferido a uma pequena elite do jornalismo nacional. Válter optou, mais tarde, pela linha comercial e triunfou como pequeno empresário, no Recife. Jorge virou, até, cineasta internacional, mercê de sua inteligência, competência e coragem.

      Mas, enquanto pelejaram neste pedaço de chão ainda sofrido alagoano, para eles a informação não teve segredo. Boêmios, cavavam fundo a notícia, displicentes do perigo a que, mais das vezes, se expunham. Gozadores, de vez em quando passavam dos limites.

      No jornalismo nem tudo são flores e os percalços da profissão, esses caras superavam com uma força de vontade incomum. Eram afoitos. Aqui, foram odiados, amados, respeitados, perseguidos e temidos. Tiraram tudo de letra.

                                                      **********

        Num determinado período dos anos 70, escassearam as notícias no ramo policial. Na Capital, a calmaria era geral, porque a malandragem resolveu dar um tempo, por um pequeno detalhe: a polícia andou matando pau. E a tiro, também. A bandidagem daquele tempo, diferente da de hoje, era mais fraca. Temia a polícia. Hoje, não. Pela polícia não tem o menor respeito e a enfrenta com certo ar de superioridade. Os tais “direitos humanos” estão aí para lhes dar guarida, essa é que é a verdade.

      Pois bem, naquele período de carência de informações policiais – que foi prolongado -, Válter Lima e Jorge Oliveira andaram queimando as pestanas para capturar fatos que justificassem boas manchetes para o “Jornal de Alagoas”, matutino para o qual trabalhavam.

      Certa tarde, na redação do jornal, Válter Lima saiu-se com esta:

      – Ô Jorge, se a coisa continuar molenga desse jeito, eu vou pedir ao diretor de redação que me transfera para outra editoria!

      E o Jorge, com ar preocupado:

      – Tá ficando maluco, rapaz? Pra qual editoria você quer se transferir?

      – Para a do Josué Jr. Vou ser cronista social!

      Não foi dessa vez que a crônica social ganhou um excepcional repórter, porque mais que depressinha Jorge Oliveira saltou com uma idéia genial: chamou o colega num canto da sala de redação e propôs:

      – Vamos inventar uma notícia cabeluda!

      – Da galho, meu irmão! – ponderou Válter Lima.

     – Dá nada! É só a gente procurar…

     Os dois, então, meteram mãos à obra. Procuraram daqui, procuraram dali e nada. O tempo correndo, o prazo para o fechamento da página da polícia se esgotando e eles queimando os miolos. De repente, um estalo na cabeça do Válter:

      – Já sei!

      – Já sabe o quê?

      – Vamos refundir aquela notícia da moça que teria sido atacada por um suposto tarado, na praia da Jatiúca!

      – Tudo bem! – concordou Oliveira. – Mas quem é o tarado?

      – Vamos criar um, já que foi você quem deu a ideia primeiro!

      – Tá legal. Mas por mais que a gente estenda a notícia, ela não vai dar nem trinta linhas.

      E o Válter, esfregando as mãos:

      – Fique na sua. A história que estou bolando vai dar, no mínimo, meia página. Vai ser um assombro!

      E foi.

      O texto absolutamente terrorista, foi feito a quatro mãos.

      Dia seguinte, o Jornal de Alagoas abria manchete na capa, chamando para a sensacionalíssima e desafiadora matéria interna:

      “MISTERIOSO HOMEM DA CAPA PRETA ATACA NA JATIÚCA”

      Toda a tiragem do JÁ desapareceu das bancas e dos jornaleiros de rua num abrir e fechar de olhos. Por quatro semanas o matutino associado foi mais lido pelos alagoanos de todos os rincões do estado. As praias de Maceió ficaram desertas até pelo dia. Todo o mulherio com medo do “Homem da Capa Preta”. E a polícia, em peso, mobilizada para capturar o degenerado.

                                              **********

 

      Jorge Oliveira e Válter Lima tomaram gosto pela coisa, incrementaram os textos subsequentes, deram um “banho” nos colegas de outros matutinos, que andavam com ares de doido porque não conseguiam, sequer, chegar junto da dupla. A dupla foi ao cúmulo da loucura: deu garra de uma antiga foto de certo marginal, maquiou a referida com barba longa e bigode e “vestiu-lhe” uma capa preta. Em seguida, mandaram fazer o clichê e publicaram a “obra prima” em seis colunas, com a seguinte legenda: “Este é o terrível ‘Homem da Capa Preta’, num flagrante exclusivo do JÁ”. O cara mais parecia um lubisomem.

      Com esse espetaculoso “furo”, a imprensa concorrente e a polícia ficaram desmoralizados. O secretário de Segurança Pública de então, doutor Francisco Fernandes Costa, chamou seus subordinados e disparou:

      – Quero esse monstro capturado, preferencialmente vivo. Se não der, tragam ele morto, mesmo!

      Aí, aconteceu a coincidência. Uma guarnição da Rádio Ptrulha, comandada pelo então tenente José Jorge Araújo, patrulhando a zona litorânea da Ponta Verde, prendeu um indivíduo que andava se escorando por detrás de um coqueiro. Aquele pedaço de Maceió, era bonito, sim, mas não era a beleza que é hoje. A pista que interliga, pela praia, os bairros de Ponta Verde, Jatiúca, Mangabeiras e Cruz das Almas não existia. A passarela da orla litorânea fenecia no Alagoínhas, de saudosa memória. Naquele ponto, ergueu-se categórico, altaneiro, chamativo das atenções gerais o Gogó da Ema – obra prima da natureza nascido coqueiro.

      A prisão do indivíduo, que, ao ser detido, coincidentemente se  encontrava enrolado num capote preto, causou o maior aquele alvoroço. Para todos, inclusive imprensa e polícia, menos para Válter e Jorge, aquele era o famigerado “Homem da Capa Preta”.

      Na manhã seguinte, o gabinete do delegado Aurino Malta de Oliveira,  da então 2ª. Delegacia Auxiliar de Polícia da Capital encontrava-se abarrotada de jornalistas, radialistas e policiais. A praça Dois Leões, onde situava-se da sede da delegacia, estava repleta de curiosos. Todo mundo na maior revolta, querendo “justiçar” o infeliz, que era tido como o maior degenerado de todos os tempos.

      E o suspeito, cabeça baixa, humilhado, o corpo coberto de equimoses, hematomas, do pau que havia levado, chorava que nem cachorro novo, alegando inocência:

      – Eu não sou tarado, minha gente! Eu sou um trabalhador! Por favor, procurem saber se eu sou ou não sou uma pessoa decente!

      Num canto da sala da autoridade policial, a dupla Válter Lima e Jorge Oliveira reparavam no coitado com olhar de piedade… e de culpa!

      – A gente foi longe demais, bicho! – cochichou Válter no ouvido de Jorge.

     E ele:

     – É, vamos dar um jeito nisso!

     Terminado o “espetáculo” no gabinete da autoridade policial, a dupla saiu triste e cabisbaixa. De volta a redação, decidiram que deveriam dar um basta definitivo naquele brincadeira. De modo que a manchete principal do “Jornal de Alagoas” na edição seguinte, saiu assim:

“POLÍCIA ERROU NA PRISÃO DO CAPA PRETA”

      No corpo da matéria, vinha o esclarecimento firmado por aqueles que reuniam suficiente autoridade e coragem para exprimir a verdade em torno do fato. Jorge Olivira e Válter Lima tornavam explícito que aquele a quem se atribuía a responsabilidade de criminoso despudorado, não era o Homem da Capa Preta coisa nenhuma. A figura só existira mesmo na cabeça da dupla de gozadores. O coitado era mesmo inocente. Tratava-se de um pobre vigia noturno chamado Eunápio. Os PMs do capitão Jorge o haviam confundido com o fictício tarado, quando ele se agachava por detrás de um coqueiro, para despejar um cocozinho tranquilo.