Ailton Villanova

24 de Abril de 2015

Professor também já foi burro!

     José Cavalcanti Barros, carinhosamente chamado de Cavinha, é considerado uma das maiores culturas do jornalismo. Possuidor de extraordinária rapidez de raciocínio, é também procurador de Estado aposentado. De quebra, é ainda consagrado ator, escritor, poeta, humorisrta e repentista de botar no chinelo qualquer um desses que, como tal, ganharam fama neste Brasil.

     A versatilidade profissional de Cavinha sempre se destacou nas ocasiões mais sérias e inusitadas. Sua prodigiosa memória sempre o acudiu com a precisão de um relógio suíço.

     Início da década de 70. Faculdade de Direito da Universidade Federal de Alagoas, primeiro dia de aula da calourada da qual Cavalcanti Barros fazia parte. Os neófitos a introdução à Ciência do Direito, ainda desentrosados, aguardavam com grande expectativa a entrada do professor que ministraria a aula inaugural, que não era outro senão o ilustre mestre Jair Galvão, exaltado como um dos maiores juristas alagoanos. Na Faculdade de Direito de Alagoas, professor Jair Galvão ganhou notoriedade pela sua reputação de enérgico e exigente.

     Nesse dia, mais por uma questão de querer mostrar simpatia do que por outra coisa, o velho mestre do Direito, à guisa de proêmio de sua fala aos calouros, arrastou do fundo do baú de suas recordações, os seguintes versos:

     ” Nem tudo que brilha é ouro,

     nem todo sopapo é murro.

     Nem todo burro é calouro,

     mas todo calouro é burro

     Cavinha, que nunca foi de ficar calado diante de uma desfeita, sentiu-se insultado, ofendido nos seus brios de calouro com o tom de menosprezo manifestado pelo professor na sua saudação aos novos alunos. Então, pôs-se de pé, levantou o braço e, numa inflexão respeitosa, aparteou Jair Galvão:

     – Ilustre mestre, com sua licença…

     E o professor, ainda com ar de mofa no semblante:

     – Pode falar, meu caro…

     – Obrigado. O senhor poderia repetir essa quadrinha?

     Professor Jair Galvão não se fez de rogado. Não só atendeu ao pedido do aluno como, no final da recitação, houve por bem acrescentar o nome do autor da mesma, “a fim de evitar qualquer dúvida”. A quadrinha era de autoria do seu não menos famoso tio Augusto Galvão.

     – Mestre! – insistiu Cavinha, mais humilde ainda – eu poderia bolar aqui uma modesta resposta à sua quadrinha?

     – Fique à vontade. – autorizou o mestre.

     Cavalcanti Barros mandou:

     “Burrice que sem desdouro

     num presente se atém 

     Professor já foi calouro,

     logo foi burro também”.

    Cavalcanti Barros foi aplaudido durante uns três minutos pelos colegas, perante um atônico Jair Galvão.

     Daí em diante, até o final do curso de Direito, Cavalcanti Barros foi o aluno mais respeitado da turma. 

 

 

Papa penedense?

 

     A época era de campanha eleitoral. O saudoso deputado Edmundo Tojal Donato estava entrando na cidade de Penedo, acompanhado de um dos seus mais fiéis correligionários, o prefeito Valdemar Punça, de Olho D'Agua Grande. Estranhamente, as ruas se encontravam desertas, fato que causou perplexidade no alcaide olhodaguagrandense:

    – Ué, cadê o povo daqui, compadre Edmundo?!

    Donato estava por fora e tão espantado quanto o prefeito Punça. Preocupado apenas com a sua campanha pela reeleição à Assembléia Legislativa Estadual, mil andanças pela região do Baixo São Francisco, um monte de comícios, milhões de apertos de mão… realmente o deputado Edmundo Donato não tinha como dar resposta satisfatória ao acompanhante. Mas aventurou:

     – Vai ver é feriado municipal e não avisaram a gente. Vamos confirmar.

     – Vamos.

     O parlamentar parou o carro numa esquina e cumprimentou um grupo de senhores que lá se achavam conversando:

     – Bom dia, amigos.

     – Bom dia, deputado! – responderam todos em coro.

     – Gostaria de saber se hoje é feriado na cidade… O comércio está todo fechado!

     Aí, um dos cidadãos respondeu:

     – Tá sabendo não, deputado?

     – Não. O que foi que houve?

     – O feriado é por causa da morte do Papa João XXIII?

     Donato persignou-se:

     – Morreu quando?

     – Hoje de madrugada, excelência!

     O parlamentar agradeceu e seguiu adiante. Lá na frente, Valdemar Punça, curiosíssimo, cutucou o ombro do Edmundo:

     – Ô cumpade, esse tal de João Vinte e três é daqui de Penedo?

 

 

O sentido da frase

 

     Redação do jornalismo da Rádio Difusora. Eu era o chefe de uma equipe de redatores e repórteres competente e esforçada. Compenetradíssima, a negrada atacava febrilmente os teclados das maquinas datilográficas, porque o jornal-falado tinha que ir ao ar dalí a meia hora. Achando pouco, o companheiro Adelmo dos Santos, chefe adjunto de jornalismo, apertava a turma:

     – Vamos, minha gente! Estamos atrasados!

     De repente, o saudoso José Bartolomeu – o Babá das Cabrochas -, que era repórter setorista, parou repentinamente o matraquear de sua máquina e perguntou, algo aflito, à ninguém especificamente:

     – Me tirem uma dúvida. A palavra INCLUSIVE termina com “e” ou com “i”?

     Aí, salta o repórter de polícia José Maria da Silva, irmão do sonotécnico “Piabinha”, dando uma de censor:

     – Mas o que é isso, Babá?! Então você não sabe como se escreve INCLUSIVE?

     – Tô na dúvida, meu irmão!

     Zé Maria levantou-se do seu canto, postou-se no meio da sala, meteu uma pose professoral e sapecou:

     – Primeiro, você tem que saber o sentido da frase, ou se ela é paroxítona ou proparoxítona, entendeu? Depois, é que você vai decidir se apalavra INCLUSIVE termina com “e” ou com “i”. É simples demais!

     A gargalhada foi geral e incontrolável, fato que motivou o retardamento na irradiação do jornal-falado.

 

 

Ele até queria morrer!

 

     Fernando Henrique Cardoso era senador da República e colega de bancada de Teotônio Vilela, o Menestrel das Alagoas. Certa ocasião, a convite deste, veio à Maceió.

     Orgulhoso das belezas naturais desta terra, mais ainda das nossas comidas típicas, o saudoso Téo pegou FHC e o levou para um almoço no Bar das Ostras, conhecido internacionalmente, pela gostosura de sua comida, principalmente pelo seu camarão ao molho…

     – Fernando, vou levar você para comer o melhor camarão do mundo! – disse o Menestrel ao colega paulista, por cuja cachola não passava, então, a idéia de ser presidente do Brasil.

     No Bar das Ostras FHC mostrou que é bom de boca e entrou firme no rango. Teotônio só observando o ar de satisfação com que o companheiro degustava o camarão. Terminado o almoço, Vilela com aquele vozeirão de causar inveja até ao famoso Cid Moreira, perguntou a FHC: 

     – Como é, Fernando, depois de ter saboreado esse camarão o que é que você quer fazer agora?

     Fernando Henrique, mal podendo falar:

     – Sabe, Teotônio, agora mesmo estou querendo morrer. Qualquer homem, como eu, depois de comer o camarão que eu comi, não tem mais nada de bom a fazer nesta vida.

     Mas teve. Chegou a ser presidente, sem esquecer aquele camarão.