Ailton Villanova

21 de Abril de 2015

Prisão que resultou melada

      Oriundos do interior do estado, rapazes muito bons e bastante comportados, Auriolano e Creosvaldo eram estudantes e hóspedes da finada pensão Mona Lisa, situada na famosa esquina da Rua Augusta com a Rua do Macena, pegadinha a então Delegacia do 1° Distrito de Polícia da Capital, que hoje serve de sede ao Instituto de Identificação. A dona da pensão, dona Valfrida, era uma senhora severa, além de econômica ao extremo. Lá, ele imprimia a “Lei do Cão”. Pequeno exemplo: os hóspedes, em sua maioria jovens, talqualmente os citados Auriolano e Creosvaldo, só podiam tomar banho até às 17 horas, no período de segunda a sexta-feira. Aos sábados, o asseio corporal  limitava-se ao primeiro horário. Quem tomou banho, tomou; quem não tomou… paciência!

      O galho para a rapaziada do pensionato era quebrado, vez ou outra, pelo investigador Manuel Machado, que era o chefe de expediente do 1° DP. Cidadão de bom coração, ele permitia que os meninos tomassem banho com a água poluída de um tanque instalado nos fundos da distrital, tanque este que servia para “tirar serviço” de presos recalcitrantes. Mas, um dia, o delegado titular, Carlomano de Gusmão Miranda, proibiu aquela “mordomia”:

      – Machado, não quero mais esses meninos tomando banho aqui dentro. Pega mal, você sabe.

      E o boníssimo Machado:

      – Está bem, doutor. Se o senhor quer assim…

      Ocorre que o policial sempre permitia, na moita, que a rapaziada molhasse o esqueleto ali, principalmente Auriolano e Creosvaldo, que eram como unha e carne, quando este passavam do horário estipulado por dona Valfrida, a dona da pensão. Certo sábado, depois de um animado bate-bola na antiga Praça da Cadeia, que ficava em frente ao quartel-geral da Polícia Militar, eles chegaram ao pensionato e encontraram a água impedida de uso. É que a torneira que permitia a distribuição do precioso líquido para o banheiro, privada e pias, estava acorrentada. O jeito foi eles apelar para o velho Machado, que aquiesceu, mas com uma recomendação:

      – Vocês têm dois minutos pra tomar banho, porque o delegado está para chegar!

      Mal os rapazes tiraram a roupa e se preparavam para cair no banho, eis que Machado correu até eles, quase sem fôlego:

      – O doutor Carlomano chegou!

      – E o que é que a gente faz, seu Machado? – perguntou um deles, apavorado.

      Imediatamente o policial deu a solução:

      – Depressa, entrem aí no xadrez! Assim que ele for embora eu tiro vocês.

      Auriolano e Creosvaldo foram trancafiados no xadrez e ficaram lá, naquela expectativa. Nesse momento, o delegado surgiu na carceragem e reparou nos dois rapazes.

       – Quem são esses caras, Machado?

       Para dar mais autenticidade à encenação, o chefe de expediente respondeu:

       –  Ah, doutor, nem queira saber. São dois trombadinhas safados. Daqui a pouco eu vou esquentar o couro deles…

       – E por que não agora?

       – Não, doutor, deixa pra mais tarde.

       – Vai ser é agora! – decidiu Carlomano. – Corra lá dentro e me traga aquela bimba de boi. Enquanto isso vou tirando eles do xadrez.

       Os rapazes foram salvos da surra pelo providencial desmaio que sofreram, os dois, ao mesmo tempo, além da inesperada caganeira que se abateu sobre um deles.

       Foram liberados horas mais tarde, depois de terem feito uma faxina em regra, no xadrez. Mas de banho tomado.

 

O ladrão descalçado

      Cabo PM Virgulino Bezerra, que pontificou no Sertão alagoano lá pelos idos de 1927, era um cabra muito vivo e inteligente, embora analfabeto. Exercendo a função de sub-delegado municipal de polícia, um dia, ele se achava puxando um ronco, na maciota, na delegacia, quando embocou lá o comerciante chamado Elesbão Correia, dono de uma loja de produtos variados:

      – Cabo Virgo, fui roubado! Assaltaram a minha loja e levaram um monte de mercadorias: cigarros, garrafas de cachaça, feijão, arroz, farinha…

      – Danou-se, seu Lesbão! Os dizifiliz fizéro a fêra, num foi? Quéde eles?

      – Ôxi, cabo Virgo, como vou saber? Vim aqui pra você mandar prendê-los!

      – Possa dexá. Num é fáci, não, mas vô tenta prendê-lo eles. Vamulá no locáu!

      Foram. Espiando as coisas atentamente, os olhos do cabo Virgulino dançavam nas órbitas. Percorriam o local de cima a baixo e de um lado a outro. De repente, avistou um par de chinelos num canto. Como não eram do dono da loja, Virgulino resolveu leva-los como evidência do crime.

       Mais tarde, na delegacia, ele dava tratos à bola quando lá baixaram três caboclos, que haviam sido detidos por populares, por causa de uma confusão que haviam provocado na zona do meretrício. Virgulino logo percebeu que um deles estava descalço. Usando seu instinto mais uma vez, ele pegou os chinelos e os deixou no chão, bem pertinho de onde os cabras estavam sendo fichados. O descalçado chegou mais pra perto dos chinelos e – zipt! –  meteu os pés dentro deles. Virgulino riu:

       – Brigado a vosmicê, qui me ajudô a discubrí o assarto na loja do véio Lesbão. Têje preso duas vêis! A premêra pela arteração qui deu na gandaia das quenga. A segunda, vosmicê já sabe