Ailton Villanova

19 de Abril de 2015

Testemunha altamente perigosa

      Professora aposentada e vivendo os seus mais de 90 janeiros com muita saúde e disposição, dona Estrevaliana possuía a língua mais ferina de todo o Agreste alagoano. Fofoqueira, estava sempre por dentro dos assuntos mais quentes da região. Um dia, ele foi convocada para prestar depoimento no fórum de Arapiraca, na qualidade de testemunha de um caso muito sério – um assassinato. Ao apresentar-se no fórum, dispensaram-lhe tratamento especial, dada a sua idade. Na hora da audiência, ajeitaram-na numa confortável poltrona, em frente a mesa do juiz que, depois de ter promovido os procedimentos legais introdutórios, passou a palavra ao representante do Ministério Público, doutor Chiquinho, conforme apreciava ser chamado. Este temperou a goela, olhou firme para a velhinha e sapecou:

      – Dona Estrevaliana, sei que a senhora me conhece, mas não sabe exatamente qual é a minha função…

      – Sei! Sei sim, seu moleque! – cortou a velhinha. – Vi você bem novinho, mijando nas calças. E, francamente, Chiquinho, você me decepcionou demais, depois que virou gente!

      – Eeeuu, dona Estrevaliana?!

      – Você sim, seu canalha! Pensa que não sei que você andou traindo sua mulher com a sem-vergonha da Lulu, mulher do dentista? Outra coisa… você é um fofoqueiro muito do sacana!

      O promotor tremia na base, sem querer acreditar no que estava ouvindo. Olhando alternadamente para o juiz e para a plateia, não pronunciava nem um “ai”.

      O magistrado, então, mobilizou-se em seu socorro:

      – Passo a palavra ao advogado de defesa do réu aqui presente!

      Cheio de boçalidade, o causídico chegou mais pra perto da testemunha:

      – Professora…

      Dona Estrevaliana levantou a cabeça, apertou os olhinhos e reparou direitinho na figura a sua frente:

      – Peraí! Você não é o Adolfinho, filho da Januária?

      – Sou sim, senhora. – respondeu o advogado, já demonstrando preocupação.

      – Estou sabendo das suas pinturas, menino!

      – Que pinturas, professora?

      – Boemia. Você é um boêmio desbragado, jogador de baralho e beberrão! Coitada da sua mãe! Morreu de desgosto! E você é advogado, hein? Como conseguiu se formar, seu malandro? Vá ver que não consegue ganhar uma causa, de tão burro que é. Tenho pena dos seus clientes!

      Morto de vergonha, o advogado fez meia-volta e foi sentar no seu canto. Nesse momento, o juiz pediu um tempo à testemunha porque pretendia confabular com o promotor e o advogado. Chamou os dois até a bancada e disse baixinho:

      – Escutem vocês dois. Se perguntarem a essa velha maluca se ela me conhece, mando prender os dois, entenderam?

 

Advogado “bem empregado”

      Um advogado desempregado encontrou um velho amigo e também formado em direito.

      – Emprego novo, hein, Enéas? Como vai indo?

      – Vou muito bem. Finalmente saí do sufoco! Agora tenho trabalho fixo. E você?

      – Continuo desempregado… numa pindaíba danada! A vida está dura!

      – Sei como é, porque passei por isso também. Mas não tem nada, meu amigo. Com um pouco de sorte você vai conseguir também o seu emprego.

      – Se Deus quiser.

      – Bem… você já viu aí no cardápio o vai querer?

      – Vou querer um sanduíche misto e um suco de laranja. Tem abatimento para um velho amigo?

      – Tem.

      – E quanto vai custar?

     O Lanche ficou de graça.

 

Detalhe horrível, mas bom demais!  

      Ao voltar pra casa, depois de uma farra incrementada no Tabuleiro do Pinto, o Perclácio Frazão foi atacado por um monte de baixinhas, tripulantes de um disco voador que se achava estacionado no meio de um canavial.

      As baixinhas pegaram o infeliz, botaram na espaçonave e o levaram para um tal de planeta Jacto que, segundo os astrônomos, fica escondido por detrás de Marte. Dois dias depois, ele estava de volta e contando a sua aventura num barzinho próximo ao Aeroporto dos Palmares:

      – Fui abduzido, rapaziada! Umas baixinhas alienígenas me pegaram e chamaram na grande comigo!

      – E elas são tão gostosas quanto as mulheres da Terra? – indagou um dos amigos.

      – Demais, mano! Demais! Elas tem uma particularidade incrível: a bunda na frente e os peitos atrás!

      – Horrivel, meu!

      – Pode ser horrível, mas é bom demais pra dançar!

Um caso patológico complicado     

      Paciente recente da psicoterapeuta Maria do Carmo Oliveira, o popular Anísio Gorgulho é um tremendo sofredor. Casado com a morenaça Cidália, ele está passando por um momento difícil, incluindo aí as incômodas e persistentes dores de cabeça, que incidem mais precisamente nas quinas da testa. “Chifrite aguda”, diagnosticara, certa feita, o neurologista recifense Alceu Cançado.

      E como principiou o mais recente aperreio do infortunado Anísio?

      Principiou quando, numa nebulosa manhã, ele acordou com uns comichões nas gengivas. Na primeira oportunidade que teve, correu para o consultório do odontólogo Carlos Alberto Prazeres e este, na maior craqueza, diagnosticou apenas reparando superficialmente:

      – É o seguinte, meu amigo… suas gengivas estão sendo atacadas pelas raízes de uma espécie… digamos assim… de uma espécie de chifres que estão nascendo na sua região frontal. É coisa muito séria!

      – E o que é que a gente faz, doutor?

      – O jeito é extrair todos os seus dentes…

      – E eu vou ficar banguela, doutor?

      – Não, não! Providenciaremos um par de próteses. Hoje em dia só é desdentado quem quer.

      – Tá bom, doutor. Mande brasa!

      Doutor Carlos Alberto vestiu o jaleco, sentou o cara na cadeira, aplicou-lhe uma dose adubada de anestesia e chamou o boticão pra frente – zic, zic, zic… Na primeira tacada, arrancou-lhe 10 dentes de uma só vez. Ao cabo de uma semana, as gengivas do Anísio estavam mais zeradas que gengivas de neném.

       E ele, falando com a boca murcha:

       – E aí, doutor? Quando é que as chapas ficam prontas?

       Carlos Prazeres respondeu em cima da bucha:

      – Elas ficam prontas quinze dias depois de eu tirar as medidas da sua boca.

      – Olha, doutor, quero as duas chapas bastante naturais, com tudo a que terão direito, tá legal?

      – Não se preocupe!

      No tempo certo, Anísio saiu do consultório com as próteses superior e inferior naturalíssimas. Tão naturalíssimas, que possuíam discretas cáries, pequenas obturações e, de leve, um mau halitozinho. De quebra, uma dorzinha de dente.

       Agora, o infeliz está se tratando com a doutora Carminha, porque ficou meio pirado. Até agora ele não conseguiu entender como duas carreiras de dentes postiços incomodam mais que as verdadeiras.

        Nem os doutores Carlos Prazeres e Carminha Oliveira também não conseguem entender…!