Olívia Cerqueira

19 de Abril de 2015

Era uma vez a saudade

Olívia de Cássia – Jornalista

 

Sou de um tempo em que a maioria das pessoas estudava em escola pública: rico e pobre ou classe média, não tinha essa distinção; era todo mundo junto. Pelo menos na minha cidade natal, União dos Palmares, era assim. A escola era local onde todo mundo se reunia.

Naquela época a gente ia pro grupo escolar já com seis ou sete anos. As primeiras lições nós aprendíamos em casa, com o irmão mais velho ou com os pais. No meu caso eu aprendi a ler, contar até dez e a fazer o meu nome com o meu irmão mais velho, e daquela época tenho doces lembranças da minha infância já tão distante.

Hoje em dia quem estuda em escola pública é gente carente, a maioria que não tem condição nem de comprar o fardamento e os livros. Vai pra escolar pela merenda oferecida porque em casa não tem o que comer. A escola deixou de ser o centro das atenções, os professores não são valorizados e a violência por lá campeia.

Nos anos 60, apesar da dureza dos anos de chumbo que o País vivia, da rigidez da palmatória e da ignorância de muitos, os professores eram muito queridos e respeitados  por seus alunos, eram como se fossem nossos pais. Desenvolvíamos tanto afeto pelos nossos mestres que frequentávamos suas casas para fazer breves visitas.

Na nossa turma de primário era assim: eu, Rosmary Veras, Graça Melo e tantas outras amigas que a memória agora me falha, íamos à casa de dona Nina Rosa Sarmento, nossa professora do Rocha Cavalcante, a quem chamávamos de mamãe, para buscá-la, já que residia bem perto da escola. Era um carinho tão grande que não esqueço nunca desse detalhe.

Na hora da merenda todo mundo ficava na fila com sua canequinha esperando a vez de ser atendido. Tinha dia do leite, dia da sopa (que era muito gostosa). Tinha gente que repetia tanto a caneca de leite que serviu de piadas pros colegas da escola.

Hoje em dia tudo mudou. A escola não tem mais esse perfil de antes. Com esse processo todo de globalização, as coisas foram mudando muito rapidamente. Somos personagens de um mundo no qual as transformações nos âmbitos social, cultural, político e econômico se processam com impressionante rapidez e força. O progresso avança tendo nas tecnologias cada vez mais complexas e primorosas, suas maiores aliadas.

Novas formas de comunicação e aproximação entre as pessoas surgem, e as economias tornam-se cada vez mais intrinsecamente ligadas e dependentes umas das outras. Mas com toda essa modernidade dos dias atuais, as pessoas estão esquecendo uma coisa muito importante que é a afetividade, a solidariedade e se fecham cada vez mais em seus mundos particulares e únicos, absortos em si mesmos, de posse de seus computadores de última geração ou de celulares poderosos e se esquecem de manter contato fraterno com seu próximo.

Sei que pareço saudosista muitas vezes, mas tenho saudade daquela época da escola. De um tempo em que nós tínhamos mais dificuldade pra conseguir as coisas, mas parece que quando as conseguíamos tinham outro sabor. Um sabor especial de luta, de conquista e de vitória. Coisa que o mundo de hoje está esquecendo de cultivar.

Os jovens não sabem o que é isso, não viveram esse tempo e quando escutam falar a respeito nos rotulam de velhos, de ultrapassados e de enferrujados. Não sabem eles o que perderam de aprendizado da vida, de conhecer a si próprio e o seu próximo, aquele que ele esqueceu de cumprimentar com um bom dia, um boa tarde, um como vai ou um tenha um bom dia e fica com Deus.